"A Menina Descalça Do Segredo" Parte 4
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Depois de descobrir que sua mãe poderia estar viva, Gabriel Montenegro Vasconcelos sentiu que algo dentro dele havia mudado.
Durante três anos, ele acreditou que sua história já estava escrita.
Um acidente.
Uma perda.
Uma vida preso a uma cadeira de rodas.
Mas agora ele começava a enxergar outra possibilidade.
Talvez ele não fosse um menino condenado.
Talvez alguém tivesse feito ele acreditar nisso.
Na manhã seguinte, a mansão Montenegro estava diferente.
Os funcionários, que antes caminhavam em silêncio pelos corredores, agora observavam Gabriel com curiosidade.
Todos tinham ouvido os rumores.
A mãe do herdeiro poderia estar viva.
O tio Ricardo poderia ter escondido informações.
E uma menina desconhecida poderia ser a chave para revelar tudo.
No antigo jardim da família, Gabriel estava sentado diante de uma pequena área preparada para exercícios.
Ao lado dele estava Lívia.
Ela segurava uma caixa simples de madeira.
Gabriel olhou para aquilo com desconfiança.
"É isso?"
Lívia sorriu levemente.
"Não é a caixa."
Ela abriu a tampa.
Dentro havia um pequeno aparelho de música antigo.
Não era bonito.
Não tinha valor financeiro.
Mas, quando Gabriel ouviu as primeiras notas, seu rosto mudou.
Era a mesma melodia.
A música da caixa azul.
A música que sua mãe usava durante as sessões de fisioterapia.
Durante três anos, ninguém havia tocado aquela canção.
Gabriel fechou os olhos.
E, por alguns segundos, voltou a ser uma criança.
Ele sentiu a voz de Helena novamente.
Sentiu as mãos dela segurando seus tornozelos.
Sentiu o cheiro do perfume dela.
E ouviu aquela frase que parecia ter desaparecido da sua memória.
"Não olhe para o medo, meu filho. Escute seu corpo."
Gabriel abriu os olhos rapidamente.
Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.
Lívia percebeu.
"Você lembrou dela."
Ele limpou o rosto.
"Eu lembro de tudo."
A menina se ajoelhou na frente dele.
"Então vamos encontrar a parte de você que Ricardo tentou esconder."
Gabriel olhou para suas pernas.
O medo voltou imediatamente.
Era como uma barreira invisível.
Durante anos, ele tentou levantar.
Tentou mover.
Tentou acreditar.
Mas sempre escutava a mesma voz.
A voz de Ricardo dizendo que era impossível.
"Eu não consigo."
Lívia segurou sua mão.
"Você não consegue ou fizeram você acreditar que não consegue?"
A pergunta ficou no ar.
Gabriel não respondeu.
Porque no fundo ele sabia.
Ele nunca tinha recebido a chance de descobrir.
Naquele momento, Samuel Almeida chegou ao jardim.
Depois da conversa da noite anterior, ele decidiu voltar a ajudar Gabriel.
Ele carregava uma pasta com antigos registros médicos.
"Está pronto?"
Gabriel olhou para ele.
"Eu tenho medo."
Samuel se aproximou.
"Todo mundo tem medo antes de tentar novamente."
O médico abriu os documentos.
"Mas medo não é uma sentença."
O treinamento começou lentamente.
Nada de movimentos grandes.
Nada de promessas impossíveis.
Apenas pequenos estímulos.
Respiração.
Concentração.
Memória muscular.
Lívia permaneceu ao lado dele durante todo o tempo.
Quando Gabriel queria desistir, ela lembrava:
"Você não precisa vencer tudo hoje. Só precisa tentar mais uma vez."
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No início, nada aconteceu.
O menino ficou frustrado.
A raiva apareceu.
Ele bateu as mãos nos apoios da cadeira.
"Eu sabia."
Samuel olhou para ele.
"Sabia o quê?"
"Que não ia funcionar."
O médico se aproximou.
