"Obsessão de Sangue" Capítulo 6
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Capítulo 6:
O sol da tarde despontava pálido sobre a arquitetura antiga do centro de São Paulo, projetando sombras longas através das janelas empoeiradas do antigo estúdio de arte e restauração dos Silva.
O espaço, antes sinônimo de orgulho e refinamento familiar, encontrava-se agora mergulhado em um silêncio sepulcral, tomado pelo cheiro acre de terebentina secando e telas rasgadas pelo tempo.
Lorenzo von Sternberg empurrou a porta de madeira carcomida com um leve toque, permitindo que a luz poeirenta iluminasse o ambiente onde Valentina passara os melhores anos de sua vida.
Ele caminhou com passos firmes e deliberados pelo piso de tacos estragados, observando as dezenas de pincéis ressecados e cavaletes cobertos por lençóis cinzentos.
"Por que diabos me trouxe de volta a este lugar de ruínas e lembranças dolorosas, Lorenzo?", perguntou Valentina, cruzando os braços com firmeza enquanto tentava conter o tremor visível em sua voz.
"Porque certas verdades só podem ser compreendidas no exato cenário onde foram forjadas, senhorita Silva", respondeu o magnata sem se virar, fitando uma tapeçaria barroca parcialmente danificada.
Valentina sentiu o estômago revirar ao ver o homem que destruíra o seu legado caminhar casualmente por entre as memórias mais sagradas de sua família. Ela deu um passo à frente, com os olhos cor de âmbar faiscando de uma raiva pura e descontrolada contra a audácia dele.
"O senhor não tem o direito de pisar nas cinzas do trabalho do meu pai com essa sua postura cínica e arrogante", acusou ela, avançando em direção ao magnata com o peito arfando de indignação.
Lorenzo virou-se bruscamente, com a expressão gélida e impenetrável de sempre, bloqueando o caminho dela com a própria imponência corporal.
O perfume amadeirado de sândalo que ele exalava chocou-se contra o aroma de tinta e poeira do estúdio, criando uma atmosfera densa e sufocante.
"Eu tenho o direito absoluto sobre cada centímetro quadrado deste lugar, assim como tenho sobre cada suspiro que sai dos seus lábios", retrucou o magnata com a voz grossa e cortante.
"Você pode ter comprado as paredes e os papéis, mas a essência artística deste estúdio pertence ao meu sangue e à minha história", sibilou Valentina, encará-lo com o queixo erguido e um desafio mortal no olhar.
"História e sangue não pagam dívidas bilionárias, Valentina, e você sabe disso melhor do que ninguém", ironizou Lorenzo, dando um passo largo e perigoso em direção a ela.
O espaço entre os dois evaporou-se em frações de segundo, forçando a jovem a recuar até bater as costas contra a madeira pesada de um antigo cavalete. O impacto fez chover uma fina camada de poeira seca sobre os ombros de ambos, mas nenhum dos dois desviou o contato visual.
"O seu problema, Lorenzo, é que o senhor confunde poder financeiro com a capacidade de comprar almas", disparou ela, tentando em vão empurrar o peito firme dele com as palmas das mãos.
"E o seu problema é que você é teimosa demais para perceber que já perdeu esta guerra desde o primeiro segundo em que cruzou os portões da minha mansão", murmurou ele, segurando firmemente os pulsos dela.
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O calor febril da pele de Lorenzo queimava através do tecido da blusa de seda de Valentina, gerando uma corrente de eletricidade violenta e incontrolável.
A proximidade extrema transformou a discussão raivosa em uma tensão erótica palpável, densa e perigosamente destrutiva.
"Afaste-se de mim, seu monstro controlador", ordenou ela, sentindo o fôlego faltar diante da intensidade avassaladora daquele olhar azul glacial.
"Diga que me odeia olhando bem nos meus olhos, Valentina", desafiou o magnata, abaixando o rosto perigosamente até roçar os lábios na bochecha dela.
"Eu te odeio com cada célula do meu corpo, Lorenzo", sussurrou ela, com a voz embargada por uma mistura explosiva de ódio e desejo reprimido.
Um sorriso sombrio e predatório formou-se nos lábios de Lorenzo antes de ele capturar a boca dela em um beijo profundo, punitivo e avassalador.
Não havia qualquer resquício de carícia naquele ato, mas sim a colisão violenta de duas almas feridas que se devoravam em desespero.
