"Minha Esposa Chorava Sozinha Enquanto Minha Família Comemorava" Parte 2
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O cheiro de hospital sempre teve algo estranho para mim.
Era um lugar onde pessoas chegavam com medo e saíam com esperança.
Mas naquela madrugada, sentado ao lado da cama de Mariana no Hospital Israelita Albert Einstein, eu só conseguia sentir culpa.
Minha esposa dormia.
Seu rosto ainda estava pálido.
Seu corpo precisava se recuperar de uma cirurgia que nunca deveria ter sido complicada daquela maneira.
Lucas estava no berço transparente ao lado dela.
Meu filho.
Tão pequeno.
Tão frágil.
E eu ainda não conseguia aceitar que, enquanto eu estava na Alemanha acreditando que minha família estava cuidando deles, os dois estavam sobrevivendo sozinhos.
O médico havia sido direto.
Mariana chegou no limite.
A falta de alimentação, o estresse e a falta de cuidados fizeram a recuperação dela ficar mais difícil.
Mas ela teve sorte.
Poucas horas a mais naquele apartamento poderiam ter mudado tudo.
Eu segurava a mão dela enquanto olhava pela janela do quarto.
São Paulo começava a amanhecer.
As ruas ainda estavam vazias depois da virada do ano.
Milhares de pessoas tinham comemorado.
Enquanto isso, minha esposa tentava manter meu filho aquecido em um apartamento congelado.
A pergunta não saía da minha cabeça.
Por quê?
Por que ela não me contou?
Por que ela aceitou tudo aquilo?
A resposta veio quando ela abriu os olhos.
"Gabriel?"
Eu me levantei imediatamente.
"Estou aqui."
Ela olhou primeiro para mim.
Depois para Lucas.
"Onde ele está?"
"Ele está bem."
Peguei meu filho com cuidado e coloquei perto dela.
Mariana respirou aliviada.
Uma lágrima escorreu pelo rosto dela.
"Ele é tão pequeno."
Eu sorri pela primeira vez em muitas horas.
"Ele é perfeito."
O médico tinha autorizado que eu segurasse Lucas.
Até aquele momento, eu só tinha visto meu filho através de fotos e chamadas de vídeo.
Agora ele estava nos meus braços.
O peso dele era quase nada.
Mas naquele instante parecia que eu segurava o mundo inteiro.
A enfermeira Rosa entrou no quarto.
Ela era uma mulher experiente, com cabelos escuros misturados com alguns fios brancos e um olhar tranquilo.
"Quer aprender a segurar seu filho de verdade?"
Eu assenti.
Ela ajustou meus braços.
"Assim. Apoie a cabeça dele."
Lucas abriu os olhos lentamente.
Por alguns segundos, fiquei completamente parado.
Ele estava olhando para mim.
Como se estivesse tentando descobrir quem eu era.
"Oi, Lucas."
Minha voz falhou.
"Eu sou seu pai."
Eu virei o rosto rapidamente.
Não queria que ninguém visse minhas lágrimas.
Mas Rosa percebeu.
Ela apenas sorriu.
"Ele já conhece sua voz."
Eu olhei para ela.
"Como?"
"Os bebês reconhecem vozes antes mesmo de entender palavras."
Aquela frase me machucou.
Porque eu lembrei de todas as ligações que fiz durante minha viagem.
Todas as vezes que perguntei por Mariana.
Todas as vezes que minha mãe respondeu por ela.
"Ela está dormindo."
"Ela acabou de comer."
"O bebê está ótimo."
"Você se preocupa demais, Gabriel."
Eu acreditei.
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Porque era minha mãe.
Porque eu nunca imaginei que alguém da minha família pudesse mentir sobre algo tão sério.
Mas agora eu precisava descobrir toda a verdade.
Quando Mariana voltou a dormir, peguei meu celular novamente.
Abri o aplicativo das câmeras.
Continuei assistindo às gravações.
Eu precisava entender tudo.
Não apenas o que aconteceu naquela noite.
Mas o que aconteceu antes.
Foi então que percebi algo.
Minha mãe, Carolina e Ricardo não começaram aquilo quando foram embora.
Eles começaram muito antes.
No dia 27 de dezembro, Mariana apareceu no vídeo segurando Lucas.
Ela estava com o celular na mão.
Parecia nervosa.
Ela digitou uma mensagem.
Depois olhou para a porta.
Como se tivesse medo que alguém aparecesse.
Poucos minutos depois, Carolina entrou no quarto.
