"Obsessão de Sangue" Capítulo 2
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Capítulo 2:
A manhã seguinte amanheceu abafada e cinzenta, arrastando os escombros da tempestade da noite anterior para dentro dos corredores de mármore da mansão no Morumbi. Valentina foi despertada não pela luz do sol, mas pela batida seca e autoritária de Mateo na porta de seu quarto de hóspedes.
O fiel secretário de Lorenzo entregou-lhe uma pasta preta contendo as novas ordens do dia, acompanhada de um aviso gélido de que o patrão a aguardava no escritório principal.
Vestindo sua irrepreensível blusa de seda branca e a saia lápis cinza que marcava sua silhueta com elegância profissional, Valentina caminhou de cabeça erguida até a imponente porta de carvalho.
Ao girar a maçaneta e entrar, o cheiro característico de charuto caro e sândalo invadiu suas narinas, misturado à presença intimidadora de Lorenzo. O magnata já estava sentado à sua mesa executiva, vestindo uma camisa preta perfeitamente entalhada que destacava seus ombros largos e a frieza de suas feições.
"Pontualidade britânica, senhorita Silva", comentou Lorenzo sem sequer erguer os olhos das dezenas de pastas espalhadas à sua frente. "Achei que passaria a manhã inteira choramingando pelos cantos da minha casa por causa da sua nova realidade."
"O senhor me conhece muito pouco se acha que desperdiço meu tempo com lágrimas inusuais", retrucou Valentina com a voz firme, parando a poucos passos da mesa de mogno.
Lorenzo ergueu lentamente o olhar, deixando que suas íris azuis glaciais varressem o corpo dela de alto a baixo com um escrutínio insolente e deliberado. Um sorriso desdenhoso desenhou-se em seus lábios finos enquanto ele empurrava uma pilha colossal de arquivos confidenciais para a beirada da mesa.
"Se a sua coragem é tão grande quanto a sua empáfia, vamos testá-la agora mesmo neste exato escritório", disse o magnata, apontando com o queixo para o chão polido.
"Quero esses relatórios financeiros e dossiês sigilosos organizados, classificados e arquivados por ordem cronológica exata."
"Existem dezenas de secretárias pagas para realizar esse tipo de trabalho burocrático e mecânico nesta mansão", argumentou Valentina, sentindo o sangue ferver de indignação.
"Elas têm funções corporativas, mas você tem o privilégio de pagar parte da dívida infinita do seu falecido pai com o seu próprio suor", sibilou Lorenzo, levantando-se com uma imponência aterradora.
"E para que fique bem claro o seu devido lugar aqui dentro, você fará esse trabalho ajoelhada no chão, exatamente onde os fracos devem ficar."
O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pela respiração pesada de Valentina, cujos olhos cor de âmbar faiscavam de puro ódio contido. Ela olhou para o piso de madeira lustrada e depois para o rosto impassível e tirânico do homem que a mantinha prisioneira.
"O senhor gosta de exercitar essa sua necessidade doentia de humilhação pública e privada, não é, Lorenzo?", perguntou ela, mantendo a coluna erguida apesar do abismo que se abria sob seus pés.
"Isso alimenta o seu ego frágil de quem precisa esmagar os outros para se sentir poderoso?"
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A mandíbula de Lorenzo travou com tanta força que os músculos do seu rosto saltaram em relevo, denunciando o impacto direto daquela provocação.
Em dois passos largos, ele fechou a distância entre eles, invadindo o espaço pessoal da jovem com uma energia perigosa e sufocante.
"Cuidado com as palavras que ousa pronunciar na minha presença, prisioneira", murmurou ele bem perto do ouvido dela, com um tom de voz que parecia arrastar lâminas pelo chão. "Você está testando a paciência de um homem que não tem nenhuma."
"Faça o que quiser com as suas ameaças vazias, pois eu não vou me curvar diante dos seus caprichos", rebateu Valentina, sustentando o olhar dele sem pestanejar.
"Vamos ver quanto tempo essa sua pose de heroína incorruptível vai durar sob a minha supervisão direta", sibilou o magnata, voltando a se afastar ligeiramente. "Ajoelhe-se e comece o seu trabalho imediatamente, ou as consequências para o restante da sua família serão irreversíveis."
Sabendo perfeitamente que ele não blefava quando se tratava de destruir o que restava de seu legado, Valentina engoliu em seco o orgulho ferido.
Com movimentos lentos, deliberados e carregados de uma rebeldia silenciosa, ela dobrou os joelhos e se acomodou diretamente sobre o piso frio do escritório.
Lorenzo voltou a se sentar na poltrona de couro, cruzando as pernas longas e observando cada microexpressão no rosto da jovem com um deleite sádico.
A visão dela ali, vestida com a imaculada blusa de seda branca e submetida àquela posição de aparente submissão, provocava nele uma estranha e febril agitação.
