"O Mar Não Levou Meu Segredo" Parte 2
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O caminho até o Costão do Bonete parecia mais bonito do que perigoso.
Pelo menos era isso que eu queria acreditar naquele momento.
As árvores antigas de Ilhabela balançavam com a força do vento, enquanto o som das ondas quebrando contra as pedras preenchia todo o espaço ao nosso redor.
Eu caminhava lentamente.
Minha barriga estava pesada.
Cada passo exigia mais cuidado.
Rafael seguia alguns metros à minha frente, segurando sua câmera profissional como se estivesse preparando uma grande obra de arte.
Ele parecia animado.
Parecia o mesmo homem que tinha segurado minha mão no altar três semanas antes.
O mesmo homem que prometeu para minha mãe que cuidaria de mim.
O mesmo homem que dizia todas as noites que nossa filha era o maior presente da vida dele.
Mas alguma coisa dentro de mim estava inquieta.
Era uma sensação difícil de explicar.
Não era medo.
Ainda não.
Era como se meu corpo soubesse algo que minha mente ainda recusava aceitar.
"Você está cansada?"
Rafael parou e olhou para trás.
Eu forcei um sorriso.
"Um pouco."
Ele voltou até mim imediatamente.
Colocou uma mão na minha cintura e outra sobre minha barriga.
"Então vamos devagar."
A voz dele era doce.
Cuidadosa.
Por alguns segundos, eu me senti culpada por desconfiar dele.
Talvez eu estivesse exagerando.
Talvez a gravidez estivesse me deixando mais sensível.
Talvez todas aquelas ligações, documentos e conversas estranhas fossem apenas preocupações de uma futura mãe.
Eu olhei para ele.
"Desculpa."
Ele franziu a testa.
"Desculpa pelo quê?"
"Por estar tão desconfiada ultimamente."
Rafael passou os dedos pelo meu rosto.
"Isabela, você está carregando nossa filha. Eu sei que esse período é cheio de emoções."
Ele sorriu.
"Mas você precisa lembrar de uma coisa."
"O quê?"
"Eu sou seu marido."
Aquelas palavras deveriam me acalmar.
Mas naquele instante, por algum motivo, elas fizeram meu coração apertar.
Depois de quase quarenta minutos andando pela trilha, chegamos ao ponto mais afastado da costa.
O lugar era completamente vazio.
Não havia turistas.
Não havia funcionários da pousada.
Não havia ninguém por perto.
Somente o mar.
As pedras.
E o vento forte vindo do oceano.
Na minha frente, o penhasco descia até as águas escuras.
As ondas batiam violentamente contra as rochas centenas de metros abaixo.
Eu parei imediatamente.
"Rafael..."
Ele virou para mim.
"Sim?"
Eu olhei para a borda.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
"Eu acho que já está bom. A vista daqui já é maravilhosa."
Ele sorriu.
"Mas a foto fica muito melhor lá perto."
Meu coração acelerou.
"Lá perto?"
Ele apontou para uma área próxima ao limite do penhasco.
"Ali."
Eu balancei a cabeça.
"Não sei."
Rafael se aproximou.
Segurou minha mão.
"Amor, eu estou aqui."
O vento puxava meu vestido branco de maternidade.
Eu coloquei a outra mão sobre minha barriga.
Helena se mexeu.
Foi como se minha filha também sentisse alguma coisa.
"Rafael, eu realmente acho perigoso."
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Ele respirou fundo.
Não parecia bravo.
Ainda não.
Ele parecia decepcionado.
"Você não confia em mim?"
Eu fiquei em silêncio.
Porque aquela pergunta me atingiu.
Durante três anos, eu tinha confiado nele mais do que em qualquer pessoa.
Eu abandonei minha antiga vida para construir uma nova ao lado dele.
Eu enfrentei comentários dizendo que eu não pertencia ao mundo dos Montenegro.
Eu ouvi pessoas dizendo que Rafael estava comigo apenas por aparência.
Mas eu sempre defendia meu marido.
Sempre.
"Claro que eu confio."
Ele sorriu novamente.
"Então vem comigo."
Ele segurou minha mão e me guiou alguns passos para frente.
Cada passo parecia mais pesado.
O vento ficava mais forte.
O som do mar parecia mais distante.
Eu olhei para trás.
A trilha parecia muito longe.
Pela primeira vez naquele dia, senti uma vontade enorme de voltar.
Mas Rafael segurava minha mão.
E eu ainda acreditava naquele homem.
Quando chegamos perto da borda, Rafael levantou a câmera.
Ele começou a ajustar o equipamento.
"Fica exatamente onde está."
Eu tentei sorrir.
