"O Cão Que Lembrou Dela" Parte 3
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A chuva continuava caindo sobre São Paulo quando o caos tomou conta do galpão abandonado.
Depois de anos obedecendo às ordens de Victor Montenegro Ferraz, os três cães negros permaneceram parados diante de Isabela Monteiro Vasconcelos.
Não como armas.
Mas como proteção.
Os homens de Victor não sabiam como reagir.
Eles estavam acostumados a ver medo.
Estavam acostumados a ver pessoas implorando.
Mas naquela noite, pela primeira vez, alguém havia quebrado o controle daquele homem.
Victor observava Nero com o rosto completamente fechado.
Ele não conseguia aceitar o que estava acontecendo.
"Venha até aqui."
Sua voz saiu baixa.
Firme.
Uma ordem que todos naquele lugar conheciam.
Mas Nero não se moveu.
O cachorro permaneceu na frente de Isabela.
Protegendo-a.
Victor apertou os punhos.
"Eu disse para vir."
Ainda assim, nada aconteceu.
Isabela percebeu naquele momento que aquele animal tinha acabado de fazer algo que ninguém ao redor de Victor conseguia fazer.
Desobedecer.
Ela aproveitou a confusão.
Quando os homens começaram a olhar para Victor esperando uma decisão, Isabela empurrou a grade lateral que estava enferrujada pela chuva.
Com a força do desespero, conseguiu abrir uma pequena passagem.
Nero se virou imediatamente.
Não para atacar.
Mas para acompanhá-la.
Isabela correu pelo corredor escuro do galpão enquanto os alarmes começaram a tocar.
Os homens de Victor perceberam tarde demais.
"Ela está fugindo!"
Os passos ecoavam pelo concreto molhado.
Isabela corria sem saber para onde estava indo.
Ela só sabia uma coisa.
Precisava sair daquele lugar.
Precisava sobreviver.
Porque agora ela tinha certeza.
Seu pai não estava errado.
Victor Montenegro tinha roubado os cães.
Tinha destruído sua família.
E talvez tivesse tentado apagar a verdade durante todos aqueles anos.
Quando conseguiu atravessar uma porta lateral do galpão, a chuva atingiu seu rosto com força.
Ela caiu de joelhos no chão molhado.
Seu corpo inteiro tremia.
Mas antes que pudesse levantar, ouviu uma voz atrás dela.
"Isabela!"
Ela se virou assustada.
Por alguns segundos, pensou que fosse um dos homens de Victor.
Mas então viu uma mulher caminhando entre a chuva.
Era Sofia Ribeiro Carvalho.
A investigadora da Polícia Federal.
Ao lado dela havia outros agentes.
Isabela ficou sem reação.
"Sofia?"
A policial se aproximou rapidamente e segurou seus braços.
"Você está machucada?"
Isabela tentou responder, mas as lágrimas começaram a cair.
Não de medo.
De alívio.
"Eu achei que ninguém tinha recebido minha mensagem."
Sofia respirou profundamente.
"Eu recebi."
Ela olhou para o galpão atrás delas.
"Mas não foi só por causa da sua mensagem que eu vim."
Isabela franziu a testa.
"O que você quer dizer?"
Sofia ficou em silêncio por alguns segundos.
Como se estivesse escolhendo as palavras certas.
"Eu descobri algo sobre seu pai."
O coração de Isabela acelerou.
Durante seis anos, ela esperou por qualquer informação.
Qualquer detalhe.
Qualquer prova.
"Sobre meu pai?"
Sofia confirmou com a cabeça.
"Antônio Monteiro não morreu em um acidente."
Aquelas palavras fizeram Isabela parar completamente.
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Mesmo depois de tantos anos acreditando nisso, ouvir alguém confirmar em voz alta trouxe uma dor diferente.
Uma dor mais profunda.
"Você tem certeza?"
Sofia olhou diretamente para ela.
"Tenho."
A chuva continuava caindo entre as duas.
"Seu pai descobriu coisas que Victor Montenegro queria esconder."
Isabela fechou os olhos.
Ela já sabia.
Mas agora alguém finalmente estava dizendo.
Sofia abriu uma pasta protegida dentro de uma bolsa.
Retirou um pequeno dispositivo de armazenamento.
"Ele deixou isso escondido."
Isabela olhou para o objeto.
"Meu pai deixou?"
"Sim."
