"O Fio Que Nos Uniu" Parte 3
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Naquela noite, depois de ouvir a pergunta de Samuel, Lucas Ferreira de Souza sentiu como se seu coração tivesse parado.
"Lucas... você também vai me deixar?"
Aquelas palavras doeram mais do que qualquer acusação feita no tribunal.
Porque, no fundo, aquele era o maior medo de Lucas.
Não era perder a guarda.
Não era enfrentar os adultos.
Não era ouvir que ele era apenas um garoto tentando fazer algo impossível.
O maior medo era Samuel acreditar que estava sozinho novamente.
Lucas se ajoelhou na frente do irmão.
Segurou o rosto pequeno de Samuel com as duas mãos.
"Olha para mim, Sam."
O menino levantou os olhos cheios de lágrimas.
"Eu nunca vou deixar você."
Samuel tentou controlar o choro.
"Mas eu ouvi você falando que talvez não consiga cuidar de mim."
Lucas ficou em silêncio.
Porque aquela era a verdade que ele nunca queria admitir.
Ele estava cansado.
Muito cansado.
Mas estar cansado não significava desistir.
"Às vezes eu tenho medo."
Lucas falou baixo.
"Às vezes eu não sei se estou fazendo tudo certo."
Samuel respirou tremendo.
"Então você vai embora?"
Lucas abraçou o irmão com força.
"Não. Eu só tenho medo de não conseguir proteger você."
Naquela noite, depois que Samuel dormiu, Lucas ficou sentado sozinho na pequena cozinha do apartamento no Bairro da Mooca.
A luz fraca iluminava as contas espalhadas sobre a mesa.
Contas de energia.
Recibos antigos.
Documentos da escola.
Papéis da Vara da Infância e Juventude de São Paulo.
Tudo parecia lembrar que ele era apenas um adolescente tentando carregar uma vida inteira nas costas.
Lucas passou a mão pelo rosto.
Foi quando ouviu uma batida na porta.
Era Dona Célia Ribeiro.
A vizinha que sempre ajudava a família desde que Helena Ferreira de Souza ainda era viva.
Ela segurava um envelope antigo.
"Lucas, eu encontrei isso entre algumas coisas da sua mãe."
Ele olhou confuso.
"Da minha mãe?"
Dona Célia assentiu.
"Estava guardado no fundo de uma caixa que ela deixou comigo antes de ir para o hospital."
O coração de Lucas acelerou.
Ele pegou o envelope.
Na frente estava escrito apenas um nome.
Ricardo.
Seu pai.
Durante dois anos, Lucas tentou não pensar nele.
Depois que Ricardo Ferreira de Souza desapareceu, ele criou uma explicação simples para Samuel.
Disse que algumas pessoas se perdem no caminho.
Disse que às vezes alguém vai embora sem saber voltar.
Mas a verdade era que Lucas também não sabia o motivo.
Ele abriu o envelope lentamente.
Dentro havia uma carta dobrada várias vezes.
A letra era de Ricardo.
Lucas reconheceu imediatamente.
Suas mãos começaram a tremer.
Ele leu em silêncio.
"Helena, se um dia eu não conseguir voltar, quero que você saiba que eu nunca esqueci vocês."
Lucas parou.
A respiração ficou pesada.
Continuou lendo.
"Eu sei que os meninos vão sofrer. Eu sei que eles podem pensar que eu abandonei a família."
Uma lágrima caiu sobre o papel.
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"Mas se algum dia eu voltar, diga para eles que eu nunca deixei de amar meus filhos."
Lucas apertou a carta.
Havia uma frase que fez seu corpo inteiro congelar.
"Se eu desaparecer, não foi porque escolhi ir embora."
Ele levantou os olhos.
Pela primeira vez em muito tempo, uma dúvida apareceu dentro dele.
E se seu pai realmente não tivesse abandonado a família?
E se durante todos aqueles anos Lucas tivesse odiado alguém que também estava sofrendo?
Dona Célia percebeu a expressão dele.
"O que está escrito?"
Lucas dobrou a carta rapidamente.
"Nada."
Mas sua voz entregava que era mentira.