"Assim?"
"Sim."
Ele olhava através da lente.
"Perfeito."
Eu fiquei parada.
O vento batia no meu rosto.
Minha roupa balançava.
Eu segurava minha barriga tentando proteger Helena.
"Rafael, podemos fazer rápido?"
Ele não respondeu imediatamente.
Continuou olhando pela câmera.
"Mais um pouco para trás."
Eu abri os olhos.
"O quê?"
"Só um passo."
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
"Rafael..."
Ele abaixou a câmera.
"Isabela, por favor."
A voz dele continuava calma.
"Eu quero uma foto bonita da minha esposa."
Eu olhei para o chão.
A poucos centímetros dos meus pés estavam as pedras irregulares próximas ao fim do penhasco.
Uma sensação gelada percorreu meu corpo.
"Eu não gosto disso."
Ele deu um pequeno sorriso.
"Você está com medo sem motivo."
"Eu sinto que está muito perto."
Ele se aproximou.
Segurou meus ombros.
"Olha para mim."
Eu olhei.
Por alguns segundos, vi o homem que eu amava.
O homem do nosso casamento.
O homem que beijava minha barriga todas as noites.
Mas havia alguma coisa diferente nos olhos dele.
Algo que eu não conseguia entender.
"Confia em mim, Isabela."
O vento soprou entre nós.
E aquelas palavras ecoaram dentro da minha cabeça.
Confia em mim.
A mesma frase que ele tinha dito tantas vezes.
No dia do pedido de casamento.
No hospital quando descobrimos a gravidez.
Na noite em que prometeu proteger nossa família.
Eu respirei fundo.
E dei mais um passo.
Rafael levantou novamente a câmera.
O pequeno símbolo vermelho apareceu no visor.
Eu não percebi.
Nenhum de nós percebeu.
O equipamento tinha iniciado uma gravação automática.
A câmera estava conectada ao sistema de armazenamento em nuvem da família Montenegro.
Uma função que Rafael ativou semanas antes para nunca perder suas fotos.
Naquele momento, sem saber, ele estava registrando tudo.
Cada palavra.
Cada movimento.
Cada segundo.
Eu olhei para ele.
"Assim está bom?"
Ele não respondeu.
Apenas observava.
A expressão dele mudou lentamente.
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Primeiro desapareceu o sorriso.
Depois desapareceu a gentileza.
O rosto do homem que eu conhecia começou a desaparecer.
No lugar dele apareceu alguém completamente diferente.
Alguém frio.
Calculista.
Um estranho.
Meu coração começou a bater desesperadamente.
"Rafael?"
Ele continuou parado.
Apenas olhando para mim.
"Você sabe qual foi o maior erro que você cometeu, Isabela?"
Eu senti meu sangue congelar.
"O quê?"
Ele deu um passo na minha direção.
"Você acreditou que amor era suficiente."
Eu não consegui responder.
O vento ficou ainda mais forte.
Eu tentei me afastar.
Mas meus pés estavam próximos demais da borda.
"Rafael, o que você está fazendo?"
Pela primeira vez, ele não respondeu com carinho.
Ele apenas sorriu.
Um sorriso que eu nunca tinha visto antes.
Um sorriso sem amor.
Sem culpa.
Sem medo.
Eu senti uma onda de pânico atravessar meu corpo.
"Rafael..."
Minha voz saiu fraca.
"Por favor."
Ele inclinou a cabeça.
Como se estivesse observando algo interessante.
"Eu sinto muito."
Mas a voz dele não parecia arrependida.
Parecia aliviada.
Eu tentei dar um passo para trás.
Foi quando tudo aconteceu.
As mãos dele tocaram minhas costas.
Por um segundo, meu cérebro não entendeu.
Meu corpo congelou.
Eu olhei para ele.
Procurando alguma explicação.
Algum sinal de que aquilo era um acidente.
Mas não havia.
Nos olhos de Rafael Montenegro Albuquerque não existia amor.
Existia decisão.
Existia certeza.
Existia um plano.
"Rafael..."
Eu ainda consegui dizer o nome dele.
Então senti a força das mãos dele.
E o chão desapareceu.
O mundo ficou em silêncio.
Meu corpo começou a cair.
O céu azul ficou distante.
O rosto dele apareceu acima de mim.
E enquanto eu caía em direção ao mar gelado de Ilhabela, ouvi a última frase do homem que prometeu proteger minha vida.
"Agora ninguém vai descobrir."
E naquele instante, antes de atingir as águas escuras, uma única pergunta passou pela minha cabeça:
Como eu poderia sobreviver a uma queda causada pelo homem que deveria me salvar?
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