Sofia entregou o dispositivo.
"Encontramos dentro de uma parede falsa na antiga clínica."
O mundo de Isabela pareceu parar.
A antiga clínica.
O lugar onde ela cresceu.
O lugar onde perdeu tudo.
O lugar que foi destruído pelo fogo.
"Por que ninguém encontrou antes?"
Sofia respondeu:
"Porque alguém tentou apagar todas as provas."
Ela fez uma pausa.
"Mas seu pai sabia que isso poderia acontecer."
Isabela segurou o dispositivo com as mãos tremendo.
"Ele sabia que Victor viria atrás dele."
Sofia não respondeu.
Porque as duas já sabiam a verdade.
Dentro daquela pequena gravação estava a resposta que Isabela procurou durante seis anos.
Elas foram para um veículo da polícia estacionado longe do galpão.
Dentro do carro, Sofia conectou o dispositivo.
A tela acendeu.
Por alguns segundos, apareceu apenas uma imagem escura.
Então a gravação começou.
A voz de Antônio surgiu.
Isabela levou a mão até a boca.
Era a voz do pai.
A mesma voz que ela achou que nunca mais ouviria.
"Isabela, se você está vendo isso, significa que alguma coisa aconteceu comigo."
As lágrimas começaram a cair.
Sofia permaneceu em silêncio.
Respeitando aquele momento.
Na gravação, Antônio apareceu sentado dentro da clínica.
O rosto dele estava cansado.
Mas seus olhos continuavam determinados.
"Eu descobri que os animais que chegaram até nós não foram vítimas de acidentes."
Ele respirou fundo.
"Eles foram usados por uma rede criminosa."
A imagem tremeu.
Então Antônio mostrou documentos.
Fotos.
Registros.
Entre eles, o nome de Victor Montenegro.
Isabela segurou a tela.
"Meu Deus..."
A gravação continuou.
"Victor não quer apenas esconder crimes contra animais."
Antônio olhou diretamente para a câmera.
"Ele quer eliminar qualquer pessoa que possa revelar a verdade."
Então aconteceu algo.
A imagem começou a falhar.
O vídeo ficou cheio de ruídos.
Depois a tela escureceu.
Sofia tentou avançar a gravação.
Mas uma mensagem apareceu.
Arquivo danificado.
Parte do conteúdo havia sido apagada.
Isabela ficou desesperada.
"Não."
Ela olhou para Sofia.
"Não pode acabar agora."
A investigadora tentou recuperar o arquivo.
Mas apenas alguns segundos restantes estavam disponíveis.
Então a voz de Antônio voltou.
Mais baixa.
Mais distante.
Como se ele estivesse falando antes de alguém chegar.
"Isabela..."
Ela congelou.
Era como se o pai estivesse falando diretamente com ela.
"Se eu não estiver mais aqui..."
Uma pausa.
Um barulho apareceu ao fundo.
Como uma porta sendo aberta.
A voz de Antônio ficou mais urgente.
"Confie no Nero."
Isabela ficou imóvel.
Sofia levantou os olhos.
As duas se olharam sem entender.
Então o vídeo terminou.
Silêncio.
Durante alguns segundos, ninguém falou nada.
Porque aquela frase mudava tudo.
Nero não era apenas um cachorro que sobreviveu.
Ele era uma parte da última mensagem de Antônio.
Isabela olhou pela janela do carro.
Do lado de fora, entre as sombras da chuva, Nero estava parado observando.
Como se soubesse que o segredo finalmente tinha sido revelado.
Sofia respirou fundo.
"Seu pai sabia que eles seriam levados."
Isabela olhou para ela.
"E sabia que Nero voltaria para mim."
Antes que Sofia pudesse responder, um dos agentes bateu no vidro do carro.
Ele estava pálido.
"Sofia..."
A investigadora abaixou a janela.
"O que aconteceu?"
O agente olhou para o galpão.
"Victor desapareceu."
Isabela sentiu um arrepio.
"Como assim desapareceu?"
O agente engoliu seco.
"Ele saiu antes que conseguíssemos entrar."
Sofia ficou séria.
Porque aquilo só podia significar uma coisa.
Victor ainda tinha alguém trabalhando para ele.
E agora que Isabela tinha encontrado a gravação de Antônio...
Ele faria qualquer coisa para impedir que a última parte da verdade viesse à tona.
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