"A Dona da Fazenda" Parte 1
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Isabela Maria Vasconcelos nunca imaginou que o dia em que seria obrigada a recomeçar sua vida seria também o dia em que encontraria o caminho para o seu verdadeiro destino.
Aos vinte e oito anos, com seis meses de gravidez, ela estava sentada no chão frio da pequena casa alugada onde tinha vivido durante os últimos três anos, segurando uma pequena blusa de bebê entre as mãos.
Aquela peça de roupa azul-clara ainda tinha cheiro de tecido novo.
Ela havia comprado semanas antes, imaginando o dia em que colocaria aquela roupa no filho que crescia dentro dela.
Mas naquele momento, olhando para as paredes vazias da casa, Isabela sentia que tudo aquilo parecia pertencer a outra mulher.
Uma mulher que ainda acreditava que tinha uma família.
Uma mulher que ainda acreditava nas promessas do marido.
Uma mulher que ainda acreditava que Rafael Henrique Almeida jamais a abandonaria.
A chuva batia forte contra a janela naquela tarde em Campinas, interior de São Paulo, enquanto Isabela tentava entender como sua vida tinha chegado naquele ponto.
Há apenas quinze dias, Rafael havia colocado algumas roupas dentro de uma mala velha e saído pela porta sem olhar para trás.
Ele não brigou.
Não gritou.
Não explicou.
Apenas deixou uma frase que destruiu tudo dentro dela.
"Eu não estou preparado para isso, Isabela. Eu não consigo assumir essa responsabilidade."
Ela ainda lembrava daquele momento.
A mão dela estava sobre a barriga.
O bebê tinha se mexido pela primeira vez naquela semana.
E enquanto o filho deles crescia dentro dela, o homem que deveria protegê-los escolhia fugir.
Isabela passou os primeiros dias acreditando que Rafael voltaria.
Que ele precisava apenas de tempo.
Que quando percebesse o erro, voltaria arrependido.
Mas o telefone permaneceu em silêncio.
As mensagens ficaram sem resposta.
E então veio a pior parte.
As dívidas.
Isabela descobriu que Rafael havia deixado meses de aluguel atrasados, contas de fornecedores e empréstimos feitos em seu nome.
Ela nunca tinha percebido porque confiava nele.
E essa confiança agora era a coisa que mais doía.
Naquela manhã, enquanto ela organizava algumas roupas dentro de uma caixa de papelão, ouviu três batidas fortes na porta.
Quando abriu, encontrou Seu Geraldo, o dono do imóvel, parado no corredor.
O homem segurava alguns papéis nas mãos e evitava olhar diretamente para a barriga dela.
Isabela percebeu imediatamente.
Não era uma visita comum.
"Seu Geraldo, aconteceu alguma coisa?"
O homem respirou fundo antes de responder.
"Isabela, eu sinto muito, mas preciso que você entregue a casa."
Ela ficou alguns segundos sem entender.
"Como assim entregar?"
"O aluguel está atrasado. Rafael deixou uma dívida grande. Eu tentei esperar, mas não consigo mais."
O silêncio que veio depois parecia mais pesado que qualquer palavra.
Isabela segurou a porta com força.
"Eu vou pagar. Eu só preciso de um pouco mais de tempo."
Seu Geraldo abaixou os olhos.
"Eu sei que você é uma boa mulher. Todo mundo aqui sabe. Mas eu também tenho contas. Eu preciso receber."
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Ela sentiu os olhos queimarem.
Mas não chorou.
Desde pequena, sua mãe, Dona Celina Vasconcelos, havia ensinado uma coisa:
Uma mulher podia sentir dor.
Mas nunca deveria deixar a dor decidir por ela.
"Quanto tempo eu tenho?"
Seu Geraldo ficou em silêncio por alguns segundos.
"Até o final do mês."
Quando a porta se fechou, Isabela ficou parada no meio da sala vazia.
Ela colocou uma mão na barriga.
O bebê se mexeu.
Como se lembrasse que ela não estava sozinha.
"Eu prometo que vou encontrar um lugar para nós dois."
Naquela noite, Isabela abriu o velho baú que pertencia à sua mãe.
Dentro dele havia poucas coisas.
Algumas fotografias antigas.
Uma toalha bordada.
E uma pequena caixa de metal onde Dona Celina guardava as economias da família.
Desde criança, Isabela tinha aprendido a guardar um pouco de tudo.
Um pouco de dinheiro.
Um pouco de comida.
Um pouco de esperança.
Durante anos, ela trabalhou fazendo doces para vender, costurando roupas e ajudando pequenos comerciantes de Campinas.
Cada real economizado tinha uma história.
Cada moeda representava uma renúncia.
Ela nunca imaginou que aquele dinheiro seria usado para fugir de uma crise.
Mas talvez fosse exatamente para aquele momento.
No dia seguinte, Isabela caminhou até uma pequena imobiliária no centro da cidade.
Ela precisava encontrar uma casa barata.
Algo simples.
Apenas um lugar onde pudesse criar seu filho.
O corretor, um homem chamado Marcelo, mostrou algumas opções.
Todas eram caras demais.