"Organize por data de emissão e descarte qualquer rascunho que contenha anotações à margem", ordenou ele, cruzando os braços com fingido desinteresse. "E não ouse cometer nenhum erro de classificação, caso contrário terá que refazer tudo desde o início."
Valentina não respondeu uma única palavra, limitando-se a morder o lábio inferior com tanta força que sentiu o gosto metálico do próprio sangue. Ela começou a folhear as primeiras páginas dos pesados dossiês confidenciais espalhados ao seu redor no chão.
Cada minuto que passava parecia se arrastar como uma eternidade naquele cubículo de poder e opressão, enquanto o olhar fixo de Lorenzo pesava sobre suas costas como toneladas de chumbo.
A mente da jovem trabalhava freneticamente, buscando qualquer brecha nos documentos para entender os reais motivos daquela obsessão financeira.
"Vejo que aprendeu a obedecer mais rápido do que eu imaginava, ratinha de escritório", provocou Lorenzo com um sorriso cínico, quebrando o silêncio mortal da sala.
"A obediência sob coação armada não passa de sobrevivência temporária, e o senhor sabe disso muito bem", respondeu Valentina sem erguer a cabeça das folhas.
"A sobrevivência já é um excelente ponto de partida para quem achava que podia desafiar o meu império", retrucou o magnata, recostando-se na poltrona com elegância felina.
Conforme avançava para as pastas mais profundas da pilha de documentos sigilosos, os dedos trêmulos de Valentina pararam bruscamente sobre uma folha específica. Seus olhos âmbar arregalaram-se ao ler o timbre oficial da investigação privada impressa no topo da página.
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Era um dossiê detalhado, repleto de fotografias antigas, plantas arquitetônicas e relatórios de auditoria focados exclusivamente no estúdio de arte e restauração de sua família.
O documento trazia a assinatura direta de uma agência de inteligência corporativa contratada em segredo meses antes da falência oficial por uma subsidiária dos negócios de Lorenzo.
"O que o senhor estava investigando sobre o estúdio do meu pai muito antes de tudo desabar?", perguntou Valentina com a voz irreconhecível, sentindo o ar sumir de seus pulmões.
O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor, e o som do relógio de pêndulo pareceu parar de repente. Lorenzo cessou imediatamente o movimento com o copo de uísque e estreitou os olhos azuis em sua direção com uma frieza calculista.
"Alguns segredos do passado devem permanecer enterrados na cova de quem os criou, Valentina", respondeu ele com um tom de voz perigosamente plano e cortante.
"O senhor armou toda essa ruína financeira muito antes de nos dar o golpe final, não foi?", acusou ela, levantando-se abruptamente do chão com o papel manchado de provas nas mãos trêmulas.
Antes que ela pudesse recuar ou erguer o dossiê para confrontá-lo de vez, a figura imponente de Lorenzo desapareceu de trás da mesa em um piscar de olhos.
Com uma velocidade assustadora, ele cruzou o espaço e a empurrou com firmeza contra a parede de painéis de madeira do escritório.
A força do impacto tirou o restante do ar dos pulmões de Valentina, mas ela continuou a encará-lo com um ódio cego e faiscante. Lorenzo impôs todo o peso de seu corpo contra o dela, imobilizando-a completamente sem lhe dar qualquer chance de fuga.
Com uma rapidez felina, ele estendeu a mão, arrancou o documento incriminatório de seus dedos e o jogou longe, fazendo-o planar no ar. Suas mãos grandes e gélidas subiram pelo corpo dela até travarem com força implacável em sua cintura fina.
O calor febril daquele contato repentino gerou uma corrente elétrica violenta que fez a pele de Valentina se arrepiar inteira. Ela tentou empurrá-lo com os punhos cerrados, mas a musculatura de Lorenzo era como uma muralha de aço intransponível.
"Você mexe onde não deve e lê o que não é da sua conta, senhorita Silva", sussurrou Lorenzo com a voz rouca e estranhamente trêmula contra o seu pescoço.
"O senhor é um monstro calculista que destruiu a minha família com mentiras", gritou ela em um sussurro abafado, sentindo as lágrimas de raiva finalmente ameaçarem seus olhos.
Lorenzo ignorou as acusações e abaixou o rosto perigosamente, sentindo o perfume natural da pele dela misturado ao cheiro do pânico puro. Com os dedos cravados em sua cintura, ele percebeu algo que o irritou e o fascinou ao mesmo tempo.
O magnata ergueu o olhar escuro e fixou-o diretamente nos olhos âmbar dela, com um sorriso enigmático nos lábios.
"Truestrange, verdadeiramente estranho", murmurou Lorenzo, colando a testa na dela com uma intensidade avassaladora. "Pois, por mais que você afirme me odiar com todas as forças, o seu coração está disparado e acelerado contra o meu peito agora mesmo, Valentina. Por que será?"
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