Valentina tentou lutar contra a torrente de sensações que a invadia, debatendo-se e tentando morder os lábios dele para fazê-lo recuar.
No entanto, a força implacável de Lorenzo a manteve completamente imobilizada contra a madeira fria do cavalete, aprofundando o contato sem piedade.
O gosto metálico do sangue misturou-se rapidamente ao beijo quando, em um ato de puro instinto de sobrevivência e rebeldia, Valentina cravou os dentes com força no canto da boca dele. Lorenzo sibilou de dor com a surpresa do ataque, mas não se afastou nem um centímetro sequer.
Com os olhos escuros brilhando com uma intensidade maníaca e febril, ele afastou os lábios lentamente, limpando um filete de sangue fresco que escorria pelo seu queixo. O peito de ambos subia e descia em sincronia desordenada, marcando o ritmo caótico daquela rendição forçada.
"Você é uma verdadeira loba selvagem, Valentina, e é exatamente por isso que eu não consigo te deixar ir", sussurrou Lorenzo com a voz rouca, roçando o polegar ensanguentado nos lábios inchados dela.
Antes que Valentina pudesse formular qualquer resposta cáustica para rebater aquela confissão doentia, um som agudo e metálico quebrou o silêncio mortal do estúdio.
Era um eco abafado de passos apressados e sussurros discretos vindo diretamente do corredor escuro lá fora.
Alguém estava se aproximando sorrateiramente da porta principal, contornando as trancas com uma chave mestra ou ferramentas de arrombamento profissional. Pelo perfil dos passos, tratava-se de um dos espiões infiltrados de Isabela Santos, rastreando os passos do magnata para expor sua vulnerabilidade.
O corpo de Lorenzo tencionou instantaneamente, abandonando o transe passional para reassumir a postura letal de um predador de elite.
Ele puxou Valentina para trás de uma pilastra de concreto, cobrindo a boca dela com a mão grande para abafar qualquer som de surpresa.
"Fique rigorosamente em silêncio se quiser continuar respirando", murmurou o magnata bem rente ao ouvido dela, com a mão livre sacando agilmente uma pistola silenciada do coldre sob o paletó.
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Através de uma fresta na cortina empoeirada, Valentina conseguiu vislumbrar brevemente a silhueta de um homem encapuzado tateando as gavetas da mesa de trabalho de seu falecido pai.
Sobre uma das gavetas entreabertas, jazia um bilhete amassado com uma caligrafia trêmula que ela reconheceu de imediato como sendo de seu irmão Lucas.
Era um pedido desesperado de socorro, detalhando o cativeiro onde o rapaz estava sendo mantido refém por causa de dívidas impagáveis de jogo. O coração da jovem parou por um segundo ao perceber que o perigo rondava não apenas a ela, но também o seu único familiar vivo.
Lorenzo percebeu a mudança repentina na respiração de Valentina e seguiu o olhar fixo dela até o bilhete esquecido sobre a mesa.
A mandíbula do magnata travou em um sinal claro de que ele também havia dimensionado a gravidade da armadilha que se fechava ao redor deles.
Com um movimento rápido e silencioso, Lorenzo fez sinal para que ela permanecesse agachada e protegida pelas sombras da grande pilastra. Ele próprio deu dois passos felinos para fora do esconderijo, pronto para neutralizar o intruso antes que qualquer segredo fosse vazado.
O som de metal raspando contra a madeira ecoou pelo estúdio, indicando que o espião havia encontrado o que procurava nas gavetas dos arquivos.
A tensão no ar tornou-se palpável, eletrizante e pronta para explodir em mais uma onda de violência inevitável.
Valentina fechou os olhos por um breve instante, sentindo o peso esmagador de sua nova realidade desabar novamente sobre seus ombros. Ela sabia que cada escolha ao lado daquele homem a empurrava cada vez mais fundo para o olho do furacão.
Quando abriu os olhos âmbar, ela encarou a costa larga de Lorenzo que se postava como uma muralha de proteção implacável diante dela.
A linha tênue entre o ódio mortal e a dependência silenciosa começou a ruir perigosamente dentro de seu peito.
Com o rosto ainda marcado pelas lágrimas e pelos resquícios do beijo violento, Valentina respirou fundo para recuperar a compostura diante do perigo iminente.
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