"Eu Criei Meu Próprio Irmão" Parte 2
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Três anos antes, a chuva castigava o centro de São Paulo como se quisesse apagar todas as luzes da cidade.
Na Santa Casa de Misericórdia, o corredor da emergência estava lotado de pessoas, macas e vozes que se misturavam ao som insistente dos monitores.
Gabriel Henrique dos Santos tinha apenas doze anos.
Sentado em uma cadeira de plástico, ele mantinha Miguel adormecido sobre as pernas enquanto observava a porta fechada da sala de atendimento.
Naquela época, Miguel tinha quatro anos.
O menino usava uma blusa vermelha com um dinossauro desbotado e segurava, mesmo dormindo, a ponta da camisa do irmão.
Gabriel não conseguia tirar os olhos da porta.
Ana Paula dos Santos havia passado mal durante a madrugada, dentro da pequena casa alugada em Cidade Tiradentes.
Primeiro, ela reclamara de uma dor forte no peito.
Depois, deixara cair o copo de água que segurava e se apoiara na parede, respirando com dificuldade.
"Mãe?", Gabriel chamou.
Ana Paula tentou sorrir.
"Não assusta o Miguel."
Essas foram as últimas palavras que ela pronunciou dentro de casa.
Gabriel ligou para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência com as mãos tremendo.
Enquanto esperava a ambulância, colocou uma toalha dobrada sob a cabeça da mãe e manteve Miguel no quarto, dizendo que ela estava apenas cansada.
No caminho para o hospital, Ana Paula perdeu a consciência.
Gabriel ouviu os socorristas falarem termos que ele não entendia, enquanto apertava a mão de Miguel no banco da ambulância.
Agora, quase quatro horas depois, ninguém havia explicado nada.
Uma enfermeira passava pelo corredor quando Gabriel se levantou.
"Moça, minha mãe está naquela sala."
Ela olhou rapidamente para a pulseira de identificação no pulso dele.
"Qual é o nome dela?"
"Ana Paula dos Santos."
A enfermeira consultou uma prancheta.
"Você está acompanhado por algum adulto?"
Gabriel olhou para Miguel, ainda dormindo na cadeira.
"Não."
"Seu pai?"
"Não mora com a gente."
"Avós? Tios?"
Gabriel balançou a cabeça.
"Não tem ninguém."
A enfermeira pareceu preocupada.
"Espere aqui. Vou chamar a assistente social."
"Mas minha mãe está viva?"
A mulher hesitou.
"Um médico vai conversar com você."
A resposta não tranquilizou Gabriel.
Ele voltou a se sentar e colocou Miguel no banco ao lado, apoiando a cabeça do menino sobre sua mochila.
O relógio na parede marcava cinco e vinte e sete da manhã.
Gabriel contou cada minuto.
Quando a porta finalmente se abriu, um médico de cabelos grisalhos saiu acompanhado por uma enfermeira.
Ele procurou alguém no corredor até seus olhos encontrarem Gabriel.
"Você é filho da senhora Ana Paula?"
Gabriel se levantou imediatamente.
"Sou."
"Onde está seu responsável?"
"Minha mãe é minha responsável."
O médico respirou fundo.
"Qual é o seu nome?"
"Gabriel."
"Quantos anos você tem, Gabriel?"
"Doze."
O homem olhou para a enfermeira, como se procurasse ajuda para escolher as palavras.
Gabriel entendeu antes mesmo de ouvi-las.
Seu corpo inteiro começou a esfriar.
"O que aconteceu com ela?"
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"Gabriel, sua mãe chegou em uma condição muito grave."
"Mas ela estava falando em casa."
"Nós fizemos tudo o que estava ao nosso alcance."
Gabriel deu um passo para trás.
"Eu quero ver minha mãe."
O médico abaixou a voz.
"Ela sofreu uma parada cardíaca."
"Então faz o coração dela voltar."
"Nós tentamos por bastante tempo."
"Continua tentando."
A enfermeira se aproximou.
"Gabriel..."
"Continua!"
Sua voz ecoou pelo corredor.
Miguel despertou assustado.
"Gabriel?"
O adolescente olhou para o irmão e tentou controlar a respiração.
O médico se agachou diante dele.
"Sinto muito. Sua mãe não resistiu."
Gabriel ficou parado.
