"O JOGO DA HERDEIRA: O PREÇO DA HUMILHAÇÃO" PARTE 9
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O laboratório interno do Grupo Vasconcelos não estava localizado dentro do colégio Saint Aurora. Ele ficava abaixo da estrutura principal, em um nível que não aparecia em nenhum mapa oficial da instituição.
O acesso era restrito, controlado por múltiplas camadas de autenticação que agora estavam sendo desbloqueadas automaticamente pelo sistema central.
Isabela entrou no espaço acompanhada por Ricardo Saldanha e Augusto Menezes. O ambiente era branco, frio e silencioso, iluminado por luzes cirúrgicas que não combinavam com o conceito de uma escola.
Ali não havia janelas. Apenas telas. Bancadas. E um grande núcleo central de processamento de dados biológicos.
Valentina foi trazida pouco depois, escoltada por dois agentes do conselho. O rosto dela já não carregava mais qualquer traço de arrogância. Era apenas confusão acumulada, instável, como alguém que já não conseguia mais organizar os próprios pensamentos.
“Isso é ilegal…” ela disse baixo, olhando ao redor. “Isso não pode estar acontecendo dentro de uma escola…”
Ninguém respondeu.
Augusto Menezes estava ao lado do painel central, digitando comandos com precisão.
“O protocolo de validação genética está sendo iniciado,” ele disse calmamente.
Valentina virou o rosto rapidamente.
“Validação genética?” ela repetiu. “Do quê exatamente?”
Ricardo não olhou para ela ao responder.
“Da linha de herança.”
Isabela permaneceu em silêncio.
Mas seus olhos acompanharam cada movimento do sistema.
Na tela central, duas sequências de dados começaram a aparecer simultaneamente.
ISABELA MONTEIRO VASCONCELOS — REGISTRO A
ISABELA MONTEIRO VASCONCELOS — REGISTRO B
Valentina congelou ao ver aquilo.
“Dois registros?” ela disse, quase sem voz.
Bruna, que havia sido trazida como testemunha, deu um passo para trás.
“Isso não faz sentido…” ela murmurou. “Ela não pode ser duas pessoas…”
Augusto não respondeu imediatamente. Em vez disso, ativou o módulo de leitura genética.
“Coleta de material concluída,” ele disse. “Iniciando comparação de compatibilidade com matriz original do Grupo Vasconcelos.”
Isabela finalmente falou.
“Qual matriz original?”
Ricardo hesitou por um instante.
“A sequência fundadora.”
Valentina riu nervosamente.
“Sequência fundadora?” ela repetiu. “Vocês estão falando como se ela fosse… fabricada?”
O silêncio que seguiu foi suficiente para responder sem palavras.
As máquinas começaram a operar.
Um som leve, contínuo, como pulsação eletrônica, tomou o ambiente.
Na tela, os dados começaram a se mover.
Comparação de DNA em andamento.
98% compatibilidade — REGISTRO A
97.8% compatibilidade — REGISTRO B
Valentina arregalou os olhos.
“Isso não pode ser real…” ela disse. “São praticamente iguais…”
Ricardo se aproximou da tela.
“Isso é impossível biologicamente,” ele murmurou. “Dois registros ativos com diferença tão pequena…”
Isabela permaneceu imóvel.
Mas algo na sua expressão mudou levemente.
Não era medo.
Era reconhecimento incompleto.
Augusto então falou com mais firmeza.
“Continuem o protocolo completo.”
O sistema respondeu automaticamente.
“INICIANDO VARREDURA DE ORIGEM HISTÓRICA.”
As luzes da sala mudaram.
E então as imagens começaram a surgir.
Uma criança.
Depois outra.
Ambas com o mesmo rosto.
Mas em ambientes diferentes.
Uma em uma comunidade simples da zona leste.
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Outra em um centro institucional controlado.
Valentina levou a mão à boca.
“Isso é montagem…” ela disse. “Isso é manipulação de sistema…”
Ricardo olhou para ela.
“Não é montagem,” ele respondeu.
Isabela deu um passo à frente.
“Pare,” ela disse pela primeira vez com firmeza.
O sistema ignorou.
Mais imagens surgiram.
Relatórios médicos.
Transferências institucionais.
Registros apagados e regravados.
E então o sistema fez algo que não deveria acontecer.
Ele travou.
Por três segundos.
E reiniciou.
Quando voltou, havia uma nova linha no painel central.
“IDENTIDADE DUPLICADA CONFIRMADA.”
O silêncio na sala não era mais de observação.
Era de ruptura.
Valentina começou a recuar lentamente.
“Não…” ela disse. “Não, não, não…”
Bruna segurou o braço dela.
“Valentina… olha isso…”
Mas Valentina não queria olhar.
Porque na tela, algo novo havia aparecido.
UM SEGUNDO ARQUIVO DE ISABELA FOI DESBLOQUEADO
Ricardo franziu a testa imediatamente.
“Isso não deveria existir no sistema ativo…” ele disse.
Augusto se aproximou.
“Mas está aqui,” ele respondeu.
Isabela ficou completamente imóvel.
E então o segundo arquivo foi aberto.
IMAGEM AO VIVO — ORIGEM DESCONHECIDA
Uma câmera começou a transmitir.
Mas não era da sala.
Nem do colégio.
Nem do laboratório.
Era outro ambiente.
Mais antigo.
Mais simples.
E dentro dele, uma menina estava sentada.
O mesmo rosto de Isabela.
Mas com uma expressão diferente.
Mais viva.
Mais instável.
Mais humana.
Valentina soltou o ar como se tivesse sido golpeada.
“Isso é ela…” ela disse. “Mas não é ela…”
Ricardo deu um passo para trás.
“Dois sinais ativos simultâneos…” ele murmurou.
Augusto olhou para Isabela.
“Senhorita,” ele disse, “isso não é um erro de sistema.”
Isabela finalmente virou o rosto lentamente.
“Então o que é?”
Augusto hesitou.
E respondeu:
“É uma separação de origem não concluída.”
O sistema então exibiu uma nova linha em vermelho:
“PROCESSO DE DIVISÃO DE IDENTIDADE INTERROMPIDO — FASE FINAL NÃO REGISTRADA.”
Valentina começou a rir, mas agora era uma risada quebrada.
“Divisão?” ela repetiu. “Vocês estão falando de gente como se fosse experimento!”
Ricardo não respondeu.
Porque naquele instante, ele percebeu algo.
A câmera ao vivo havia mudado de ângulo.
E a segunda Isabela agora estava olhando diretamente para a lente.
Como se soubesse que estava sendo observada.
E então ela disse algo.
Mas o áudio não veio limpo.
Veio distorcido.
Mesmo assim, uma frase foi compreendida.
“Ela não deveria ter acordado antes de mim.”
Isabela deu um passo para trás.
Pela primeira vez desde o início de tudo.
E o sistema inteiro entrou em alerta máximo.
“CONFLITO ENTRE ORIGEM A E ORIGEM B — RISCO DE COLAPSO DE IDENTIDADE TOTAL.”
Ricardo olhou para Augusto.
“Qual delas é a original?” ele perguntou.
Augusto não respondeu.
Porque no painel central, a resposta já estava aparecendo sozinha.
“INDEFINIDO.”
E nesse instante, todas as telas apagaram ao mesmo tempo.
E quando voltaram…
As duas Isabela estavam sendo exibidas simultaneamente no mesmo sistema.
Uma dentro da sala.
E outra olhando de volta através da transmissão.
E ambas disseram a mesma coisa ao mesmo tempo, sem sincronização possível:
“Quem você acha que eu sou?”
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