"O Trono de Cinzas: No Limite da Paixão" Capítulo 2
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A luz pálida da alvorada carioca filtrava-se através dos vidros blindados da cobertura, dissipando a penumbra da noite anterior. Lucas despertou com o corpo dolorido, mas a névoa química que entorpecia sua mente havia desaparecido por completo, substituída por uma lucidez cortante.
Na poltrona de couro ao lado da janela, Gabriel já não estava, deixando apenas o aroma sutil de seu perfume amadeirado pairando no ar. Sobre a mesquita de mogno, um conjunto de roupas impecáveis e um bilhete sem assinatura aguardavam o cantor.
Minutos depois, um estilista contratado a peso de ouro bateu à porta da suíte, trazendo araras repletas de alta-costura internacional. O profissional abriu um sorriso polido e estendeu um terno de grife italiana para Lucas.
"O senhor von Strauss pediu que vestisse algo adequado para a sua chegada triunfal à gravadora", anunciou o estilista com um tom excessivamente subserviente.
Lucas fitou as peças de grife com desdém e empurrou o cabide de lado sem tocar em nada. Seus olhos amberinos faiscaram com uma hostilidade fria e recalcitrante.
"Diga ao seu patrão que eu me visto com o que eu quiser, e hoje eu escolho o que é meu", retrucou Lucas com a voz áspera.
Ele caminhou até o closet e ignorou completamente as novidades, resgatando a própria camisa de seda preta que usava na noite do sequestro. A peça ainda trazia as manchas secas e escuras do seu próprio sangue na altura do punho.
Ao vestir a camisa, Lucas fez questão de deixar o tecido manchado perfeitamente visível, transformando o próprio ferimento em um estandarte de guerra. Ele calçou suas calças justas de couro e ajeitou o cabelo em um caos estudado diante do espelho.
Enquanto isso, na sala de segurança blindada no andar inferior, Gabriel observava cada detalhe através das câmeras de alta definição. O magnata tragava um espresso amargo, assistindo à recusa do cantor com um sorriso quase imperceptível nos lábios finos.
"Ele tem o instinto de um lobo ferido que se recusa a abaixar as orelhas", murmurou Gabriel para si mesmo, sentindo o peito contrair-se em uma possessividade perigosa.
Gabriel acionou o interfone interno e chamou seu chefe de segurança particular para o escritório. A voz do alemão saiu fria, cortante e absoluta como uma ordem militar.
"Quero proteção integral e invisível em volta de Lucas Silva vinte e quatro horas por dia", determinou Gabriel sem desviar os olhos da tela. "E comecem a desmantelar as contas offshore da Apex Media imediatamente; quero Rodrigo e aquela corja sem um centavo até o final da semana."
De volta à cobertura, Lucas ignorou os elevadores sociais e cruzou o saguão principal com passos firmes e decididos. A carruagem de luxo que Gabriel providenciara o aguardava na entrada, mas ele sentia o estômago queimar com a urgência de encarar seus carrascos.
A viagem até a sede da Apex Media, localizada em um arranha-céu espelhado na zona nobre do Rio, durou menos do que o trânsito caótico costumava permitir. Quando o veículo parou diante da fachada de vidro, os seguranças de Gabriel abriram a porta com discrição cirúrgica.
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Lucas desceu do carro com a postura de um rei deposto que retorna para reclamar o trono. O tecido preto da camisa de seda contrastava de forma agressiva com o minimalismo estéril do lobby da gravadora.
Assim que ele cruzou as portas automáticas, o burburinho habitual dos corredores cessou instantaneamente. Funcionários, produtores e outros trainees pararam o que faziam, cravando olhares carregados de malícia e cochichos venenosos em sua direção.
"Olha só quem resolveu dar as caras depois de passar a noite na suíte do investidor", comentou uma voz irônica vinda da bancada da recepção. "Parece que o garoto aprendeu direitinho como subir na vida sem precisar ensaiar."
Lucas virou o rosto lentamente, cravando os olhos de âmbar no infeliz que ousara erguer a voz. A carga de desprezo em seu olhar foi tão intensa que o funcionário engoliu em seco e recuou um passo.
"Guarde sua língua suja para quando o seu próprio contrato for rasgado", sibilou Lucas com uma calma aterrorizante, passando de largo sem dar o menor espaço para réplicas.