Durante alguns segundos, o hospital pareceu mergulhar em um silêncio absoluto.
Ele viu os lábios do médico continuarem se movendo, mas não escutou mais nada.
Sentiu apenas Miguel puxando sua camisa.
"O que ele falou?"
Gabriel não respondeu.
"Cadê a mamãe?"
A enfermeira Patrícia Oliveira, que naquela época trabalhava no setor social da Santa Casa, aproximou-se lentamente.
Ela havia sido chamada para acompanhar os menores até a chegada de algum parente.
"Meu nome é Patrícia. Eu vou ficar com vocês por enquanto."
Gabriel virou-se para ela.
"Não precisa."
"Vocês não podem ficar sozinhos."
"Eu estou com ele."
Patrícia percebeu que ele apontava para Miguel.
"Eu sei, Gabriel. Mas você também precisa de alguém."
"Não preciso."
Ele disse aquilo com firmeza, embora sentisse as pernas prestes a ceder.
Miguel escorregou da cadeira.
"Mamãe foi dormir?"
Gabriel fechou os olhos.
Aquela pergunta doeu mais do que a notícia do médico.
Ele se ajoelhou diante do irmão.
"Miguel, a mamãe ficou muito doente."
"Ela vai voltar para casa?"
Gabriel não conseguiu falar.
Miguel observou os olhos vermelhos do irmão e começou a compreender.
"Ela morreu?"
O adolescente sentiu as lágrimas escaparem.
"Sim."
Miguel ficou imóvel.
Depois, lançou os braços ao redor do pescoço de Gabriel e começou a chorar com um desespero que assustou até as pessoas sentadas do outro lado do corredor.
"Eu quero minha mãe!"
Gabriel o apertou contra o peito.
"Eu sei."
"Chama ela!"
"Eu não posso."
"Você sempre resolve!"
A frase partiu algo dentro de Gabriel.
Ele enterrou o rosto nos cabelos do irmão, tentando não gritar.
Patrícia permaneceu alguns passos atrás, contendo as próprias lágrimas.
A funcionária sabia que precisaria telefonar para o Conselho Tutelar.
Sabia também que, sem um adulto identificado, os irmãos poderiam ser encaminhados para serviços de acolhimento diferentes.
Mas naquele instante, ela não encontrou coragem para separar os dois nem por alguns minutos.
Miguel chorou até perder a força.
Quando finalmente levantou o rosto, seus olhos estavam inchados.
"Eu também vou ficar sozinho?"
Gabriel sentiu o mundo desabar uma segunda vez.
Ele segurou o rosto do menino.
"Não."
"Mas a mamãe foi embora."
"Eu estou aqui."
"E se você for embora também?"
"Eu não vou."
"Todo mundo vai."
Gabriel enxugou as lágrimas do irmão com as mangas da própria blusa.
"Olha para mim, Miguel."
O menino obedeceu.
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"Enquanto eu respirar, ninguém vai tirar você de mim."
Miguel soluçou.
"Promete?"
"Prometo."
"Mesmo se alguém mandar?"
"Mesmo assim."
"Mesmo se a polícia vier?"
Gabriel hesitou por um instante.
"Mesmo se o mundo inteiro vier."
Miguel estendeu o dedo mínimo.
Gabriel entrelaçou o seu ao dele.
A promessa foi feita no corredor frio da Santa Casa, entre o cheiro de álcool, o barulho das macas e a chuva que ainda batia contra as janelas.
Pouco depois, uma enfermeira trouxe uma sacola com os objetos pessoais de Ana Paula.
Dentro havia uma bolsa pequena, documentos, uma chave, algumas moedas e dois rolos de linha para bordado.
Um vermelho.
Outro azul.
Gabriel reconheceu os fios.
Ana Paula usava aquelas linhas para consertar roupas e fazer pequenos enfeites que vendia na feira de Itaquera.
Ele pegou os dois rolos.
"Posso ficar com isso?"
A enfermeira assentiu.
Gabriel retirou alguns pedaços de linha e começou a trançá-los.
Suas mãos ainda tremiam, mas ele continuou até formar duas pulseiras simples.
Uma maior.
Outra pequena.
Ele amarrou a menor no pulso de Miguel.
"Essa é sua."
Miguel tocou os fios.
"E a outra?"
Gabriel amarrou a pulseira maior no próprio pulso.
"É minha."
"Pra quê?"
