"A Vingança da Perfumista Exilada" Capítulo 2
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Capítulo 2: O Casulo de Paris
Quatro anos se passaram desde que os pneus daquele jato executivo rasgaram as nuvens negras de São Paulo, deixando para trás os vestígios de uma Fiorella que sangrara na calçada. O céu cinzento de Paris agora emoldurava a imensa janela de vidro do laboratório na Place Vendôme, onde o passado já não passava de uma nota olfativa quase imperceptível.
"Coloque mais duas gotas de essência de néroli puro na solução base, mamãe, o fundo ainda está excessivamente doce para o mercado europeu" instruiu o pequeno Dante, sem desviar os olhos azul-escuro do cronômetro digital sobre a bancada.
"Você tem razão, meu pequeno grande mestre, a doçura é um erro que não podemos cometer se quisermos que eles sintam o frio da nossa mensagem" respondeu Fiora, acariciando os cachos negros do filho com uma suavidade que reservava apenas a ele.
A transformação da frágil noiva de São Paulo na respeitada soberana da perfumaria europeia fora forjada em noites de laboratório em claro e fórmulas matemáticas exatas.
Seus olhos de âmbar, agora emoldurados por um corte de cabelo curto e geométrico, já não guardavam o brilho da inocência, mas sim o reflexo metálico dos frascos de laboratório.
"O comitê do Prêmio de Fragrância Europeia acabou de confirmar a sua indicação ao primeiro lugar da categoria de nicho, Fiora" anunciou Matías, cruzando a porta de carvalho com a elegância natural de quem carregava séculos de aristocracia no sobrenome.
"Eles conseguiram rastrear a origem da matéria-prima que usamos no frasco de testes ou a nossa blindagem de distribuição funcionou perfeitamente?" questionou ela, ajustando o colarinho de sua blusa de seda branca com um movimento minimalista.
"Ninguém sabe quem é a mente por trás da marca Fiora Silva Corp, as agências internacionais estão em um colapso de curiosidade" garantiu o conde francês, servindo-se de uma xícara de café com um sorriso discreto nos lábios.
Dante desceu do banco de couro com a postura ereta de um pequeno cavalheiro, caminhando até a mesa de Matías para analisar os relatórios de mercado com suas mãozinhas firmes.
Suas pupilas azul-escuro, assustadoramente idênticas às do homem que os banira sob a tempestade, brilhavam com um fulgor calculista que não pertencia a uma criança de quatro anos.
"O Albuquerque Luxury Holding perdeu mais sete por cento de valor de mercado na abertura da bolsa de hoje, tio Matías" observou o menino, apontando para o gráfico vermelho na tela do tablet corporativo.
"A crise deles está apenas começando, pequeno lobo, porque a nova linha de cosméticos que eles tentaram lançar foi um fracasso absoluto de crítica" respondeu Matías, olhando para Fiora com uma admiração que ia muito além da sociedade comercial.
"Eles tentaram copiar a fórmula de jasmim que eu criei para ele na nossa antiga cobertura, mas Balthazar esqueceu que a alma da fragrância estava na minha mente, não nos registros dele" declarou Fiora, deixando escapar um sorriso gélido que combinava com o inverno parisiense.
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Ela caminhou até o cofre embutido na parede de mármore atrás de sua mesa de formulação, retirando dali uma caixa de laca preta que pertencera ao seu falecido pai biológico.
Dentro da caixa, além das antigas receitas de família, repousava um pendrive de titânio contendo um arquivo criptografado que Matías conseguira decodificar naquela mesma semana.
"Os relatórios alfandegários da década passada mostram que o tio de Balthazar desviava fundos através da importação de essências falsificadas da Europa" comentou Matías, aproximando-se da bancada com uma expressão séria.
"Isso significa que a ruína da família Albuquerque já estava escrita nos livros de contabilidade muito antes de eu cruzar o caminho daquele homem" deduziu Fiora, guardando o pendrive no bolso de seu paletó de alfaiataria fina.
"A imprensa brasileira está especulando que Balthazar está vendendo parte de seus imóveis privados para cobrir o rombo da última auditoria fiscal" acrescentou o sócio, entregando a ela uma pasta com o selo confidencial da embaixada.
Dante subiu novamente em seu banco, pegando um frasco de ensaio e cheirando o conteúdo com uma precisão cirúrgica que arrancaria lágrimas de qualquer mestre调师 da velha guarda.
"O homem da foto do jornal tem os olhos parecidos com os meus, mamãe, mas ele parece um monstro cansado que não sabe como respirar direito" comentou o menino, encarando a imagem de Balthazar na capa do diário econômico.
"Ele é apenas um espectro do passado que tentou nos quebrar, Dante, mas nós somos feitos de uma essência que não se desfaz com as mentiras dele" explicou Fiora, ajoelhando-se para ficar na altura dos olhos do filho.
"Se ele vier atrás de nós quando souber a verdade, eu vou quebrar os brinquedos dele na bolsa de valores" prometeu o pequeno herdeiro, com uma frieza que fez o conde francês soltar uma risada impressionada.
"O garoto tem o sangue dos Albuquerque, Fiora, mas a lealdade dele é inteiramente sua e da nossa dinastia" ponderou Matías, guardando os relatórios de ações na gaveta trancada.
O telefone da linha direta de Fiora tocou duas vezes antes que a secretária executiva transferisse a chamada com uma urgência inédita em sua voz profissional.
"A assessoria da holding de São Paulo enviou uma proposta formal de resgate de imagem, senhora, eles oferecem cinquenta por cento dos royalties em troca da sua assinatura exclusiva" informou a secretária através do sistema de viva-voz do laboratório.
"Diga a eles que a marca Fiora Silva Corp não negocia com empresas que possuem histórico de fraude moral e incompetência olfativa" ordenou a perfumista, sem alterar o tom de voz em nenhum decibel.
A impressora de alta segurança do laboratório terminou de cuspir o documento oficial com o logotipo da Albuquerque Holding impresso em letras douradas, detalhando os termos da parceria desesperada que o ex-marido tentava propor.
Fiora pegou a folha com as pontas dos dedos, sentindo o cheiro do papel de alta gramatura que vinha direto do Brasil como um apelo fúnebre.
"Você tem certeza de que quer voltar para aquela cidade depois de tudo o que eles fizeram você passar na calçada da Alameda Lorena?" indagou Matías, fixando seus olhos nos dela com uma preocupação genuína de protetor.
"Eu não vou voltar como a esposa renegada que aceita as migalhas do julgamento dele, Matías, eu vou voltar como a dona do destino que ele tentou roubar" respondeu Fiora, com uma determinação que fez o ar do laboratório parecer ainda mais rarefeito.
Ela caminhou até o triturador de documentos industrial posicionado ao lado de sua mesa de carvalho, posicionando a folha de papel timbrado acima da fresta de metal.
As lâminas de aço começaram a girar com um ruído surdo, prontas para reduzir a arrogância da holding de Balthazar a fiapos inúteis de celulose.
"Diga ao piloto para preparar o jato para o final de semana, nós vamos aceitar o convite do comitê de São Paulo para a abertura da temporada internacional" determinou ela, soltando o papel no mecanismo que o desintegrou em segundos.
"A passagem de ida está confirmada para nós três, Fiora, e o hotel Fasano já reservou o andar inteiro sob o nosso novo nome corporativo" confirmou Matías, sorrindo ao ver a soberania da parceira se consolidar.
Fiora olhou para a passagem digital impressa sobre a mesa, onde o destino final brilhava em letras garrafais como o início do acerto de contas mais esperado da elite brasileira.
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