A vizinha se aproximou.
"Lucas, você tem o direito de saber a verdade."
Ele olhou para a porta do quarto onde Samuel dormia.
E pensou no irmão.
Se contasse sobre Ricardo, poderia dar esperança para uma criança que já tinha sofrido demais.
Mas se escondesse, talvez estivesse repetindo o mesmo erro dos adultos que esconderam coisas deles.
Na manhã seguinte, Lucas levou a carta para a escola.
Ele não conseguiu prestar atenção em nenhuma aula.
As palavras do pai continuavam voltando.
"Eu nunca deixei de amar meus filhos."
Pela primeira vez, Lucas sentiu algo que não sentia há anos.
Esperança.
Mas junto com a esperança veio o medo.
Porque esperança também podia machucar.
Naquela mesma semana, na Vara da Infância e Juventude de São Paulo, Verônica Andrade Vasconcelos apresentou novos documentos.
Ela estava determinada a convencer o tribunal de que Samuel precisava de uma mudança.
O advogado ao lado dela abriu uma pasta.
"Temos novos elementos sobre a situação emocional de Lucas Ferreira de Souza."
A assistente social Camila Beatriz Nogueira franziu a testa.
"Que tipo de elementos?"
Verônica manteve a calma.
"Relatos de que Lucas está vivendo sob uma pressão psicológica extrema."
Ela colocou alguns documentos sobre a mesa.
"Ele tem quinze anos e acredita que precisa salvar o irmão sozinho."
Camila respondeu:
"Isso não significa que ele seja incapaz de amar ou cuidar."
Verônica balançou a cabeça.
"Não estou questionando o amor dele."
Ela fez uma pausa.
"Estou dizendo que uma criança traumatizada não pode ser responsável por outra criança traumatizada."
As palavras ficaram no ar.
Porque ninguém podia negar que Lucas havia passado por coisas demais.
O juiz Eduardo Carvalho Mendes analisava os relatórios em silêncio.
Ele lembrava daquele garoto segurando a pulseira da mãe.
Lembrava da promessa feita ao irmão.
Mas também precisava pensar no futuro.
No que aconteceria quando Lucas tivesse dezesseis anos.
Dezessete.
Dezoito.
E se ele desmoronasse?
Quem cuidaria de Samuel?
Enquanto isso, Lucas continuava escondendo a carta.
Ele não contou nada para Samuel.
Quando o irmão perguntava sobre o pai, ele mudava de assunto.
Não porque queria mentir.
Mas porque tinha medo.
Medo de criar uma expectativa que poderia destruir Samuel novamente.
Uma noite, Samuel encontrou Lucas olhando a carta escondido.
O menino ficou parado na porta.
"É do meu pai?"
Lucas rapidamente guardou o papel.
"Samuel..."
O menino se aproximou.
"Ele escreveu para nós?"
Lucas não conseguiu responder.
Samuel percebeu.
"Você sabe alguma coisa dele?"
Lucas sentiu o peso daquela pergunta.
Durante dois anos, ele protegeu Samuel da dor.
Mas agora estava protegendo Samuel da esperança.
E talvez isso também fosse uma forma de machucar.
Antes que Lucas pudesse responder, seu celular tocou.
Era uma ligação da Vara da Infância e Juventude.
A voz do outro lado era séria.
"Lucas, precisamos conversar sobre uma nova informação recebida pelo tribunal."
O coração dele acelerou.
"O que aconteceu?"
Houve alguns segundos de silêncio.
Então a pessoa respondeu:
"Recebemos uma denúncia anônima sobre você."
Lucas ficou imóvel.
"Uma denúncia?"
A voz continuou:
"A pessoa afirma que você não está protegendo Samuel."
Lucas sentiu o sangue gelar.
"Então o que ela está dizendo?"
A resposta veio lentamente.
"Ela afirma que você está usando seu irmão para impedir que ele tenha uma vida melhor."
Lucas ficou sem palavras.
Naquele momento, ele percebeu que não estava mais lutando apenas contra uma decisão judicial.
Alguém estava tentando destruir a única coisa que ele ainda tinha.
A confiança de Samuel.
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