"O Trono de Cinzas: No Limite da Paixão" Capítulo 4
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A madrugada estendia-se pesada sobre a megalópole, envolvendo a cobertura em um silêncio denso e quase sagrado. O tapete vermelho já pertencia ao passado, mas o eco daquela noite triunfal ainda vibrava nas paredes do estúdio particular de Gabriel.
Dentro da cabine de isolamento acústico, Lucas repetia a mesma nota alta pela quarta vez consecutiva. Sua voz, rouca e carregada de uma vulnerabilidade visceral, cortava o ar com a precisão de uma lâmina.
Sentado diante da mesa de som, Renato ajustava os botões do equalizador com uma expressão de êxtase artístico. O produtor musical, conhecido por seu gênio excêntrico e tolerância zero a produtos artificiais, olhava para o cantor como se visse ouro puro.
"Mais uma vez, garoto", pediu Renato através do microfone interno, balançando a cabeça em aprovação. "Deixe a dor rasgar a sua garganta, não esconda o veneno."
Lucas fechou os olhos por um instante, respirando fundo o ar filtrado da cabine. A lembrança dos sorrisos cínicos de Matheus e da traição rasteja na Apex Media voltou com força total, transformando-se em combustível para sua alma.
Do outro lado do vidro duplo, Gabriel von Strauss fingia ler relatórios financeiros em um tablet iluminado pela luz azulada da tela. No entanto, nenhum número conseguia reter sua atenção diante daquela voz que parecia arrancar pedaços de seu próprio peito.
O gelo inabalável que envolvia o coração do magnata começava a derreter sob o calor daquelas notas musicais carregadas de dor e desafio. Gabriel ergueu o olhar lentamente, fitando a silhueta esguia de Lucas através do vidro com uma intensidade dolorosa.
"Ele tem a alma machucada, Renato", murmurou Gabriel em voz baixa, quase para si mesmo, enquanto observava o cantor pigarrear para recomeçar.
"A alma dele é a única coisa autêntica que restou nesta indústria de plástico, chefe", retrucou Renato sem tirar os olhos da mesa de mixagem. "Proteja-o bem, porque talentos assim incendeiam o mundo ou viram cinzas."
Na cabine, Lucas deu início à gravação definitiva, descarregando toda a sua raiva e o seu desespero acumulados em uma melodia dilacerante. Cada palavra cantada soava como uma confissão de sangue, um grito de guerra contra todos os que tentaram destruí-lo.
Gabriel sentiu o estômago contrair-se de uma forma desconhecida e assustadora. A armadura de homem intocável desmoronava a cada segundo, deixando à mostra uma necessidade animalesca de proteger e possuir aquele garoto.
Assim que a última nota se dissipou no ar abafado da cabine, Renato deu sinal positivo com o polegar e retirou os fones de ouvido. "Terminamos por hoje, rapazes. Essa faixa é um massacre comercial e espiritual."
Renato recolheu seus pertences com rapidez, despedindo-se com um aceno breve antes de sumir pelo corredor. A porta pesada fechou-se com um estalido suave, deixando Gabriel e Lucas completamente sozinhos no estúdio.
Lucas empurrou a porta da cabine de vidro e saiu vagarosamente, enxugando o suor da testa com as costas da mão enfaixada. A adrenalina da gravação dava lugar a uma exaustão repentina que amolecia suas pernas.
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"Você exagerou na dose hoje", comentou Gabriel, levantando-se da cadeira com movimentos pausados e deliberados. "Sua voz estava rasgando demais, Lucas."
Lucas parou a poucos passos da mesa de som, erguendo o queixo com um desafio cansado nos olhos amberinos. "A dor é o melhor afinador que existe, Gabriel. Você deveria tentar cantar alguma vez."
Gabriel deu dois passos à frente, diminuindo a distância que os separava no espaço confinado. "Não brinque com o que você não conhece, passarinho."
"Eu não estou brincando", retrucou Lucas, dando mais um passo em direção ao magnata. "Sei muito bem com quem estou lidando, assim como sei que você não tirou os olhos de mim a noite toda."
O ar entre eles tornou-se rarefeito, carregado de uma eletricidade estática que fazia a pele formigar. A proximidade física exigia respostas que nenhum dos dois ousava verbalizar abertamente.
Enquanto a tensão subia na sala, a tela do notebook de Gabriel sobre a mesa acendeu-se com um alerta sonoro discreto. Um novo e-mail criptografado acabara de chegar de sua central de inteligência internacional.
Gabriel desviou os olhos de Lucas por um segundo, tocando a tela para abrir o arquivo sigiloso. O teor da mensagem fez com que o sangue em suas veias congelasse instantaneamente.
"O que foi?", perguntou Lucas, percebendo a mudança abrupta na postura do homem à sua frente. "Aconteceu alguma coisa com a queda da Apex?"
"Mais do que isso", respondeu Gabriel com a voz mortalmente baixa, os olhos fixos nas linhas de texto cifrado. "O verdadeiro acionista oculto por trás da falência da minha família, anos atrás, é o mesmo fundo de investimento que financia a Apex Media."
Lucas arregalou os olhos levemente, assimilando o peso daquela revelação bombástica. "Então nós estamos lutando contra o mesmo inimigo desde o primeiro dia?"
"Exatamente", confirmou Gabriel, erguendo o rosto para encarar o cantor. "Nossos destinos estavam selados muito antes de nos encontrarmos naquela suíte."
A revelação derrubou os últimos vestígios de qualquer barreira emocional que ainda restasse entre eles. Lucas sentiu uma onda de empatia avassaladora substituir a desconfiança que guardava no fundo da alma.
Ele percebeu, com uma clareza cristalina, que naquele homem frio e implacável ele havia encontrado o único refúgio seguro em meio ao caos daquele mundo cruel. Não havia julgamento ali, apenas duas feridas abertas que se reconheciam.
Lucas avançou o último espaço que os separava, colando seu corpo esguio ao peito firme de Gabriel. Ele ergueu as mãos e tocou o colarinho da camisa do magnata, sentindo o coração do homem disparar sob seus dedos.
"Então vamos queimar o império deles juntos, Gabriel", sussurrou Lucas, com os lábios a centímetros da boca do alemão.
Gabriel soltou um suspiro trêmulo, perdendo de vez o controle que mantinha sobre si mesmo há anos. A mão forte e possessiva do magnata disparou como um raio, segurando firmemente a nuca de Lucas.
Os olhos de gelo de Gabriel ardiam com uma fúria incandescente e faminta, refletindo a cor de âmbar dos olhos do cantor. Seus dedos enterraram-se nos cabelos negros e macios do rapaz, puxando-o para uma colisão inevitável.
"Lucas, não cante assim para mim...", avisou Gabriel com a voz rouca e perigosamente baixa, encostando a própria testa na do jovem. "...Vou acabar te trancando aqui para sempre."
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