"Eu Criei Meu Próprio Irmão" Parte 6
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A pulseira vermelha e azul de Miguel permanecia dentro de um saco plástico transparente, sobre a mesa da delegacia de Mogi das Cruzes.
Gabriel não conseguia desviar os olhos dela.
Aqueles fios haviam sido amarrados no pulso do irmão três anos antes, no corredor da Santa Casa, quando os dois prometeram que nunca seriam separados.
Agora, a pulseira era a única prova de que Miguel estivera dentro do carro abandonado.
"Ele deixou isso para mim", Gabriel disse.
A delegada responsável pela ocorrência, Helena Ribeiro, observou o adolescente por alguns segundos.
"Ou alguém arrancou dele."
"Não. Miguel sabe que eu procuraria pelos fios."
"Você acredita que ele deixou uma pista?"
"Tenho certeza."
Gabriel apontou para uma pequena mancha escura no nó da pulseira.
"Ele morde a ponta quando fica nervoso. Fez isso antes de esconder."
Helena pediu que a perícia analisasse o material.
Patrícia permanecia perto da porta, ainda abalada pela facilidade com que Sônia havia enganado os funcionários do fórum.
Dona Rosa rezava em silêncio, apertando um terço entre os dedos.
O promotor Marcelo Azevedo chegou pouco depois, acompanhado por dois investigadores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado.
O vídeo de Carlos Eduardo mudara tudo.
O caso que começara como uma disputa de guarda agora envolvia falsificação de documentos, sequestro de criança, desaparecimento forçado e possíveis crimes cometidos por agentes públicos.
"Precisamos reconstruir os últimos três anos", Marcelo afirmou.
Gabriel se levantou.
"Não temos três anos. Meu irmão está desaparecido agora."
"Encontrar Miguel é prioridade."
"Então parem de conversar e procurem."
A delegada Helena não se ofendeu.
"Estamos procurando. Barreiras foram montadas nas estradas e as imagens das câmeras estão sendo analisadas."
"Antônio sabe como a polícia trabalha."
"Sim."
"Ele foi policial."
"Foi mais do que isso", disse Marcelo. "Antônio Prado trabalhou durante doze anos na Delegacia de Proteção à Pessoa."
Gabriel sentiu o estômago apertar.
O homem responsável por levar a caixa verde havia investigado desaparecimentos durante grande parte da carreira.
Ele sabia como ocultar rastros.
"Por que ele saiu da polícia?"
Marcelo abriu uma pasta.
"Oficialmente, pediu exoneração por motivos pessoais."
"E de verdade?"
"Existem denúncias internas que nunca avançaram."
Gabriel soltou uma risada amarga.
"Nunca avançaram porque alguém fez desaparecer."
O promotor não negou.
A delegada Helena colocou sobre a mesa uma cópia do relatório elaborado após a morte de Ana Paula.
O documento afirmava que os filhos da mulher não possuíam parentes localizados nem patrimônio relevante.
Na última página aparecia a assinatura de Antônio Prado.
"Foi ele quem conduziu a primeira verificação familiar", explicou Helena.
"Então Antônio sabia que Sônia existia", disse Gabriel.
"Sabia."
"Mas colocou no relatório que não havia parentes."
"Foi isso que declarou."
Gabriel olhou para Patrícia.
"Vocês usaram esse documento para separar a gente?"
A assistente social abaixou a cabeça.
"O relatório fazia parte do processo."
"Minha mãe morreu, meu pai estava desaparecido e a única pessoa que podia contar a verdade escreveu que não tínhamos ninguém."
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Marcelo abriu uma segunda pasta.
"Há algo ainda mais grave."
O promotor apresentou uma declaração registrada três meses depois da morte de Ana Paula.
Nela, Sônia afirmava não possuir qualquer vínculo familiar com Gabriel e Miguel.
A mulher alegava ter conhecido Ana Paula apenas durante um trabalho temporário numa confecção.
A assinatura estava reconhecida em cartório.
Gabriel leu duas vezes.
"Ela negou que fosse irmã da minha mãe."
"Exatamente", respondeu Marcelo.
"Agora apareceu no tribunal dizendo que é a única parente viva."
"Sim."
"Por quê?"
O promotor colocou outro documento sobre a mesa.
Era um requerimento de regularização patrimonial apresentado à Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo.
Sônia solicitara a transferência de um imóvel que pertencera a Ana Paula, alegando que a proprietária morrera sem deixar herdeiros conhecidos.
