"A Menina Descalça Do Segredo" Parte 3
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Na manhã seguinte ao baile na mansão Montenegro, Gabriel acordou antes mesmo do sol nascer.
Pela primeira vez em muitos anos, ele não abriu os olhos pensando naquilo que havia perdido.
Não pensou na cadeira de rodas.
Não pensou nos médicos dizendo que sua recuperação seria difícil.
Não pensou nas palavras de Ricardo repetidas durante três anos.
Ele pensou na mãe.
Helena Montenegro Vasconcelos.
A mulher que todos diziam estar morta.
A mulher que, segundo Lívia, ainda estava esperando por ele.
Gabriel permaneceu olhando para a pulseira de prata sobre a mesa ao lado da cama.
Ele passou os dedos pelo nome gravado no metal.
Seu nome.
Algo que sua mãe havia colocado ali quando ele ainda era pequeno.
Era impossível ignorar a pergunta que não saía da sua cabeça.
Como alguém morto poderia ter enviado aquela pulseira?
Antes que pudesse encontrar uma resposta, uma batida discreta surgiu na porta.
Era Lívia.
Ela ainda usava roupas simples, mas naquela manhã tinha recebido um conjunto novo comprado pela equipe da mansão depois do escândalo da noite anterior.
Mesmo vestida com roupas melhores, Gabriel percebeu que ela continuava sendo a mesma garota que atravessou um salão cheio de pessoas importantes sem medo de ninguém.
"Você conseguiu dormir?"
Gabriel olhou para ela.
"Não."
Lívia entrou devagar.
"Porque está pensando nela?"
O menino segurou a pulseira.
"Eu estou tentando entender como minha mãe pode estar viva."
Lívia ficou em silêncio.
Ela sabia que aquela resposta mudaria completamente a vida dele.
"Então precisamos encontrar provas."
Gabriel olhou para ela.
"Você sabe onde ela está?"
A menina desviou o olhar por alguns segundos.
"Eu sei onde ela esteve."
Aquela frase fez o coração de Gabriel acelerar.
Naquele mesmo momento, em outro lado da mansão, Ricardo observava as câmeras de segurança com uma expressão de raiva.
A noite anterior tinha destruído algo que ele levou anos para construir.
Controle.
Durante três anos, todos acreditaram na história que ele contou.
Helena morreu no acidente.
Gabriel precisava aceitar sua condição.
A família precisava seguir em frente.
Mas uma menina desconhecida apareceu e, em poucos minutos, colocou tudo em dúvida.
Ricardo apertou o copo de café com força.
"Descubram quem é essa garota."
O segurança à sua frente hesitou.
"Já estamos procurando, senhor."
Ricardo virou lentamente.
"Eu não pedi para procurar."
Sua voz ficou fria.
"Eu pedi para descobrir tudo."
Ele precisava saber de onde Lívia veio.
Quem havia enviado aquela menina.
E principalmente...
O que Helena tinha contado para ela.
Enquanto isso, Gabriel e Lívia estavam no antigo escritório de Helena dentro da mansão.
O lugar permanecia fechado desde o acidente.
Ricardo havia proibido qualquer pessoa de entrar ali.
Mas Gabriel ainda tinha a chave.
Sua mãe costumava dizer que aquele quarto guardava as memórias mais importantes da família.
Ao abrir a porta, uma camada fina de poeira cobria os móveis.
Os livros continuavam organizados.
As fotografias permaneciam nas mesmas posições.
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E, no canto da estante, havia uma pequena caixa vazia.
Gabriel se aproximou.
"Era aqui."
Lívia olhou para ele.
"O quê?"
"A caixa azul."
Ele passou a mão pela madeira.
"Minha mãe guardava aqui."
Gabriel fechou os olhos.
Por alguns segundos, parecia ter voltado a ser uma criança.
Ele lembrava da voz dela.
Dos exercícios.
Das músicas.
Dos momentos em que acreditava que conseguiria voltar a correr.
Mas então uma lembrança diferente apareceu.
Uma lembrança que ele havia esquecido.
A noite do acidente.
A discussão entre sua mãe e Ricardo.
Ele não lembrava das palavras.
Mas lembrava do medo no rosto dela.
"Lívia..."
A menina se aproximou.