Ele subiu diretamente para o décimo andar, o reduto onde ficavam as salas da diretoria e os estúdios principais de gravação. O ambiente ali cheirava a papelada cara e a desespero corporativo abafado.
A secretária de Rodrigo tentou barrar sua entrada na sala principal, estendendo o braço de forma autoritária. "O senhor Silva não tem horário marcado com a diretoria, volte para o setor de... "
Lucas não esperou ela terminar a frase; com um empurrão firme na porta de mogno macio, ele invadiu o escritório sem ser anunciado. Rodrigo, o diretor executivo da gravadora, estava recostado em sua poltrona de couro, mastigando um charuto caro enquanto revisava planilhas.
Rodrigo ergueu os olhos com uma expressão de total irritação pela invasão. Ao reconhecer quem era o intruso, o executivo abriu um sorriso cínico e desdenhoso.
"Ora, veja só quem decidiu aparecer para prestar contas", zombou Rodrigo, cruzando os braços sobre a mesa. "Espero que tenha aproveitado a noite na cama do nosso principal acionista, porque a sua carreira aqui acabou."
Lucas caminhou até parar bem diante da mesa de mogno, apoiando as duas mãos calejadas sobre a superfície polida. O sangue seco na manga de sua camisa preta estava perfeitamente visível sob a luz do abajur.
"Minha carreira está apenas começando, Rodrigo", retrucou Lucas, destilando veneno em cada palavra. "E posso te garantir que o único que vai precisar procurar emprego amanhã é você."
Rodrigo soltou uma gargalhada curta e estridente, batendo com a palma da mão espessa sobre os relatórios financeiros espalhados. "Você perdeu a noção do perigo, garoto? Você é apenas uma mercadoria que foi comprada e paga por dez milhões de reais."
"Dez milhões foi o preço que meu ex-amigo cobrou para me vender", corrigiu Lucas, inclinando o tronco para a frente com uma ameaça velada na voz. "Mas o seu passe, Rodrigo, vai custar muito mais caro para a sua liberdade."
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Enquanto o diretor abria a boca para desferir mais um insulto, a atenção de Lucas foi atraída por uma pasta aberta no canto da mesa. Bem no topo dos documentos, um relatório carimbado com o logotipo de uma offshore nas Ilhas Cayman trazia uma lista detalhada de lavagem de dinheiro e desvio de verbas dos trainees.
A mente de Lucas trabalhou com a velocidade de uma lâmina afiada. Ele sabia que aquela folha de papel era a arma definitiva para destruir a diretoria da gravadora de uma vez por todas.
Com um movimento rápido e imperceptível, enquanto mantinha Rodrigo ocupado com um olhar desafiador, Lucas puxou o celular do bolso da calça de couro. Ele posicionou o aparelho estrategicamente sob a aba de sua própria mão e disparou duas fotos nítidas do documento confidencial.
"Você não tem a menor ideia de com quem está mexendo, seu pirralho insolente", rosnou Rodrigo, levantando-se da poltrona com o rosto avermelhado de raiva pela audácia do cantor.
"O erro é todo seu por achar que eu era o único cego nesta sala", rebateu Lucas com um sorriso gélido nos lábios. "Guarde bem essa pose de chefe, Rodrigo, porque ela tem prazo de validade."
Lucas guardou o celular de volta no bolso ajustado com total naturalidade, sentindo o calor do Aparelho contra sua coxa. Ele endireitou a postura, virou as costas para a mesa do diretor sem prestar continência alguma e caminhou em direção à saída.
"Volte aqui agora mesmo, eu não mandei você sair!", gritou Rodrigo com a voz estrangulada pela fúria, mas Lucas sequer se deu ao trabalho de olhar para trás.
Ele empurrou a porta pesada da diretoria e saiu caminhando pelos corredores reluzentes da gravadora com passos firmes. Os funcionários ao redor desviavam o olhar diante da aura intimidadora que o envolvia por completo.
Lucas desceu pelo elevador privativo até o térreo, sentindo o ar denso da cidade pesando sobre seus ombros. Lá fora, a tempestade anunciada no início da manhã finalmente desabara sobre o Rio de Janeiro com rajadas violentas de vento e água.
Ele cruzou a porta de vidro da Apex Media sob a cortina d'água pesada, sem se importar com a chuva que encharcava seus cabelos e colava a camisa de seda manchada de sangue ao seu peito. Seus olhos amberinos brilhavam com um fogo inextinguível, prontos para incendiar o mundo inteiro.
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