"A Mulher Escondida no Porão da Mansão" Parte 4
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A fotografia antiga continuava sobre a mesa do escritório de Augusto Montenegro.
Dante Montenegro Vasconcelos não conseguia tirar os olhos daquela imagem.
Durante toda sua vida, acreditou conhecer sua própria história.
Acreditou saber quem era seu pai.
Acreditou entender de onde vinha sua família.
Mas agora uma simples fotografia havia destruído todas as certezas que ele carregava.
O homem que ele admirava escondia segredos.
O homem que construiu seu império talvez nunca tivesse contado a verdade.
Dante segurava a fotografia enquanto Mariana permanecia em silêncio.
Ela sabia que aquele momento chegaria.
Sabia que um dia ele descobriria.
"Diga tudo."
A voz de Dante estava fria.
Mas havia algo diferente nela.
Não era apenas raiva.
Era dor.
Mariana respirou fundo.
"Dante, existem coisas que você precisa saber antes de me julgar."
Ele colocou a fotografia sobre a mesa.
"Então comece."
Ela olhou para Sofia, que brincava no quarto ao lado.
Depois fechou os olhos por alguns segundos.
"Eu nunca fui apenas uma funcionária da sua casa."
Dante ficou imóvel.
A frase confirmou todos os seus medos.
"Então você mentiu para mim durante três anos?"
Mariana abaixou o olhar.
"Eu escondi a verdade."
"É diferente?"
Ela não respondeu.
Porque sabia que, naquele momento, para Dante não era.
Ele havia sido traído pelo homem que chamava de irmão.
Agora descobria que uma mulher dentro da sua própria casa também escondia informações.
"Quem era você antes de trabalhar aqui?"
Mariana segurou a pequena caixa de madeira.
"Há dez anos, eu investigava a família Montenegro."
O silêncio foi imediato.
Dante deu um passo para trás.
"Você investigava minha família?"
"Sim."
"Por quê?"
Mariana respirou fundo.
"Por causa do Lucas."
O nome do marido morto voltou a pesar no ambiente.
Dante se lembrou da história.
Um homem que descobriu informações sobre a família Montenegro e morreu em um suposto acidente.
"Seu marido estava investigando meu pai."
"Sim."
"E você continuou o trabalho dele."
Mariana confirmou.
"Eu precisava descobrir o que aconteceu com ele."
Dante ficou olhando para aquela mulher.
Durante três anos, ela havia servido café.
Organizado reuniões.
Cuidado da casa.
Mas escondia uma investigação contra sua família.
"Então você entrou na minha mansão para encontrar provas."
A acusação fez Mariana fechar os olhos.
"Sim."
A resposta direta surpreendeu Dante.
Ela não tentou negar.
Não tentou inventar desculpas.
Ela simplesmente admitiu.
"Você se aproximou de mim para investigar minha família?"
Mariana demorou a responder.
"Quando eu cheguei aqui, sim."
Dante sentiu um aperto no peito.
Porque aquela resposta parecia uma confirmação de traição.
"Então tudo foi uma mentira."
"Não."
Mariana levantou os olhos.
"Nem tudo."
Dante virou o rosto.
"Como eu posso acreditar?"
Ela ficou em silêncio.
Porque sabia que confiança era algo que não podia exigir.
Precisava reconstruir.
"Depois que Lucas morreu, eu encontrei uma carta escondida."
Dante voltou a olhar para ela.
"Que carta?"
Mariana abriu a caixa de madeira.
Dentro havia um envelope antigo.
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As bordas estavam gastas pelo tempo.
Ela colocou sobre a mesa.
"Lucas deixou isso para mim."
Dante pegou o envelope.
"Por que nunca entregou isso antes?"
"Porque eu tinha medo."
"Medo de quê?"
Mariana olhou para a mansão.
"De descobrir que ele estava certo."
Dante abriu a carta lentamente.
A caligrafia era masculina.
As primeiras linhas fizeram sua expressão mudar.
"Mariana, se alguma coisa acontecer comigo, não confie em ninguém ligado aos Montenegro."
Ele continuou lendo.
"Eu descobri que o império construído por Augusto Montenegro nasceu de segredos que podem destruir muitas vidas."