"Quando você ficar com medo, olha para ela."
"Você vai estar perto?"
"Mesmo quando não puder me ver."
Miguel segurou o pulso do irmão e aproximou as duas pulseiras.
Os fios vermelhos e azuis se tocaram.
"Agora elas são irmãs também."
Gabriel sorriu em meio às lágrimas.
"São."
Patrícia observava a cena junto à porta.
Aquela imagem ficou gravada em sua memória.
Naquele mesmo dia, ela ajudou a localizar Dona Rosa, uma vizinha de Ana Paula que aceitou ficar temporariamente com os meninos.
Gabriel afirmou que existia uma tia materna, mas que a mãe nunca permitia contato com ela.
"Qual é o nome dessa tia?", Patrícia perguntou.
"Sônia Ferreira."
"Você sabe onde ela mora?"
"Não."
"Sua mãe dizia por que não queria contato?"
Gabriel olhou para Miguel, que dormia usando a mochila como travesseiro.
"Ela dizia que algumas pessoas só aparecem quando têm algo para ganhar."
Patrícia anotou a frase.
"Mas ela nunca explicou o que queria dizer?"
"Não."
Gabriel apertou a sacola com os pertences da mãe.
"Uma vez, minha mãe disse que, se alguma coisa acontecesse com ela, eu nunca deveria entregar Miguel para Sônia."
Patrícia levantou os olhos.
"Ela disse isso exatamente?"
"Disse."
"Quando?"
"Alguns meses atrás."
"Por que você nunca contou isso ao Conselho Tutelar?"
"Porque ninguém perguntou."
Naquela ocasião, Patrícia tentou localizar Sônia Ferreira, mas os dados disponíveis estavam desatualizados.
O endereço registrado ficava em Guaianases, porém a casa havia sido vendida anos antes.
Não existia telefone ativo.
Depois de várias tentativas, a busca foi arquivada como parente não localizado.
Gabriel e Miguel permaneceram sob os cuidados informais de Dona Rosa.
Meses depois, a vizinha sofreu um acidente vascular cerebral e precisou mudar-se para a casa da filha, em Guarulhos.
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Foi então que Gabriel começou a esconder das autoridades que os dois estavam sozinhos.
Durante quase dois anos, ele manteve a promessa.
Até o dia em que a escola descobriu tudo.
De volta à sala de audiências do Fórum João Mendes Júnior, ninguém ousava interromper Gabriel.
Ele ainda segurava as duas pulseiras sobre o pano branco.
Seus olhos estavam presos ao passado.
Miguel permanecia ao lado dele, com a mão fechada ao redor de seu pulso.
A mulher que havia entrado na sala segurando o envelope amarelado era Dona Rosa.
Mais magra e apoiada em uma bengala, ela respirava com dificuldade depois de atravessar o corredor às pressas.
Patrícia correu até ela.
"Dona Rosa?"
A idosa entregou o envelope ao juiz.
"Essa carta estava escondida entre os documentos da Ana Paula."
Gabriel ficou pálido.
"Por que a senhora nunca me contou?"
"Porque eu não sabia que ela existia."
"Como encontrou?"
"Minha filha trouxe minhas caixas de Cidade Tiradentes. O envelope estava costurado no forro de uma bolsa."
O juiz Ricardo examinou o papel.
Na frente, havia uma frase escrita à mão.
Para Gabriel, quando alguém tentar levar Miguel.
Gabriel reconheceu imediatamente a caligrafia da mãe.
Suas pernas perderam a força.
"É dela."
O juiz abriu o envelope com cuidado.
A carta tinha duas páginas.
Ele leu as primeiras linhas em silêncio, e sua expressão mudou.
Patrícia aproximou-se.
"O que está escrito?"
O juiz não respondeu.
Seus olhos percorreram a folha até pararem em um nome.
Sônia Ferreira.
Gabriel segurou a borda da mesa.
"Minha mãe escreveu sobre ela?"
O juiz dobrou a carta lentamente.
"Escreveu."
"Então leia."
"Antes, preciso confirmar a autenticidade do documento."
"Ela deixou a carta para mim."
"E será entregue a você no momento adequado."
Gabriel bateu a mão na mesa.
"Vão levar meu irmão hoje. O momento adequado é agora."
Miguel começou a chorar novamente.
Dona Rosa apontou para o envelope.
