"O Cão Que Lembrou Dela" Parte 4
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Na manhã seguinte, São Paulo acordou cercada por notícias sobre uma movimentação policial em uma antiga área industrial da Zona Leste.
Mas ninguém sabia o que realmente tinha acontecido dentro daquele galpão.
Ninguém sabia que, naquela noite, algo que parecia impossível havia acontecido.
Victor Montenegro Ferraz perdeu o controle sobre suas próprias armas.
E para um homem como ele, aquilo era uma humilhação que doía mais do que qualquer derrota.
Dentro da sua mansão em Jardins, Victor caminhava de um lado para o outro em seu escritório.
O ambiente era silencioso.
As paredes estavam cobertas por obras de arte caras, móveis importados e fotografias que mostravam um homem poderoso e respeitado.
Mas naquela manhã, tudo aquilo parecia pequeno.
Porque uma única imagem não saía da sua cabeça.
Nero parado diante de Isabela.
Protegendo ela.
Contra ele.
Victor segurava um copo de cristal na mão.
Seus dedos apertavam tanto que pareciam prestes a quebrá-lo.
Eduardo Vasconcelos, seu principal homem de confiança, permanecia parado perto da porta.
Ele nunca tinha visto Victor daquele jeito.
"Você entende o que aconteceu ontem?"
A voz de Victor era baixa.
Eduardo hesitou.
"Ela conseguiu fugir."
Victor virou lentamente.
"Não."
Ele colocou o copo sobre a mesa.
"Ela não fugiu."
Um silêncio pesado tomou conta do escritório.
"Os cães deixaram ela fugir."
Eduardo abaixou o olhar.
Porque aquela era exatamente a verdade que ninguém queria dizer.
Durante anos, Victor construiu sua reputação usando medo.
Pessoas obedeciam porque tinham medo das consequências.
Empresários assinavam contratos porque tinham medo de perder tudo.
Funcionários permaneciam calados porque tinham medo dele.
E aqueles três cães eram a maior prova do seu controle.
Ele havia transformado animais abandonados em símbolos da sua crueldade.
Mas naquela noite, diante de todos os seus homens, eles escolheram uma pessoa diferente.
Isabela.
Victor se aproximou da janela.
A cidade estava movimentada lá embaixo.
Milhares de pessoas vivendo suas vidas sem imaginar os segredos escondidos atrás dos prédios luxuosos.
"Eu salvei aqueles animais."
Ele falou.
Eduardo ficou surpreso.
Victor continuou:
"Eu dei comida."
"Eu dei treinamento."
"Eu transformei eles em algo que ninguém conseguiria enfrentar."
Ele virou o rosto.
"E mesmo assim eles escolheram aquela mulher."
Eduardo tentou encontrar uma explicação.
"Talvez seja apenas uma reação antiga."
Victor olhou para ele.
"Você acha que eu não pensei nisso?"
A resposta veio acompanhada de raiva.
"Seis anos."
Ele caminhou até a mesa.
"Seis anos treinando eles."
"Seis anos apagando qualquer lembrança daquele veterinário."
O nome de Antônio quase saiu da boca dele.
Mas Victor se conteve.
Porque até mencionar aquele homem parecia incomodá-lo.
Ele apertou a mandíbula.
"Eu quero os cães de volta."
Eduardo assentiu.
"E a Isabela?"
Victor ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu:
"Ela encontrou uma coisa que não deveria existir."
Ele olhou para os documentos espalhados sobre a mesa.
"A gravação."
Eduardo ficou tenso.
"Ela conseguiu encontrar?"
Victor percebeu a reação.
Então sorriu de forma fria.
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"Agora eu tenho certeza."
Ele se aproximou.
"E isso significa que ela sabe mais do que deveria."
Enquanto isso, em uma propriedade afastada de São Paulo, os três cães estavam novamente sob o controle dos homens de Victor.
O local era usado para treinamento.
