"“É Só Uma Criança”… Até Ela Destruir O Voo Inteiro" Parte 1
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A Menina Que Chutou Meu Assento Por 6 Horas
O voo 3487 da companhia aérea brasileira saía de São Paulo com destino a Recife em uma manhã ensolarada de sexta-feira. No Aeroporto de Congonhas, centenas de pessoas caminhavam apressadas pelo saguão, carregando malas, documentos e preocupações que ninguém mais conseguia enxergar.
Entre elas estava Mariana Ribeiro Alves, uma mulher de 34 anos, segurando a mão da filha enquanto atravessava o portão de embarque.
Para quem olhava de fora, parecia uma cena perfeita.
Uma mãe jovem.
Uma menina sorridente.
Uma viagem para descansar depois de meses difíceis.
Mariana tinha planejado cada detalhe daquele voo.
Depois de um ano inteiro trabalhando sem parar em uma agência de publicidade na Avenida Paulista, ela finalmente tinha conseguido alguns dias de férias com Sofia.
A menina tinha oito anos e era tudo para ela.
Desde que Felipe, o pai de Sofia, havia falecido três anos antes em um acidente de carro na Rodovia Anhanguera, Mariana tinha feito uma promessa silenciosa.
Nunca deixaria a filha sofrer.
Nunca permitiria que Sofia sentisse falta de nada.
Nunca deixaria ninguém machucá-la.
Mesmo que, para isso, precisasse dizer sim para quase tudo.
"Sofia, lembra do que combinamos? Vamos deixar as pessoas descansarem durante o voo."
A menina sorriu enquanto segurava seu tablet rosa contra o peito.
"Eu sei, mãe. Eu vou me comportar."
Mariana beijou a testa dela.
Aquela resposta era exatamente o que ela queria ouvir.
Durante o embarque, Sofia parecia a criança mais educada do avião.
Ela cumprimentou a comissária de bordo.
Guardou sua mochila sem reclamar.
Sentou-se perto da janela e ficou observando os aviões pela pista.
O assento de Mariana ficava algumas fileiras atrás de Gabriel Monteiro Vasconcelos.
Gabriel tinha 42 anos e trabalhava como diretor de uma empresa de tecnologia em São Paulo.
Era conhecido por ser um homem extremamente calmo.
Um daqueles que evitavam discussões mesmo quando tinham razão.
Naquele voo, ele só queria algumas horas de silêncio.
Depois de uma semana inteira de reuniões, ligações e decisões difíceis, tudo o que desejava era abrir seu livro, colocar os fones de ouvido e esquecer o mundo.
Ao lado dele estava Antônio Ferreira, um senhor aposentado de 70 anos que viajava para visitar a filha em Recife.
Na janela estava uma mulher chamada Renata, que dormiu poucos minutos depois da decolagem.
Durante a primeira hora, tudo parecia tranquilo.
Sofia assistia desenhos usando fones de ouvido.
Mariana olhava algumas mensagens no celular.
Gabriel lia seu livro enquanto o avião atravessava as nuvens.
Mas, depois de alguns minutos, algo começou a mudar.
Primeiro foi o volume do tablet.
Uma música infantil começou a tocar cada vez mais alto.
Depois vieram as vozes dos personagens.
Gritos.
Explosões.
Risadas.
Gabriel tentou ignorar.
Afinal, era uma criança.
Ele entendia.
Crianças ficavam inquietas em voos longos.
Mas então percebeu que Sofia havia tirado os fones completamente.
O som estava incomodando todos ao redor.
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Antônio abaixou lentamente o jornal e olhou para trás.
Renata abriu os olhos.
Alguns passageiros começaram a trocar olhares desconfortáveis.
Mariana, porém, continuava olhando para o celular.
Como se nada estivesse acontecendo.
Poucos minutos depois, Sofia abriu uma embalagem de salgadinhos.
O barulho do pacote rasgando ecoou na fileira.
Ela mastigava fazendo barulho.
Batia os dedos na mesa.
Mexia no banco.
Depois começou a chamar a mãe.
"Mãe, olha isso."
Mariana nem levantou a cabeça.
"Estou olhando, filha."
"Não está. Você está no celular."
"Depois eu vejo."
Sofia fez uma expressão contrariada.