Dante apertou o papel.
Aquela frase parecia impossível.
Mas ao mesmo tempo explicava tudo.
Mariana continuou:
"Lucas passou meses investigando as empresas do seu pai."
"E encontrou o quê?"
Ela respondeu:
"Ele descobriu que Augusto mantinha uma rede escondida de empresas e pessoas trabalhando fora da lei."
Dante caminhou até a janela.
São Paulo estava diante dele.
Milhões de pessoas vivendo suas vidas sem imaginar os segredos por trás de grandes famílias.
"Você acha que meu pai matou seu marido?"
A pergunta ficou pesada.
Mariana demorou.
"Eu não sei."
Dante virou.
"Mas você suspeita."
Ela não respondeu.
E o silêncio foi suficiente.
Naquele momento, Dante percebeu que a história era muito maior do que Eduardo e Carolina.
Talvez o problema tivesse começado décadas antes.
Talvez a traição estivesse enterrada na própria origem da família.
"Diga uma coisa."
Mariana olhou para ele.
"Quando você entrou nessa casa, você queria destruir os Montenegro?"
Ela ficou surpresa com a pergunta.
"Dante..."
"Responda."
Mariana respirou fundo.
"Eu queria descobrir a verdade."
"Isso não responde."
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Então respondeu:
"No começo, eu queria justiça."
Dante observava cada expressão dela.
"E depois?"
Mariana olhou para Sofia.
"Depois eu conheci você."
A resposta o deixou sem reação.
"Você acha que eu acredito nisso?"
Mariana se aproximou lentamente.
"Eu sei que é difícil."
"Você sabia quem eu era."
"Sim."
"Sabia que eu era filho de Augusto."
"Sim."
"E mesmo assim ficou perto de mim."
Ela assentiu.
"Porque eu percebi que você não era como ele."
Dante ficou parado.
Durante anos, ele tentou fugir da sombra do próprio pai.
E agora uma pessoa que investigava sua família dizia que ele era diferente.
Mas ele ainda não sabia se podia confiar nela.
"Mariana."
A voz dele ficou mais baixa.
"Você tinha acesso à minha casa, à minha rotina e à minha família."
Ela entendeu o que ele queria dizer.
"Você acha que eu estava planejando algo contra você."
Dante não respondeu.
Porque era exatamente isso que pensava.
Nesse momento, Sofia entrou correndo no escritório.
"Mãe."
Mariana virou.
A menina segurava outra coisa nas mãos.
Um pequeno pendrive antigo.
"Eu encontrei isso dentro da caixa."
Mariana ficou surpresa.
"Eu não sabia que estava aí."
Dante pegou o objeto.
"Talvez tenha uma resposta."
Rafael entrou no escritório.
"Conseguimos abrir os arquivos antigos do pai do senhor."
Dante olhou para ele.
"E?"
Rafael parecia preocupado.
"Encontramos registros de uma investigação particular feita há dez anos."
Mariana ficou pálida.
"Sobre quem?"
Rafael olhou para ela.
"Sobre Lucas Almeida."
O ambiente congelou.
Dante encarou Mariana.
"Meu pai investigava seu marido?"
Mariana não respondeu.
Porque aquela informação mudava tudo.
Se Augusto sabia quem era Lucas...
Então talvez soubesse por que ele morreu.
Dante ligou o pendrive.
Um único arquivo apareceu.
Um vídeo antigo.
Gravado por Augusto Montenegro.
A imagem tremia.
Mas a voz era clara.
"Se você está vendo essa gravação, significa que alguém descobriu a verdade."
Dante ficou imóvel.
A voz do próprio pai ecoava na sala.
E então Augusto disse algo que fez Mariana perder a cor do rosto.
"Mariana Almeida é a única pessoa capaz de proteger meu filho."
Dante olhou para Mariana.
Ela também parecia não entender.
Porque naquele momento uma nova pergunta surgiu.
Se Augusto confiava nela...
Por que ela havia escondido tudo de Dante?
Mariana segurou a mão dele.
E disse em voz baixa:
"Eu não queria destruir sua família..."
Ela respirou fundo.
"Eu queria salvar você."
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