Muros altos.
Câmeras.
Portões de ferro.
Ninguém entrava sem autorização.
Victor queria recuperar o que considerava dele.
Ele estava determinado a provar que aquela noite tinha sido apenas uma falha.
Nero, Thor e Zeus estavam presos em uma área cercada.
Um treinador contratado por Victor entrou no espaço.
"Vamos começar novamente."
Ele segurava comandos e equipamentos usados para treinamento.
Mas assim que o homem se aproximou, os três cães permaneceram imóveis.
O treinador estranhou.
Eles sempre obedeciam.
Sempre.
Ele olhou para Victor, que observava atrás do vidro.
"Talvez eles estejam cansados."
Victor respondeu imediatamente:
"Não."
Sua voz era fria.
"Eles estão lembrando."
O treinador tentou dar uma ordem.
Mas os cães não reagiram.
Então ele apontou para uma fotografia.
Era uma imagem de Isabela.
Victor queria ver a reação deles.
"Atacar."
Nada.
O treinador repetiu.
"Atacar."
Mais uma vez.
Nada.
Nero apenas olhou para a fotografia.
Depois virou o rosto.
Victor sentiu uma raiva crescente.
Ele abriu a porta e entrou no espaço.
Todos os homens ficaram atentos.
"Você sabe quem eu sou?"
Ele falou olhando para Nero.
O cachorro levantou os olhos.
Durante alguns segundos, os dois ficaram parados.
Victor estava acostumado a dominar pessoas com apenas um olhar.
Mas aquele animal não demonstrava medo.
Apenas lembrança.
"Eu tirei vocês daquele lugar."
Victor falou.
"Eu mantive vocês vivos."
Nero continuou em silêncio.
Victor se aproximou.
"Vocês pertencem a mim."
Foi então que aconteceu.
Nero caminhou lentamente para frente.
Todos os homens ficaram tensos.
Mas o cachorro não avançou contra ninguém.
Ele passou por Victor.
E ficou diante da porta de saída.
Como se quisesse ir embora.
Como se estivesse escolhendo outro caminho.
Os outros dois cães fizeram o mesmo.
O silêncio foi absoluto.
Eduardo observava tudo do lado de fora.
E pela primeira vez, uma dúvida apareceu em seu rosto.
Se os cães não obedeciam Victor...
Quem mais poderia deixar de obedecer?
Um dos funcionários mais antigos cochichou:
"Ele perdeu o controle."
Outro respondeu:
"Se até os cães não têm mais medo dele..."
A frase ficou incompleta.
Mas todos entenderam.
Victor ouviu.
E seu olhar mudou.
Ele percebeu que o problema não era apenas Nero.
Era a imagem dele.
Durante anos, todos acreditaram que Victor Montenegro era intocável.
Mas agora seus próprios homens tinham visto uma coisa impossível.
Ele podia ser desafiado.
Ele podia falhar.
Ele podia perder.
Victor saiu do espaço de treinamento sem dizer nada.
Mas dentro da sua cabeça, uma decisão já estava tomada.
Se Nero lembrava de Isabela...
Então ele usaria essa ligação contra ela.
Porque Victor não precisava destruir apenas a mulher.
Ele precisava destruir a única memória que ainda mantinha aqueles animais do lado dela.
Naquela noite, enquanto Isabela e Sofia analisavam novamente a gravação de Antônio, uma nova mensagem chegou ao celular da investigadora.
Era de um número desconhecido.
Apenas uma frase.
"Se quiser descobrir o que aconteceu com seu pai, procure o lugar onde tudo começou."
Isabela olhou para Sofia.
E antes que pudessem responder, uma segunda mensagem apareceu.
Com uma fotografia antiga da clínica de Vila Mariana.
Mas no canto da imagem havia algo que nenhuma das duas tinha visto antes.
Uma pessoa parada perto da porta.
Alguém que deveria estar morto há seis anos.
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