Gabriel ficou de pé tão depressa que a cadeira caiu.
"Minha mãe tinha uma casa?"
Dona Rosa fechou os olhos.
Patrícia olhou para a idosa.
"A senhora sabia?"
"Sabia que Ana tinha comprado um pequeno imóvel."
"Por que nunca contou?"
"Porque ela dizia que a casa estava envolvida numa confusão."
Gabriel se aproximou de Dona Rosa.
"Que confusão?"
"Ana pagou durante anos por um sobrado no Jardim Helena. Era pequeno, mas estava quase quitado."
"Nós sempre moramos de aluguel."
"Ela não podia levar vocês para lá."
"Por quê?"
Dona Rosa apertou o terço.
"Depois que Carlos desapareceu, homens começaram a vigiar a rua. Ana ficou com medo de que descobrissem que o imóvel estava no nome dela."
Gabriel voltou-se para Marcelo.
"Sônia queria a casa."
"Os documentos indicam isso."
"Ela declarou que minha mãe morreu sem filhos?"
"Declarou que não havia herdeiros localizáveis."
"Ela sabia onde nós morávamos."
"A investigação precisa provar que agiu intencionalmente."
Gabriel bateu a mão sobre a mesa.
"Ela entrou no nosso apartamento ontem. Levou meu irmão hoje. O que mais vocês precisam provar?"
A delegada Helena pediu calma.
"Gabriel, cada descoberta aumenta nossa possibilidade de conseguir mandados e localizar quem ajudou Sônia."
"Enquanto vocês juntam papéis, ela pode estar machucando Miguel."
"Eu sei."
"Não sabe."
Helena sustentou o olhar dele.
"Minha filha desapareceu quando tinha nove anos."
A sala ficou em silêncio.
"Levei seis horas para encontrá-la numa estação de trem", continuou a delegada. "Sei o que cada minuto faz com uma família."
Gabriel respirou fundo.
"Então encontre meu irmão."
"É o que vou fazer."
O promotor Marcelo explicou que o requerimento de Sônia fora aprovado provisoriamente.
Por quase dois anos, ela recebera os valores de aluguel do sobrado que pertencera a Ana Paula.
Também tentara vender o imóvel para uma empresa chamada Prado Empreendimentos Patrimoniais.
O responsável legal pela empresa era Antônio Prado.
"Ele compraria uma casa que já controlava por meio de Sônia", concluiu Patrícia.
"Eles queriam limpar a propriedade", disse Marcelo.
Gabriel observou novamente os documentos.
Na descrição do imóvel havia uma anotação feita à mão.
Edícula dos fundos interditada.
"Por que essa parte estava interditada?"
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O promotor folheou o processo.
"Risco estrutural."
"Quem fez a vistoria?"
Marcelo encontrou a página.
O engenheiro responsável chamava-se Renato Ferreira.
Dona Rosa levou a mão à boca.
"Renato era marido de Sônia."
Gabriel virou-se para ela.
"Ela era casada?"
"Foi durante alguns anos."
"Ninguém falou desse homem."
"Sônia dizia que ele havia morrido."
A delegada Helena pesquisou o nome no sistema.
Não havia certidão de óbito.
Renato Ferreira constava como desaparecido havia três anos e quatro meses.
O registro fora feito por Sônia.
O policial que recebera a ocorrência era Antônio Prado.
"Todos os desaparecimentos passam pelo mesmo homem", Gabriel murmurou.
Carlos Eduardo.
Renato Ferreira.
Talvez outras pessoas.
Marcelo determinou uma auditoria nos relatórios antigos assinados por Antônio.
A equipe encontrou oito casos de pessoas desaparecidas ligadas a imóveis, oficinas mecânicas ou veículos apreendidos.
Em cinco deles, o patrimônio havia sido transferido meses depois.
Antônio não era apenas alguém que ocultara Carlos.
Ele transformava desaparecimentos em negócios.
"Minha mãe descobriu isso?", perguntou Gabriel.
"É provável", respondeu Helena.
"E Sônia ajudava?"
"O nome dela aparece em procurações, pedidos de transferência e declarações de ausência."
Dona Rosa começou a chorar.
"Eu devia ter falado antes."
Gabriel se virou para ela.
"Falado o quê?"
A idosa apertou o terço com tanta força que os dedos ficaram brancos.
"Uma semana antes de morrer, Ana me pediu que fosse ao sobrado do Jardim Helena."
"Por quê?"
"Ela queria que eu procurasse uma mulher que morava ao lado."