"Você lembrou de alguma coisa?"
Gabriel respirou fundo.
"Naquela noite, minha mãe estava brigando com meu tio."
Lívia ficou séria.
"Sobre o quê?"
Gabriel tentou lembrar.
Mas a memória parecia escondida atrás de uma parede.
"Eu não sei."
Ele olhou para as fotos.
"Só lembro que ela disse que ele nunca ficaria com tudo."
A frase fez Lívia ficar imóvel.
Porque aquela informação mudava tudo.
Não era apenas uma mentira sobre uma morte.
Era uma disputa por poder.
Uma disputa que começou antes do acidente.
Eles continuaram procurando pelo escritório.
Até que Lívia encontrou um pequeno envelope escondido atrás de um livro.
Não havia nome.
Apenas uma data.
A mesma semana do acidente.
Gabriel abriu com mãos trêmulas.
Dentro havia uma folha dobrada.
Era uma anotação de Helena.
Poucas palavras.
Mas suficientes para mudar tudo.
"Se alguma coisa acontecer comigo, procure Samuel Almeida."
Gabriel olhou para Lívia.
"Ele sabia."
A menina assentiu.
"Então precisamos encontrar ele."
Mas antes que pudessem sair, a porta do escritório abriu.
Ricardo estava parado ali.
Seu rosto parecia calmo.
Mas seus olhos mostravam preocupação.
"O que vocês estão fazendo aqui?"
Gabriel encarou o tio.
"Procurando a verdade."
Ricardo entrou lentamente.
"Gabriel, você está deixando uma estranha colocar ideias na sua cabeça."
"Ela sabe coisas que só minha mãe sabia."
Ricardo ficou em silêncio.
"Ela pode ter inventado."
O menino apertou a pulseira.
"Então me diga como ela conseguiu isso."
Ricardo não respondeu.
E novamente aquele silêncio apareceu.
O mesmo silêncio que Gabriel começava a reconhecer.
Um silêncio cheio de culpa.
Ricardo saiu do escritório sem discutir.
Mas, quando fechou a porta, sua expressão mudou completamente.
Ele sabia que precisava agir rápido.
Porque Gabriel estava começando a lembrar.
Naquela tarde, Lívia e Gabriel foram até uma pequena clínica antiga na zona sul de São Paulo.
Era o último endereço conhecido de Samuel Almeida.
O prédio parecia abandonado.
Mas depois de algumas tentativas, encontraram uma antiga funcionária que ainda trabalhava no local.
Quando ouviram o nome de Helena Montenegro, a mulher ficou nervosa.
"Vocês não deveriam estar procurando por ela."
Gabriel sentiu um arrepio.
"Por quê?"
A mulher olhou ao redor antes de responder.
"Porque algumas pessoas fizeram questão de que ninguém mais falasse sobre o que aconteceu."
Lívia segurou a mão de Gabriel.
"Onde está o doutor Samuel?"
A mulher respirou fundo.
"Ele deixou São Paulo depois de ser ameaçado."
Gabriel ficou surpreso.
"Meu tio fez isso?"
A mulher não respondeu.
Mas seu olhar confirmou.
Naquele momento, Gabriel percebeu que a história era muito maior do que imaginava.
Sua mãe não tinha apenas desaparecido.
Alguém tinha apagado todos os rastros dela.
Enquanto eles buscavam respostas, Ricardo estava em sua sala particular na mansão.
Sobre a mesa havia uma pasta com informações sobre Lívia.
Nome.
Idade.
Endereço.
Família.
Ele abriu lentamente o último documento.
E seu rosto mudou.
Porque finalmente descobriu quem era aquela menina.
Lívia Santos Oliveira não era apenas uma garota que apareceu do nada.
Ela era filha de Antônio Oliveira e Marta Santos.
A família que, três anos antes, havia encontrado Helena ferida depois do acidente.
A família que tentou salvar sua vida.
A família que Ricardo acreditava ter eliminado da história.
Ricardo fechou a pasta lentamente.
Pela primeira vez em muitos anos, sentiu medo.
Porque aquela menina não tinha encontrado Gabriel por acaso.
Ela era a última ligação entre Helena e a verdade.
E agora Ricardo sabia exatamente quem precisava silenciar antes que tudo viesse à tona.
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