"O Menino Que Parou a Morte" Parte 2
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A voz de Augusto Vasconcelos Montenegro ainda ecoava pelos corredores do Hospital Vasconcelos Albert Einstein.
Durante alguns segundos, ninguém conseguiu se mover.
Os médicos olhavam para os alto-falantes tentando entender como aquilo era possível.
A família Vasconcelos inteira acreditava que Augusto estava morto.
Dois anos antes, todos haviam participado do funeral do patriarca.
Todos haviam visto as lágrimas.
Todos haviam acompanhado o enterro.
Mas agora aquela mesma voz atravessava o hospital.
A voz de um homem que deveria estar descansando em um túmulo.
Henrique Vasconcelos Montenegro ficou parado ao lado de Beatriz.
Ele olhava para a esposa tentando encontrar alguma resposta.
"Beatriz..."
Ela não conseguia olhar para ele.
"Você sabia?"
A pergunta de Henrique carregava dor e raiva.
Beatriz permaneceu em silêncio.
E aquele silêncio dizia mais do que qualquer palavra.
Enquanto todos tentavam entender o que estava acontecendo, uma porta escondida em uma área restrita do hospital se abriu.
Longe dos pacientes.
Longe dos médicos comuns.
Longe dos olhos da família.
Existia uma parte do Hospital Vasconcelos Albert Einstein que não aparecia em nenhuma planta oficial.
Um andar subterrâneo construído muitos anos antes.
Um lugar que apenas poucas pessoas conheciam.
Luzes frias iluminavam corredores de concreto.
Câmeras monitoravam cada movimento.
Dentro daquele espaço secreto, Augusto Vasconcelos Montenegro caminhava lentamente.
Ele usava uma bengala.
Seu rosto parecia mais envelhecido.
Mas seus olhos continuavam fortes.
Ele nunca havia morrido.
A morte dele foi apenas uma encenação.
Uma mentira cuidadosamente criada.
Durante dois anos, Augusto permaneceu escondido naquele lugar.
Observando.
Esperando.
Planejando.
Ele entrou em uma sala enorme cheia de monitores.
Nas telas apareciam imagens do hospital.
Uma delas mostrava Miguel Ferreira Ribeiro.
O menino estava sentado em uma sala de observação, depois de salvar Noah.
Augusto ficou olhando para ele por alguns segundos.
Então sorriu.
"Finalmente."
Um homem de terno escuro se aproximou carregando uma pasta.
"Senhor Augusto, confirmamos a identidade."
Augusto estendeu a mão.
O homem entregou os documentos.
"Ele é Miguel Ferreira Ribeiro."
Augusto abriu a pasta lentamente.
Na primeira página estava o nome de Mariana Ferreira Ribeiro.
O sorriso dele desapareceu por um instante.
Mariana.
A mulher que havia mudado sua vida.
A primeira pessoa que provou que sua pesquisa estava correta.
Anos antes, Augusto havia criado um projeto secreto.
Um projeto que nunca apareceu nos registros da família.
Um projeto escondido até mesmo dos próprios herdeiros.
Projeto Horizonte.
O objetivo era estudar pessoas com capacidades biológicas incomuns.
Pessoas capazes de perceber alterações no corpo humano antes dos equipamentos médicos.
Pessoas que possuíam uma sensibilidade diferente.
Uma capacidade que a ciência ainda não conseguia explicar completamente.
E Mariana havia sido a primeira.
Ela não era apenas uma paciente.
Ela era o início de tudo.
Augusto caminhou até uma grande tela.
Nela aparecia uma fotografia antiga de Mariana.
"Ela sempre acreditou que poderia fugir."
O homem ao lado ficou em silêncio.
Augusto continuou:
"Mas ela esqueceu que eu já sabia o que existia dentro dela."
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Ele mudou a imagem.
Agora aparecia Miguel.
O menino que havia colocado a mão no peito de Noah.
O menino que havia feito um coração voltar a bater.
Augusto aproximou-se da tela.
"Ele herdou."
O homem perguntou:
"Tem certeza?"
Augusto respondeu sem hesitar:
"Tenho."
Ele observou os dados.
"Mariana carregava essa capacidade."
Depois apontou para Miguel.
"E ele nasceu com ela."
Enquanto isso, no andar superior, Miguel permanecia em uma pequena sala médica.
Ele ainda estava fraco.
Depois do que aconteceu com Noah, os médicos queriam fazer exames.
Mas ninguém conseguia explicar o que havia acontecido.
Henrique entrou na sala.
Ele ainda estava tentando organizar tudo em sua mente.
Um menino desconhecido.
Uma fotografia de Mariana.
Seu filho salvo de uma forma impossível.
E agora seu avô, que deveria estar morto, estava vivo.
Miguel olhou para ele.
"Você quer saber sobre minha mãe."
Henrique ficou surpreso.
"Quero."
Miguel abaixou os olhos.
"Ela não gostava de falar sobre o passado."
Henrique se aproximou.