"Qual mulher?"
"Dona Celina."
Marcelo anotou o nome.
"Celina de quê?"
"Celina Batista Moreira."
Dona Rosa respirou fundo.
"Ela trabalhava no cartório onde Sônia reconheceu a assinatura daquela declaração."
A delegada Helena imediatamente pediu uma consulta.
Celina Batista Moreira havia se aposentado dois anos antes.
Seu último endereço registrado ficava na Penha.
"Ela conhecia minha mãe?", perguntou Gabriel.
"Conhecia", respondeu Dona Rosa. "Ana dizia que Celina tinha visto Sônia falsificar um documento."
"O documento sobre a casa?"
"Não sei. Ana nunca contou tudo."
Marcelo levantou-se.
"Vamos localizar essa testemunha."
Antes de saírem, a delegada Helena recebeu uma ligação da equipe enviada ao antigo apartamento de Antônio Prado.
O imóvel estava vazio.
As paredes haviam sido pintadas recentemente, os móveis retirados e os computadores destruídos.
Dentro da cozinha, encontraram fragmentos queimados de documentos.
Sônia e Antônio haviam começado a eliminar provas antes mesmo da audiência.
"A perícia consegue recuperar alguma coisa?", perguntou Gabriel.
"Talvez partes dos papéis."
"E o celular de Sônia?"
"A equipe está tentando acessar as mensagens apagadas."
Gabriel retirou do bolso o telefone antigo de Ana Paula.
"Meu pai falou que havia uma lista de nomes."
"Encontramos a lista no armário", lembrou Patrícia.
"Ele disse que aquela era uma cópia. Se Antônio destruiu os computadores, talvez o original estivesse na edícula da casa."
Marcelo olhou para a descrição do imóvel.
A edícula interditada podia ter sido uma desculpa para impedir qualquer vistoria.
"Precisamos de um mandado", disse.
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O juiz Ricardo Almeida autorizou a busca ainda naquela noite.
Gabriel insistiu em acompanhar a equipe, mas foi impedido por Patrícia.
Desta vez, não discutiu.
Enquanto os policiais seguiam para o Jardim Helena, ele permaneceu na delegacia, tentando pensar como Miguel.
Seu irmão tinha medo do escuro, mas era observador.
Prestava atenção em sons, placas, cores e cheiros.
Se tivesse oportunidade, deixaria outra pista.
Gabriel pediu para ouvir o áudio captado pelas câmeras do pedágio.
As imagens não possuíam som.
Então solicitou fotografias ampliadas do banco traseiro.
Num dos quadros, Miguel aparecia encostado à janela.
Sua mão estava levantada.
Ele mostrava três dedos.
"Isso significa alguma coisa?", perguntou Patrícia.
Gabriel aproximou a imagem.
"Nosso código."
"Que código?"
"Quando brincávamos de procurar lugares, três dedos significavam terceira parada."
"Terceira parada depois de onde?"
"Depois de sair do lugar onde estávamos."
A equipe reconstruiu o trajeto do carro.
Após abandonar o sedã preto usado no fórum, Sônia transferira Miguel para o automóvel de Antônio.
A terceira parada identificada pelas câmeras era um posto de combustível na Rodovia Ayrton Senna.
A delegada Helena telefonou para o estabelecimento.
O funcionário do caixa lembrava-se de uma criança chorando dentro do carro.
Também recordava que Sônia comprara água, biscoitos e um mapa rodoviário.
"Ela perguntou como chegar a Salesópolis sem passar pelo centro de Mogi", contou o homem.
A polícia redirecionou as buscas.
Gabriel fechou os olhos por um instante.
Miguel estava ajudando.
Mesmo assustado, cumpria a promessa feita entre os dois.
"Eu vou encontrar você", sussurrou.
Duas horas depois, a equipe do Jardim Helena telefonou.
O sobrado estava abandonado, mas a edícula não apresentava qualquer problema estrutural.
A porta havia sido reforçada por dentro.
No cômodo foram encontrados arquivos de processos, carimbos falsos, placas de veículos e fotografias de pessoas desaparecidas.
Havia também uma mesa de metal coberta por manchas antigas.
Gabriel ouviu a descrição pelo viva-voz.
"Meu pai esteve lá?"
A delegada Helena hesitou.
"Encontraram o nome Carlos Eduardo dos Santos escrito numa parede."
Gabriel sentiu as pernas perderem a força.
Ao lado do nome havia uma sequência de datas.
