"O Mar Não Levou Meu Segredo" Parte 5
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A primeira coisa que senti quando abri os olhos foi o som.
Um som constante.
Um aparelho apitando ao meu lado.
Um ritmo lento e repetitivo que me lembrava que eu ainda estava viva.
Por alguns segundos, eu não sabia onde estava.
Tudo parecia confuso.
A luz branca no teto.
O cheiro de medicamentos.
A sensação pesada no meu corpo.
Então uma lembrança voltou.
O mar.
O vento.
O penhasco.
As mãos dele.
Meu coração acelerou imediatamente.
Eu tentei me levantar, mas uma dor intensa atravessou meu corpo.
"Calma."
Uma voz masculina falou perto de mim.
Eu virei lentamente o rosto.
Era Dr. Lucas Almeida.
Ele estava ao meu lado com uma expressão tranquila.
"Isabela, você está no Hospital Sírio-Libanês."
Eu tentei falar.
Minha garganta estava seca.
"Minha filha..."
O médico sorriu.
"Ela está bem."
Meus olhos começaram a encher de lágrimas.
"Tem certeza?"
Ele confirmou.
"Os exames mostram que Helena resistiu muito bem."
Eu fechei os olhos.
Naquele momento, todo o sofrimento parecia pequeno.
Porque minha filha estava viva.
Ela era a prova de que eu ainda tinha uma razão para lutar.
Mas então outra imagem apareceu na minha mente.
Rafael.
O rosto dele quando me empurrou.
Aquele olhar sem amor.
Sem arrependimento.
Eu comecei a tremer.
Dr. Lucas percebeu.
"Isabela, o que aconteceu naquele penhasco?"
Eu fiquei em silêncio.
Porque dizer em voz alta tornava tudo mais real.
Meu marido tentou me matar.
O homem que dormia ao meu lado.
O homem que beijava minha barriga.
O homem que dizia que eu era tudo para ele.
Eu respirei fundo.
E finalmente disse:
"Ele me empurrou."
O médico ficou em silêncio.
"Quem?"
Eu olhei para ele.
"Rafael."
Do lado de fora do quarto, Teresa Ferreira chorava ao telefone.
Ela tinha passado as últimas horas entre medo e esperança.
Quando ouviu a voz da filha novamente, sentiu como se tivesse recebido uma segunda chance.
"Ela acordou."
A pessoa do outro lado perguntou alguma coisa.
Teresa olhou para a porta do quarto.
"Sim."
Ela limpou as lágrimas.
"Mas ela disse que não foi acidente."
Poucos minutos depois, Delegada Mariana Azevedo chegou ao hospital.
Ela já sabia que a câmera tinha mudado completamente o rumo da investigação.
Mas ainda precisava ouvir Isabela.
Precisava saber exatamente o que aconteceu.
Quando entrou no quarto, viu uma mulher diferente daquela que tinha sido resgatada no mar.
Fisicamente, Isabela ainda estava fraca.
Mas seus olhos tinham mudado.
Havia medo.
Mas também havia força.
Mariana se aproximou.
"Isabela, eu sou a Delegada Mariana Azevedo."
A paciente confirmou com a cabeça.
"Eu sei."
"Eu preciso que você me conte tudo o que lembra."
Isabela respirou lentamente.
Cada palavra parecia doer.
"Foi na trilha do Costão do Bonete."
Ela fechou os olhos por um instante.
"Rafael disse que queria tirar fotos."
Mariana começou a anotar.
"Ele parecia normal?"
Isabela demorou para responder.
"Sim."
Ela engoliu em seco.
"Esse é o pior."
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A delegada olhou para ela.
"Como assim?"
"Ele parecia o homem que eu amava."
O quarto ficou em silêncio.
Isabela continuou:
"Ele segurou minha mão."
"Disse que eu precisava confiar nele."
"Então me pediu para chegar mais perto da borda."
Mariana levantou os olhos.
"E depois?"
Uma lágrima caiu pelo rosto de Isabela.
"Depois ele mudou."
"Foi como se eu estivesse olhando para outra pessoa."
Ela apertou o lençol.
"E ele me empurrou."
Mariana respirou fundo.
"Você tem certeza?"
Isabela olhou diretamente para ela.
Nunca tinha estado tão certa de nada na vida.
"Sim."
"Rafael Montenegro Albuquerque tentou me matar."
Enquanto Isabela contava a verdade, Rafael fazia sua própria atuação.
Na Mansão Montenegro, ele recebeu jornalistas na entrada.
Vestia uma camisa preta.
O rosto estava sério.
A expressão de um marido destruído.
Uma mulher da imprensa perguntou:
"Senhor Rafael, como o senhor está lidando com essa situação?"
Ele abaixou a cabeça.
"É muito difícil."
Ele respirou fundo.
"Minha esposa passou por uma situação terrível."
Outro jornalista perguntou:
"O senhor acredita que foi um acidente?"
Rafael olhou para as câmeras.
"Eu só quero que minha esposa se recupere."
A resposta parecia perfeita.
Humilde.
Emocional.
Mas ninguém sabia que, poucas horas antes, ele estava preocupado apenas com a possibilidade de a gravação ser descoberta.