"Ana Paula tinha medo daquela mulher. Eu ouvi as duas discutindo mais de uma vez."
Patrícia franziu a testa.
"A senhora conhecia Sônia?"
"Conhecia."
"Por que nunca falou sobre isso?"
"Porque Ana me fez prometer silêncio."
Gabriel sentiu a raiva crescer.
"Todo mundo fez promessas para minha mãe, mas eu fui o único que ficou com Miguel."
Dona Rosa abaixou a cabeça.
"Eu sei, meu filho."
O juiz pediu ordem e determinou uma pausa na audiência.
As funcionárias do acolhimento foram orientadas a aguardar no corredor.
Miguel permaneceu com Gabriel, enquanto Patrícia analisava os registros antigos em seu computador.
Depois de alguns minutos, a assistente social congelou diante da tela.
"Senhor juiz."
Ricardo Almeida se aproximou.
"O que encontrou?"
Patrícia girou o computador.
"Há uma nova atualização no sistema de vínculos familiares."
Gabriel levantou-se.
"Que atualização?"
Patrícia olhou para ele com uma mistura de surpresa e preocupação.
"Uma mulher compareceu ontem ao Conselho Tutelar de Itaquera."
"Quem?"
"Ela apresentou documentos afirmando ser irmã de Ana Paula."
Dona Rosa segurou a bengala com força.
"Não pode ser."
Patrícia continuou:
"O nome dela é Sônia Aparecida Ferreira."
Miguel se escondeu atrás do irmão.
Gabriel sentiu as pulseiras pesarem em sua mão.
"O que ela quer?"
Patrícia fechou o relatório.
"Ela pediu a guarda de Miguel."
"Depois de três anos?"
"Ela afirma que nunca soube da morte de sua mãe."
"É mentira."
"O pedido veio acompanhado de certidões, comprovante de residência e declaração de renda."
Gabriel encarou o juiz.
"Minha mãe escreveu que tinha medo dela."
Ricardo Almeida voltou a abrir a carta.
Dessa vez, leu uma frase em voz alta:
"Se Sônia aparecer depois da minha morte, não acreditem quando disser que veio por amor."
O ar da sala tornou-se pesado.
Patrícia levou a mão à boca.
Dona Rosa começou a rezar baixinho.
Miguel segurou a pulseira do irmão.
"Gabriel, ela vai me levar?"
Antes que ele respondesse, ouviram passos firmes do lado de fora.
A porta se abriu.
Uma mulher elegante, de cabelos escuros presos em um coque impecável, entrou acompanhada por um advogado.
Ela usava um conjunto bege, bolsa de couro e um sorriso que não alcançava os olhos.
Sônia Ferreira parou no centro da sala e olhou primeiro para Miguel.
Depois, encarou Gabriel.
"Finalmente encontrei vocês."
Gabriel colocou-se diante do irmão.
Sônia inclinou levemente a cabeça.
"Você cresceu, Gabriel."
Ele fechou os punhos.
"Minha mãe mandou manter Miguel longe de você."
O sorriso da mulher desapareceu.
Por apenas um segundo, seus olhos revelaram algo frio.
Então ela voltou-se para o juiz.
"Excelência, vim buscar meu sobrinho."
Gabriel ergueu as duas pulseiras.
"Você não vai tocar nele."
Sônia olhou para os fios vermelhos e azuis.
Seu rosto perdeu a cor.
Ela reconhecia aquelas pulseiras.
E, quando viu o envelope sobre a mesa do juiz, deu um passo para trás.
"Quem entregou essa carta?"
Dona Rosa encarou-a.
"Está com medo do que sua irmã escreveu?"
Sônia respirou fundo e apertou a alça da bolsa.
"Essa carta não pode ser lida."
Gabriel sentiu o coração disparar.
"Por quê?"
A mulher olhou diretamente para ele.
"Porque sua mãe levou um segredo para o túmulo."
Nesse instante, o advogado de Sônia colocou uma pasta sobre a mesa e retirou uma certidão antiga.
"Excelência, antes de continuar esta audiência, o tribunal precisa saber que Miguel dos Santos não é apenas sobrinho da minha cliente."
Gabriel ficou imóvel.
O advogado virou o documento na direção do juiz.
"Segundo este registro, Sônia Ferreira pode ser a única pessoa com direito legal imediato sobre o menino."
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