A última fora registrada apenas seis meses antes.
Carlos podia estar vivo.
O promotor Marcelo reuniu todas as novas provas e solicitou a prisão preventiva de Sônia e Antônio.
O Ministério Público assumiu formalmente o caso.
Também pediu o bloqueio do sobrado, das contas bancárias e de todos os bens transferidos por meio das declarações falsas.
Durante a análise dos documentos encontrados na edícula, a perícia confirmou que Sônia falsificara a assinatura de Ana Paula numa declaração de inexistência de herdeiros.
A mulher usara uma cópia antiga do documento da irmã para imitar os traços.
No relatório, afirmara que Gabriel e Miguel haviam sido entregues a uma família desconhecida fora de São Paulo.
"Ela apagou nossa existência para roubar a casa", Gabriel disse.
"E voltou quando percebeu que vocês poderiam descobrir", respondeu Marcelo.
"Mas por que levou Miguel?"
O promotor olhou para o protocolo do exame genético.
"A resposta pode estar naquele resultado."
O laboratório responsável pelo teste havia fechado.
Parte dos arquivos físicos fora destruída num incêndio considerado acidental.
O médico que assinara o exame, doutor Paulo Menezes, mudara-se para o interior e não era localizado havia anos.
Sônia eliminara quase todos os caminhos que levavam à verdade.
Quase todos.
Restava Celina Batista Moreira.
A mulher que trabalhara no cartório.
A única pessoa que, segundo Dona Rosa, vira Sônia falsificar o documento.
A delegada Helena enviou dois agentes ao endereço da Penha.
Gabriel pediu para participar da conversa.
"Ela pode saber para onde Sônia levaria Miguel."
"Primeiro precisamos encontrá-la", respondeu Helena.
Pouco depois da meia-noite, os agentes chegaram à casa.
O portão estava aberto.
As luzes permaneciam acesas.
Sobre a mesa havia uma xícara de café ainda morna e um prato com pão cortado ao meio.
A televisão estava ligada.
A bolsa de Celina permanecia pendurada numa cadeira.
Mas a mulher não estava em nenhum cômodo.
No quarto, encontraram roupas espalhadas sobre a cama e uma gaveta aberta.
Não havia sinais claros de luta.
Um vizinho informou ter visto Celina conversando com um homem naquela tarde.
"Consegue descrevê-lo?", perguntou o agente.
"Era alto, usava boné e mancava um pouco."
Antônio Prado mancava da perna direita desde um acidente ocorrido durante a época em que trabalhava na polícia.
Gabriel ouviu a informação pelo telefone.
"Eles levaram a testemunha."
A delegada Helena não respondeu.
Um dos agentes encontrou um envelope escondido debaixo do colchão de Celina.
Na frente estava escrito o nome de Ana Paula.
Dentro havia uma cópia da declaração falsificada e uma fotografia de Sônia entregando dinheiro a um funcionário do cartório.
No verso, Celina deixara uma mensagem.
Se eu desaparecer, procurem o livro de registros da sala sete. O documento falso não foi feito para roubar apenas a casa. Foi usado para esconder a verdadeira identidade de Miguel.
Gabriel sentiu o coração bater contra as costelas.
A delegada virou a fotografia para examinar melhor.
Atrás de Sônia, quase escondido pela porta do cartório, aparecia um homem segurando Miguel ainda bebê.
O rosto dele estava parcialmente coberto.
Mas no pulso havia a mesma pulseira de couro usada por Carlos Eduardo no vídeo.
Antes que alguém pudesse ampliar a imagem, o telefone da delegada tocou.
Era uma chamada de número restrito.
Helena atendeu e colocou no viva-voz.
Durante alguns segundos, ouviu-se apenas uma respiração fraca.
Então a voz de Celina surgiu, tremendo.
"Não procurem mais por mim."
"Celina, onde a senhora está?", perguntou Helena.
"Digam ao Gabriel que o pai dele está vivo."
Gabriel se aproximou do aparelho.
"Senhora Celina, onde está Miguel?"
A mulher começou a chorar.
"Eles descobriram que eu guardei o registro verdadeiro."
"Quem descobriu?"
"Sônia não quer a casa. Nunca quis apenas a casa."
Um ruído forte interrompeu a ligação.
Celina soltou um grito.
Antes de o telefone ficar mudo, conseguiu dizer uma última frase:
"Se abrirem o livro da sala sete, vão descobrir que Miguel foi registrado como filho de outra mulher."
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