Dentro da Mansão Montenegro, Helena observava a entrevista pela televisão.
Ela não parecia emocionada.
Ela parecia calculando.
Augusto Montenegro entrou na sala.
O patriarca da família tinha visto as notícias.
Ele estava decepcionado.
"Você ainda vai defender esse garoto?"
Helena desligou a televisão.
"Ele é meu filho."
Augusto ficou parado.
"Ele quase matou uma mulher grávida."
Ela respondeu friamente:
"Nós ainda não sabemos toda a história."
O marido olhou para ela incrédulo.
"Helena, existe um vídeo."
Ela se levantou.
"Existe uma acusação."
Augusto balançou a cabeça.
Pela primeira vez em muitos anos, ele olhava para a esposa como se não a reconhecesse.
"Você está protegendo o sobrenome ou o seu filho?"
Helena não respondeu.
Porque, no fundo, sabia que aquela pergunta era a única que importava.
Naquela tarde, Rafael apareceu no Hospital Sírio-Libanês.
Teresa estava no corredor quando viu o genro chegando.
Seu rosto mudou imediatamente.
Ela sabia.
Ela sentia.
Mas ainda não tinha provas.
Rafael se aproximou lentamente.
"Teresa."
Ela ficou em silêncio.
Ele parecia destruído.
"Eu só quero ver minha esposa."
Teresa deu um passo para trás.
"Você já viu?"
Ele fez uma expressão triste.
"Eu quase perdi ela."
Aquelas palavras fizeram Teresa sentir raiva.
Porque ela sabia que ele estava mentindo.
Mas ainda não podia provar.
Rafael entrou no quarto.
Quando Isabela viu ele, seu corpo inteiro ficou tenso.
O mesmo homem.
A mesma voz.
O mesmo rosto.
Mas agora ela sabia quem ele realmente era.
Ele caminhou até a cama.
Seus olhos ficaram cheios de lágrimas.
"Meu amor..."
Isabela não respondeu.
Rafael segurou sua mão.
"Eu achei que nunca mais ia ouvir sua voz."
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Ela olhou para ele.
Antes, aquele olhar teria feito seu coração se quebrar.
Agora apenas causava medo.
"Eu fiquei desesperado."
Ele beijou a mão dela.
"Eu pensei que tinha perdido vocês duas."
Isabela ficou olhando para ele.
Todos ao redor poderiam acreditar.
A enfermeira.
Os funcionários.
Até pessoas da própria família.
Mas ela não.
Ela tinha visto.
Ela tinha sentido.
Ela sabia.
Aquele homem estava fingindo.
"Rafael."
A voz dela saiu baixa.
Ele levantou os olhos.
"Sim?"
"Por que você fez isso?"
Por um segundo.
A máscara dele quase caiu.
Foi apenas um instante.
Mas Isabela viu.
O sorriso desapareceu.
O olhar endureceu.
Depois ele voltou ao normal.
"Do que você está falando?"
Ela retirou a mão lentamente.
"Eu lembro."
O rosto dele ficou pálido.
"Você estava atrás de mim."
"Você colocou suas mãos nas minhas costas."
O silêncio ficou pesado.
Rafael tentou sorrir.
"Isabela, você está confusa."
Ela olhou para ele.
"Não."
Sua voz ficou mais firme.
"Eu estou viva."
Naquela noite, a polícia recebeu uma nova informação.
Uma mulher havia procurado a Delegacia de Polícia de Ilhabela.
O nome dela era Valentina Ribeiro Sampaio.
Uma socialite conhecida nos círculos de luxo de São Paulo.
Mariana recebeu a notícia.
"Ela quer falar sobre Rafael Montenegro."
A delegada ficou surpresa.
"Quem é essa mulher?"
O policial entregou uma pasta.
"Ela diz que conhece Rafael há três anos."
Mariana abriu o documento.
Fotos.
Mensagens.
Conversas.
Tudo entre Rafael e Valentina.
Ela levantou os olhos.
"Ele tinha uma amante."
O policial confirmou.
"E ela afirma que ele planejava a morte de Isabela muito antes da queda."
Valentina entrou na delegacia usando óculos escuros.
Mas, quando sentou diante de Mariana, seus olhos mostravam medo.
Ela segurava uma bolsa pequena com força.
A delegada perguntou:
"Por que você decidiu falar agora?"
Valentina ficou em silêncio.
Depois tirou um envelope da bolsa.
"Porque eu descobri que ele nunca planejou uma vida comigo."
Mariana abriu o envelope.
Dentro havia documentos.
Conversas.
Comprovantes.
Valentina respirou fundo.
"Rafael não queria apenas se livrar de Isabela."
Ela olhou para a delegada.
"Ele queria controlar tudo."
Mariana ficou séria.
"Tudo o quê?"
Valentina respondeu:
"A fortuna Montenegro."
Ela fez uma pausa.
"E eu tenho provas de que esse plano começou muito antes da lua de mel."
Naquele momento, Mariana percebeu que a queda no Costão do Bonete não era o começo daquela história.
Era apenas o momento em que a mentira finalmente começou a aparecer.
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