"Gabriel, três anos de medo não desaparecem em um dia."
O menino abaixou a cabeça.
"Eu estou cansado."
Lívia ficou diante dele.
"Então descanse."
Ele olhou para ela.
"Mas não desista."
As palavras tocaram Gabriel de uma forma diferente.
Porque durante muito tempo todos diziam o que ele deveria aceitar.
Mas ninguém perguntava o que ele queria.
Ele queria andar.
Queria correr novamente.
Queria sentir o vento no rosto.
Queria abraçar sua mãe de pé.
Então Samuel colocou novamente a música.
A melodia começou.
Gabriel fechou os olhos.
Respirou profundamente.
Tentou esquecer a cadeira.
Tentou esquecer Ricardo.
Tentou esquecer todas as vezes que ouviu que era impossível.
E então aconteceu.
Um pequeno movimento.
Quase invisível.
O pé direito de Gabriel se moveu.
Lívia arregalou os olhos.
Samuel imediatamente se aproximou.
"Gabriel."
O menino abriu os olhos.
"O quê?"
Samuel sorriu.
"Faça novamente."
Gabriel olhou para o próprio pé.
Ele estava tremendo.
Mas respondeu.
Poucos segundos depois, o movimento aconteceu outra vez.
Dessa vez mais claro.
Lívia levou a mão à boca emocionada.
Gabriel começou a chorar.
Não de tristeza.
Mas porque, depois de três anos, seu corpo finalmente tinha respondido.
"Eu senti."
Samuel segurou o ombro dele.
"Eu sei."
"Eu senti minha perna."
Naquele momento, atrás de uma das janelas da mansão, Ricardo observava tudo.
Ele tinha chegado sem ser percebido.
E viu exatamente aquilo que mais temia.
Gabriel se movendo.
Gabriel recuperando esperança.
Gabriel deixando de ser controlável.
O rosto de Ricardo ficou sombrio.
Porque ele sabia a verdade.
Se Gabriel voltasse a andar, ele não seria apenas um menino recuperando sua vida.
Ele seria o verdadeiro herdeiro Montenegro.
E Ricardo perderia tudo.
O controle da empresa.
O dinheiro.
O poder.
A influência que construiu usando a mentira.
Mais tarde, Ricardo entrou em seu escritório e fechou a porta.
Ele abriu um cofre escondido atrás de uma pintura antiga.
Dentro havia documentos.
Contratos.
Relatórios médicos.
E uma fotografia antiga de Helena.
Ele observou a imagem por alguns segundos.
"Você nunca deveria ter deixado aquela garota chegar até ele."
A raiva em sua voz era evidente.
Ele pegou o telefone e fez uma ligação.
Do outro lado, um homem respondeu.
Ricardo ficou em silêncio por alguns segundos antes de falar.
"Ela encontrou o caminho de volta."
O homem perguntou:
"Quem?"
Ricardo olhou para a foto de Helena.
Depois para a imagem de Gabriel treinando no jardim.
"Helena."
Ele respirou fundo.
"E a menina que está ajudando ela."
O homem ficou em silêncio.
Ricardo apertou o telefone.
"Descubram tudo sobre Lívia Santos Oliveira."
Ele desligou.
Mas a preocupação não desapareceu.
Porque ele sabia que a menina não tinha apenas trazido uma esperança para Gabriel.
Ela tinha trazido uma ameaça para todo o império que ele construiu.
Naquela mesma noite, enquanto Gabriel dormia, Lívia recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
Ela abriu.
Havia apenas uma frase:
"Eu sei quem você é."
O rosto dela perdeu a cor.
Porque junto com a mensagem havia uma fotografia antiga.
Uma fotografia dela ainda criança.
Ao lado de uma mulher ferida.
Uma mulher que ela reconhecia imediatamente.
Helena Montenegro.
E, no verso da imagem, havia uma frase escrita à mão:
"Você nunca deveria ter encontrado o filho dela."
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