"O Cão Que Lembrou Dela" Parte 5
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A fotografia antiga da clínica de Vila Mariana permaneceu aberta sobre a mesa durante vários minutos.
Isabela Monteiro Vasconcelos não conseguia tirar os olhos daquela imagem.
Era o lugar onde ela cresceu.
O lugar onde aprendeu a cuidar dos animais ao lado do pai.
O lugar onde perdeu tudo.
Mas havia algo naquela fotografia que fazia seu coração acelerar.
Perto da porta da clínica, quase escondida pela sombra, estava uma pessoa.
Uma silhueta.
Alguém que parecia estar observando o local antes do incêndio.
Sofia Ribeiro Carvalho ampliou a imagem cuidadosamente.
Mas a qualidade era ruim.
O rosto não aparecia.
Apenas uma pessoa parada na entrada.
"Quem tirou essa foto?"
Isabela perguntou.
Sofia continuou analisando.
"Essa imagem estava dentro do arquivo antigo da investigação."
"Mas nunca foi considerada importante."
Isabela olhou para ela.
"Porque alguém queria que ninguém percebesse."
Sofia ficou em silêncio.
Ela sabia que Isabela estava certa.
Durante anos, o caso do incêndio da clínica de Antônio Monteiro foi tratado como uma tragédia sem solução.
Mas agora tudo começava a fazer sentido.
O desaparecimento dos cães.
Os documentos roubados.
A gravação escondida.
E aquela fotografia.
Nada tinha sido acidente.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Victor Montenegro Ferraz observava seu próprio império começar a mostrar rachaduras.
Por muitos anos, ele construiu uma imagem perfeita.
Para a sociedade, era um empresário de sucesso.
Um homem que aparecia em revistas.
Um investidor respeitado.
Um dono de grandes empresas.
Mas a verdade era escondida atrás de contratos falsos e ameaças.
Sofia passou a madrugada inteira investigando os registros empresariais ligados a Victor.
E quanto mais procurava, mais encontrava.
Pela manhã, ela chegou ao escritório com dezenas de documentos.
Isabela percebeu imediatamente a expressão da investigadora.
"Você descobriu alguma coisa."
Sofia colocou as pastas sobre a mesa.
"Descobri que Victor Montenegro nunca foi apenas um criminoso escondido."
Ela abriu o primeiro documento.
"Ele construiu um império."
Isabela observou os papéis.
E começou a entender.
A primeira empresa era uma construtora.
Grandes prédios.
Condomínios de luxo.
Obras espalhadas por São Paulo.
Mas Sofia mostrou outros documentos.
"Essas empresas de construção eram usadas para movimentar dinheiro."
Depois abriu outra pasta.
"Empresas de segurança."
Isabela franziu a testa.
Sofia explicou:
"Os contratos permitiam que os homens de Victor circulassem legalmente em vários lugares."
Ela continuou.
"Mas o pior estava aqui."
A última pasta foi aberta.
Dentro dela estavam registros de eventos clandestinos.
Competições ilegais.
Animais usados como entretenimento.
E nomes de pessoas importantes envolvidos.
Isabela sentiu um nó na garganta.
"Então meu pai descobriu tudo isso."
Sofia confirmou.
"Sim."
Ela apontou para alguns documentos.
"Antônio não estava investigando apenas maus-tratos contra animais."
Ela respirou fundo.
"Ele estava prestes a derrubar todo o império de Victor."
Isabela se levantou lentamente.
Durante seis anos, ela pensou que seu pai tinha morrido por causa de uma denúncia pequena.
Agora percebia que Antônio tinha enfrentado uma organização inteira.
"Ele sabia que estava em perigo."
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Sofia olhou para ela.
"Sabia."
"Então por que ele ficou?"
A investigadora respondeu:
"Porque alguém precisava tentar parar isso."
Aquelas palavras atingiram Isabela profundamente.
Ela lembrou do pai.
Da forma como ele cuidava dos animais.
Da forma como acreditava que fazer o certo ainda tinha valor.
Mesmo quando todos diziam que era impossível.
Naquele momento, Isabela percebeu que o pai não tinha sido uma vítima.
Ele tinha sido alguém que tentou lutar até o fim.
Mas havia algo que ainda não fazia sentido.
Ela olhou novamente para os documentos.
"Se Victor sabia que meu pai tinha provas..."
Sofia completou:
"Ele tentou destruir tudo."
Isabela ficou em silêncio.
Mas então lembrou da gravação.
A voz de Antônio.
A frase que ele deixou antes de morrer.
Confie no Nero.
Ela olhou para a janela.
"Nero não era apenas um cachorro."
Sofia acompanhou o pensamento dela.
"Ele era uma proteção."
As duas ficaram em silêncio.
Porque agora entendiam.
Antônio sabia que os documentos poderiam desaparecer.
Sabia que as pessoas poderiam mentir.
Mas acreditava que Nero carregava uma lembrança que Victor jamais conseguiria apagar.
Enquanto a investigação avançava, Victor tentava controlar os danos.
Em sua cobertura luxuosa nos Jardins, ele recebeu uma ligação.
"Senhor, a Polícia Federal começou a analisar suas empresas."
Victor ficou parado diante da janela.
"Quem?"
"Sofia Ribeiro Carvalho."
O rosto dele ficou sério.
Aquele nome já tinha aparecido muitas vezes.
A investigadora estava chegando perto demais.
"E Isabela?"
A voz do outro lado respondeu:
"Ela está com Sofia."
Victor fechou os olhos por alguns segundos.
Então falou:
"Então as duas precisam desaparecer da minha frente."
Mas dessa vez, sua voz não tinha a mesma segurança de antes.
Porque ele sabia que algo tinha mudado.
Antes, ele controlava a história.
Agora, outras pessoas estavam descobrindo a verdade.
Naquela tarde, Isabela voltou até o antigo terreno da clínica.
O local estava abandonado há anos.
As paredes queimadas ainda carregavam marcas do incêndio.
Ela caminhou lentamente pelo lugar onde viveu tantos momentos com o pai.
Nero estava ao lado dela.
Como se também lembrasse daquele lugar.
Isabela encontrou uma pequena sala que não havia sido completamente destruída.
Atrás de uma parede quebrada, havia uma caixa de metal escondida.
Ela chamou Sofia imediatamente.
As duas abriram a caixa juntas.
Dentro havia cópias de documentos.
Fotos.
Anotações feitas por Antônio.
E uma carta.
Isabela reconheceu a letra imediatamente.
Era do pai.
Com as mãos tremendo, abriu o papel.
As primeiras palavras fizeram seus olhos se encherem de lágrimas.
"Minha filha, se você encontrou isso, significa que eu não consegui terminar o que comecei."
Ela respirou fundo e continuou lendo.
Antônio explicava que havia descoberto algo ainda maior.
Algo que nem Victor sabia que ele tinha encontrado.
Sofia se aproximou.
"O que está escrito?"
Isabela levantou os olhos.
Seu rosto tinha mudado.
Porque aquelas palavras revelavam uma nova ameaça.
"Meu pai escreveu que Victor não trabalhava sozinho."
Sofia ficou séria.
Isabela voltou a olhar para a carta.
Mas antes que pudesse terminar a leitura, uma parte do papel chamou sua atenção.
Uma assinatura.
Um nome.
Alguém que ela conhecia.
Alguém que estava próximo da família durante todos aqueles anos.
Isabela sentiu o sangue gelar.
Porque o verdadeiro segredo por trás da morte do seu pai talvez não estivesse apenas dentro do império de Victor.
Talvez estivesse dentro da própria família.
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