Até que, quando Isabela já estava saindo, ele olhou novamente para alguns documentos antigos sobre a mesa.
"Na verdade... existe uma propriedade."
Ela parou.
"Uma propriedade?"
Marcelo hesitou.
"Uma fazenda."
Isabela franziu a testa.
"Eu não tenho dinheiro para comprar uma fazenda."
O homem deu um sorriso sem graça.
"Essa é justamente a questão."
Ele puxou uma pasta antiga.
"Fazenda Santa Helena."
O nome parecia carregado de história.
"Fica nos arredores de Campinas. A propriedade está abandonada há anos."
"Por que ninguém compra?"
Marcelo ficou alguns segundos em silêncio.
Depois respondeu:
"Porque ninguém quer morar lá."
Isabela sentiu um arrepio.
"Por quê?"
O corretor olhou para a janela antes de falar.
"Porque dizem que o antigo dono morreu sozinho naquela casa. Depois disso, a família deixou tudo abandonado."
"Mas isso é apenas uma história, não é?"
Marcelo deu de ombros.
"No interior, algumas histórias ficam maiores que a verdade."
Ele empurrou a pasta para ela.
"O preço está muito abaixo do mercado."
Isabela abriu os documentos.
O valor era baixo.
Baixo o suficiente para que suas economias quase cobrissem.
Ela passou os dedos pela folha.
Uma fazenda.
Um lugar próprio.
Um pedaço de terra onde ninguém poderia expulsá-la.
Pela primeira vez em semanas, ela sentiu algo diferente.
Não era felicidade.
Ainda não.
Era uma pequena esperança.
Dois dias depois, Isabela pegou um ônibus velho e seguiu até a Fazenda Santa Helena.
Durante o caminho, observava pela janela as estradas de terra, os campos e as árvores espalhadas pelo interior paulista.
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Ela pensava em sua mãe.
Pensava no bebê.
Pensava na vida que precisaria construir.
Quando finalmente chegou, entendeu por que ninguém queria aquele lugar.
A fazenda parecia esquecida pelo tempo.
O portão de madeira estava torto.
As paredes da casa estavam desgastadas.
O mato tomava conta do quintal.
As janelas não tinham vidro.
O silêncio daquele lugar parecia profundo demais.
O corretor que a acompanhava percebeu sua expressão.
"Eu avisei que não era uma casa comum."
Isabela olhou para a propriedade.
Mesmo velha.
Mesmo abandonada.
Ela enxergava algo que ele não enxergava.
Possibilidade.
"Eu quero comprar."
Marcelo arregalou os olhos.
"Tem certeza?"
Ela colocou a mão sobre a barriga.
"Tenho."
Naquele mesmo dia, Isabela assinou os documentos.
Pela primeira vez em sua vida, algo estava oficialmente em seu nome.
Não era uma casa alugada.
Não era algo emprestado.
Era dela.
A Fazenda Santa Helena era dela.
Naquela noite, carregando apenas uma mala pequena, algumas roupas e os documentos da propriedade, Isabela entrou na casa vazia.
O chão rangia.
O vento passava pelas frestas das paredes.
Mas, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu paz.
Ela colocou uma manta no chão da sala e preparou um pequeno espaço para dormir.
Antes de apagar a vela, olhou para a barriga.
"Meu filho, talvez ninguém acredite nesse lugar. Mas eu acredito."
O bebê se mexeu.
E Isabela sorriu pela primeira vez em muitos dias.
Nos primeiros dias, ela começou a limpar a fazenda.
Cada canto revelava anos de abandono.
Ela varria a poeira.
Arrumava móveis antigos.
Tentava transformar aquela ruína em um lar.
Mas havia algo estranho.
Desde o primeiro dia, uma tábua do chão da cozinha chamava sua atenção.
Toda vez que passava por cima, ouvia um som diferente.
Como se existisse algo escondido embaixo.
Naquela tarde, depois de horas limpando, Isabela se ajoelhou lentamente.
Com uma mão segurando a barriga e a outra tocando a madeira antiga, ela puxou a tábua solta.
A madeira se levantou com facilidade.
E então ela viu.
Um pequeno baú de metal enferrujado estava escondido dentro do chão.
Isabela ficou imóvel.
O coração começou a bater mais rápido.
Ela puxou o objeto para fora.
O baú era antigo.
Muito antigo.
Com cuidado, colocou sobre a mesa da cozinha.
Suas mãos tremiam enquanto retirava o velho arame que prendia a tampa.
Quando finalmente abriu...
Ela esperava encontrar dinheiro.
Joias.
Algum tipo de tesouro.
Mas o que encontrou fez seu coração parar por alguns segundos.
Dentro do baú havia apenas uma carta antiga.
Uma carta dobrada cuidadosamente.
Na parte de cima, havia uma frase escrita à mão:
"Se você encontrou esta carta, significa que a verdadeira pessoa destinada a esta terra finalmente chegou."
Isabela segurou o papel com as duas mãos.
E naquele instante, sem saber ainda que sua vida estava prestes a mudar para sempre, ela percebeu que a Fazenda Santa Helena escondia um segredo que ninguém queria que fosse descoberto.
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