"Por quê?"
O menino demorou para responder.
"Porque sempre que falava, ela ficava com medo."
Aquela resposta atingiu Henrique.
Antes que pudesse continuar, a porta se abriu.
Dois homens entraram.
Eles não usavam roupas de médicos.
Miguel percebeu imediatamente.
Havia algo errado.
Um deles falou:
"Precisamos levar o garoto."
Henrique se colocou na frente de Miguel.
"Quem são vocês?"
O homem respondeu:
"Uma ordem de Augusto Vasconcelos Montenegro."
O rosto de Henrique mudou.
Mas antes que pudesse impedir, Miguel ouviu uma voz pelo corredor.
Era a mesma voz que havia assustado todos no hospital.
Augusto.
"Deixe que ele venha."
Miguel olhou para Henrique.
Ele não queria ir.
Mas também queria respostas.
Poucos minutos depois, ele desceu pelo elevador secreto.
Quanto mais fundo chegava, mais estranho aquele lugar parecia.
Não parecia um hospital.
Parecia um laboratório.
Havia salas fechadas.
Computadores.
Arquivos antigos.
Fotografias.
Miguel parou quando viu uma imagem na parede.
Era sua mãe.
Mariana.
Seu coração acelerou.
"Por que ela está aqui?"
A voz de Augusto veio atrás dele.
"Porque ela foi especial."
Miguel virou.
Pela primeira vez, viu o homem que todos acreditavam estar morto.
Augusto estava diante dele.
Calmo.
Seguro.
Como se aquele encontro tivesse sido planejado há anos.
"Você é o filho dela."
Miguel ficou em silêncio.
"Você conhecia minha mãe?"
Augusto sorriu.
"Eu conhecia melhor do que qualquer pessoa."
Miguel sentiu raiva.
"Minha mãe tinha medo de você."
O sorriso de Augusto desapareceu por um instante.
Mas logo voltou.
"Ela tinha medo porque não entendia o que eu estava tentando fazer."
Miguel olhou para os arquivos.
"Você machucou ela."
Augusto se aproximou.
"Eu descobri algo nela."
"Algo que agora existe em você."
Miguel ficou desconfiado.
"Eu não sou como você."
Augusto caminhou até uma mesa.
Colocou algumas imagens diante dele.
Uma casa grande.
Com jardim.
Quartos confortáveis.
Depois mostrou uma mesa cheia de comida.
Miguel ficou olhando.
Ele nunca havia vivido daquela forma.
Sua vida sempre foi simples.
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Muitas vezes ele e seu avô Antonio precisavam escolher entre comprar comida ou remédios.
Augusto percebeu a reação dele.
Então mostrou outra imagem.
Uma caixa de medicamentos.
"Esses são os remédios que seu avô Antonio precisa."
Miguel ficou imóvel.
Antonio.
O homem que cuidou dele desde pequeno.
O homem que nunca abandonou sua mãe.
O homem que agora estava doente.
Augusto falou calmamente:
"Eu posso dar tudo isso para você."
Ele apontou para as imagens.
"Uma casa."
"Comida todos os dias."
"O tratamento completo para seu avô."
Miguel ficou em silêncio.
Pela primeira vez, aquela proposta parecia tentadora.
Ele imaginou Antonio sem dor.
Imaginou uma mesa cheia de comida.
Imaginou não precisar mais sentir medo do amanhã.
Augusto percebeu sua dúvida.
Então se aproximou.
"Você só precisa me ajudar."
Miguel levantou os olhos.
"Como?"
Augusto respondeu:
"Continuando o que sua mãe começou."
O menino sentiu um arrepio.
Naquele momento, lembrou dos olhos assustados de Mariana.
Lembrou das vezes em que ela dizia para nunca confiar em pessoas que prometiam tudo.
Ele fechou os punhos.
"Minha mãe fugiu de você por algum motivo."
Augusto ficou sério.
Miguel deu um passo para trás.
"Eu não vou deixar você fazer comigo o mesmo que fez com ela."
Augusto observou o menino.
"Você tem a mesma coragem dela."
Miguel respondeu:
"Eu não sou seu experimento."
O silêncio tomou conta do laboratório.
Pela primeira vez, Augusto percebeu que controlar Miguel não seria tão simples.
O menino não queria dinheiro.
Não queria luxo.
Ele queria proteger a memória da mãe.
Augusto caminhou lentamente até uma estante.
Pegou uma pasta antiga.
E voltou para a mesa.
Ele abriu lentamente.
Depois olhou para Miguel.
Com um sorriso frio, disse:
"Sua mãe também disse exatamente a mesma coisa."
Miguel ficou imóvel.
Augusto virou a primeira página do documento.
Dentro da pasta havia registros médicos antigos.
Análises.
Relatórios.
E uma informação que Miguel nunca imaginou encontrar.
No topo do arquivo estava escrito:
"Registro Experimental de Nascimento."
Logo abaixo:
"Miguel Ferreira Ribeiro."
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