Pegou o celular da mão dela.
Eu pausei a imagem.
Meu coração acelerou.
Aumentei o zoom.
Carolina estava segurando o aparelho de Mariana.
Não parecia um acidente.
Continuei assistindo.
No dia seguinte, o celular de Mariana apareceu quebrado na pia da cozinha.
A gravação mostrava Carolina colocando o aparelho perto da água.
Depois dizendo:
"Foi sem querer."
Eu fechei os olhos.
Minha irmã tinha destruído a única forma de comunicação da minha esposa.
Mas ainda havia algo pior.
Fui até a bolsa de Mariana.
Ela tinha guardado alguns documentos do hospital.
Entre eles estava uma impressão do e-mail falso.
Eu coloquei o papel sobre a mesa.
Mariana acordou novamente.
"Gabriel..."
"Preciso perguntar uma coisa."
Ela ficou séria.
"O que?"
"Quando você recebeu aquela mensagem dizendo para não me procurar, você acreditou?"
Ela demorou alguns segundos.
Depois respondeu:
"Por um momento."
Aquilo doeu.
"Por quê?"
"Porque parecia você."
Peguei o papel.
"Mariana, eu nunca escreveria isso."
"Eu sei."
"Então por que você guardou?"
"Porque depois eu percebi que tinha alguma coisa errada."
Ela apontou para a folha.
"Você nunca escreve desse jeito."
Eu olhei para o texto novamente.
"Pare de criar problemas enquanto estou trabalhando."
"Minha mãe sabe o que é melhor."
"Apenas faça o que ela diz até eu voltar."
Cada palavra parecia uma facada.
Porque usava minha voz.
Meu nome.
Minha autoridade.
Mas não era meu.
"Esse e-mail veio do meu endereço."
Mariana assentiu.
"Eu sei."
"Então alguém entrou na minha conta."
O silêncio tomou conta do quarto.
Peguei meu notebook.
Entrei no sistema.
Verifiquei os registros de acesso.
Havia algo estranho.
Uma conexão tinha sido feita usando minhas credenciais.
Não era da Alemanha.
Não era do meu escritório.
Era de São Paulo.
Meu apartamento.
Meu próprio computador.
Alguém tinha usado minha máquina para enviar uma mensagem para minha esposa.
Alguém que esteve dentro da minha casa.
Eu senti um frio diferente.
Não era o frio daquele apartamento.
Era o frio de perceber que eu conhecia muito menos minha própria família do que imaginava.
Mariana segurou minha mão.
"Gabriel."
Eu olhei para ela.
"Eu tentei falar com você."
"Eu sei."
"Não, você não sabe."
A voz dela ficou mais baixa.
"Eu tentei várias vezes."
Meu peito apertou.
"Por que eu não recebi?"
Ela respirou fundo.
"Porque toda vez que eu tentava mandar alguma coisa, sua mãe aparecia."
"Ela fazia o quê?"
"Ela perguntava com quem eu estava falando."
"Ela tinha minha senha?"
Mariana hesitou.
"Ela dizia que precisava ajudar."
Aquela frase ficou na minha cabeça.
Ajudar.
Era a palavra que minha mãe sempre usava.
Ajudar.
Controlar.
Decidir.
Fazer tudo parecer cuidado.
Mas naquele momento eu comecei a entender.
Mariana não estava apenas sendo ignorada.
Ela estava sendo isolada.
Antes que eu pudesse responder, meu telefone tocou.
Número desconhecido.
Atendi.
"Gabriel Vasconcelos?"
"Sim."
Aqui é o Delegado Rafael Mendes, da Polícia Civil de São Paulo.
Minha postura mudou imediatamente.
"Delegado?"
"Recebi o relatório inicial sobre o que aconteceu no apartamento."
Olhei para Mariana.
Ela percebeu pela minha expressão que era algo sério.
"Encontramos indícios de retirada indevida de bens, possível fraude digital e movimentações financeiras suspeitas."
Meu coração acelerou.
"Fraude financeira?"
"Sim."
Ele fez uma pausa.
"Senhor Gabriel, preciso que você não confronte sua família agora."
"Por quê?"
"Porque ainda estamos reunindo provas."
Eu fiquei em silêncio.
Então ele disse a frase que mudou tudo.
"Alguém não está apenas tentando machucar sua esposa."
Minha mão apertou o telefone.
"Então o que estão tentando fazer?"
A resposta veio baixa.
"Estão usando sua identidade para tomar controle da sua empresa."
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