Então deixou cair alguns pedaços de comida no chão.
Mariana percebeu.
Mas não falou nada.
Gabriel respirou fundo e voltou para o livro.
Ele decidiu não criar um problema.
Até sentir o primeiro impacto.
Pum.
O encosto do seu assento se moveu levemente.
Ele olhou para trás.
Sofia estava mexendo as pernas.
Gabriel imaginou que tinha sido sem querer.
Voltou a ler.
Alguns minutos passaram.
Pum.
Dessa vez mais forte.
O copo de água sobre a mesa balançou.
Gabriel fechou os olhos por alguns segundos.
Ele ainda tentou manter a calma.
Talvez fosse apenas uma criança cansada.
Talvez Mariana percebesse.
Mas então aconteceu novamente.
Pum.
Pum.
Pum.
Os chutes começaram a se repetir.
Alguns passageiros próximos perceberam.
Antônio olhou para Gabriel com uma expressão de quem também estava incomodado.
Mas ninguém dizia nada.
Porque dentro de um avião existe uma regra silenciosa.
Ninguém quer ser a pessoa que começa uma discussão.
Gabriel tentou mudar de posição.
Colocou o livro mais perto do rosto.
Encostou a cabeça na janela.
Tentou se concentrar.
Nada funcionou.
Depois de quase quarenta minutos, ele percebeu que não era mais acidente.
Sofia estava fazendo aquilo como uma brincadeira.
Ela olhava para o banco se movimentando e sorria.
Gabriel virou lentamente.
A menina rapidamente fingiu que estava apenas mexendo as pernas.
A mãe continuava no celular.
Foi nesse momento que ele decidiu falar.
Não queria brigar.
Não queria humilhar ninguém.
Apenas queria que aquilo parasse.
Ele se levantou um pouco e chamou Mariana com educação.
"Desculpe incomodar."
Mariana levantou os olhos.
A expressão dela mostrou irritação.
"Sim?"
Gabriel manteve a voz baixa.
"Sua filha está chutando meu assento há algum tempo. Será que você poderia pedir para ela parar?"
Por alguns segundos, Mariana ficou em silêncio.
Ela olhou para Sofia.
Depois voltou o olhar para Gabriel.
E respondeu como se aquela frase resolvesse tudo.
"Ela é só uma criança."
Gabriel ficou surpreso.
Ele esperava uma desculpa.
Talvez um pedido para Sofia parar.
Talvez apenas uma explicação.
Mas não aquilo.
"Eu entendo. Não estou dizendo nada contra ela. Só estou pedindo que ela pare de chutar o banco."
Mariana suspirou.
"Ela está entediada. São muitas horas de voo."
Gabriel olhou ao redor.
"Eu também estou em um voo longo."
A expressão de Mariana mudou.
Como se ele tivesse feito algo errado.
"Você precisa ter mais paciência."
Gabriel sentiu uma pontada de irritação.
Mas segurou.
"Lamento, mas eu já estou tendo paciência há bastante tempo."
Mariana virou o rosto.
"Ela vai parar quando cansar."
E voltou para o celular.
Sem pedir para Sofia parar.
Sem conversar com a filha.
Sem sequer demonstrar preocupação.
Gabriel ficou parado por alguns segundos.
Então voltou para o seu lugar.
Ele tentou esquecer aquilo.
Tentou acreditar que acabaria ali.
Mas Sofia tinha ouvido toda a conversa.
Ela olhou para Gabriel por cima do banco.
E sorriu.
Não era um sorriso inocente.
Era um sorriso de quem tinha acabado de descobrir que nada aconteceria.
Mariana sempre a defenderia.
Ela sabia disso.
Gabriel abriu novamente o livro.
Alguns segundos depois...
PUM.
O golpe foi muito mais forte.
O banco se moveu bruscamente.
O livro quase caiu das mãos dele.
Antônio olhou imediatamente.
Renata abriu os olhos assustada.
Gabriel ficou imóvel.
Naquele instante, ele entendeu uma coisa.
O problema nunca tinha sido apenas uma criança inquieta.
O problema era uma mãe que ensinou a filha que nenhuma regra precisava ser respeitada.
E antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Sofia levantou os pés novamente.
Ela olhou diretamente para ele.
E deu outro chute ainda mais forte.
PUM.
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