"O Cão que Sabia Demais" PARTE 8
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O hospital entrou em modo de bloqueio parcial após o evento do protocolo “THOR”.
Portas automáticas foram seladas por camadas de segurança que ninguém da equipe técnica conseguia mais reverter.
Isabela Monteiro Vasconcelos estava sentada no chão da sala administrativa, ainda tentando respirar normalmente.
Mas agora o ar parecia diferente.
Mais pesado.
Como se o próprio ambiente tivesse mudado depois do que ela viu.
Rafael Almeida Duarte estava em silêncio absoluto.
Ele não olhava mais para os sistemas.
Olhava para Isabela.
Como se estivesse tentando decidir se deveria continuar dizendo a verdade.
“Tem mais coisa”, ela disse finalmente.
A voz dela estava baixa, mas firme.
“Eu preciso saber tudo.”
Rafael hesitou.
“Isso não é só sobre o Thor.”
Isabela levantou o olhar imediatamente.
“Então é sobre o quê?”
Ele respirou fundo.
“Sobre você.”
O silêncio dentro da sala mudou de forma.
Não era mais técnico.
Era emocional.
Rafael abriu um arquivo antigo no sistema secundário, usando um terminal isolado que não havia sido bloqueado ainda.
A tela demorou alguns segundos para carregar.
E então apareceu:
“ARQUIVO RESTRITO – CAMPINAS / PROJETO MÃE ZERO”
Isabela franziu a testa.
“Campinas?”
Rafael não respondeu.
Ele apenas abriu o conteúdo.
A primeira imagem apareceu.
Era uma sala branca.
Muito branca.
Demasiado limpa para ser um hospital comum.
E no centro dela…
uma criança.
Isabela congelou.
“Essa sou eu…”
Mas algo estava errado.
A imagem não parecia uma foto comum.
Era um registro clínico.
“Paciente feminina – 6 anos – código I-07”
Isabela sentiu o corpo travar.
“Isso não é possível…”
Rafael virou a tela para ela.
“Reconhece o lugar?”
Ela ficou em silêncio.
Mas os olhos começaram a mudar.
Algo estava despertando.
A imagem seguinte apareceu.
Thor.
Mas não como agora.
Mais jovem.
Dentro de uma estrutura de vidro.
Conectado a sensores.
Isabela levantou rapidamente.
“Thor…”
Rafael assentiu lentamente.
“Ele estava lá também.”
Isabela deu um passo para trás.
“Não… isso não faz sentido…”
A tela continuou passando imagens automaticamente.
Crianças em cápsulas de observação.
Animais conectados a sistemas neurológicos.
Médicos com crachás sem nome.
E uma palavra repetida em todos os documentos:
“INTEGRAÇÃO COMPORTAMENTAL”
Isabela começou a tremer.
“O que é isso?”
Rafael respondeu baixo.
“Experimentos de adaptação cognitiva.”
Ela virou imediatamente.
“Em crianças?”
Ele não respondeu de imediato.
Esse silêncio foi suficiente.
Isabela começou a andar de um lado para o outro.
“Isso é mentira… isso não pode ser real…”
Rafael fechou outro arquivo.
E abriu o último nível de acesso.
“REGISTRO DE ORIGEM – SUJEITO I-07”
A tela mudou.
Agora era um vídeo.
Uma sala de observação.
Vidros espelhados.
E dentro dela…
Isabela criança.
Mas ela não estava sozinha.
Thor estava ali.
Do outro lado da sala.
Também jovem.
Também sob observação.
Isabela caiu lentamente de volta na cadeira.
“Eles… estavam juntos?”
Rafael assentiu.
“Desde o início.”
A gravação mostrava médicos conversando.
Fora do campo de visão das crianças.
“Compatibilidade emocional entre sujeito humano e canino: 98%”
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“Fase de vínculo completada.”
Isabela sentiu uma pressão no peito.
“Que vínculo?”
Rafael respondeu.
“Eles estavam testando conexão comportamental assistida.”
Ela olhou para ele.
“Isso quer dizer o quê?”
Ele hesitou.
E então disse:
“Eles tentaram criar respostas emocionais sincronizadas entre você e ele.”
Isabela ficou em silêncio absoluto.
O vídeo continuou.
Thor se aproximava da criança.
E ela reagia sem medo.
Sem hesitação.
Como se já o conhecesse.
“Isso não é normal…”, Isabela sussurrou.
Rafael respondeu:
“Não era para ser.”
A tela mudou novamente.
“PROTOCOLO DE RECONFIGURAÇÃO DE IDENTIDADE”
Isabela levantou rapidamente.
“Reconfiguração?”
Rafael tentou parar o sistema.
Mas o arquivo já estava rodando sozinho.
O vídeo mostrava a criança sendo retirada da sala.
Chorando.
Chamando por alguém.
Mas nenhuma voz respondia.
“Procedimento de separação iniciado.”
Isabela começou a chorar silenciosamente.
“Eles tiraram tudo…”
Rafael olhou para ela.
“Não só tiraram.”
Ele hesitou.
“Eles reescreveram.”
A gravação avançou.
A criança sendo colocada em uma maca.
Sensores sendo removidos.
E um médico falando:
“Memória base será substituída por narrativa social compatível.”
Isabela gritou:
“Parem isso!”
Mas era apenas um arquivo.
Não podia parar.
A tela então mostrou algo ainda mais perturbador.
Um relatório final.
“SUJEITO I-07 – REINSERÇÃO CONCLUÍDA”
“IDENTIDADE SOCIAL ATIVA”
“MEMÓRIA ORIGINAL BLOQUEADA”
Isabela caiu de joelhos novamente.
“Então minha vida inteira…”
Ela não conseguiu terminar.
Rafael se aproximou.
“Não é só sua vida.”
Ele respirou fundo.
“É tudo que você acredita sobre ela.”
O sistema então abriu uma última aba automaticamente.
“PROTOCOLO THOR – ORIGEM DO VÍNCULO”
Isabela levantou o rosto lentamente.
“Thor não é só um cachorro…”
Rafael respondeu baixo.
“Não.”
Ele hesitou.
“Ele foi parte do experimento desde o começo.”
O sistema começou a exibir dados em sequência.
“Unidade emocional primária.”
“Suporte de estabilização cognitiva.”
“Dispositivo de ancoragem afetiva.”
Isabela ficou em choque.
“Dispositivo?”
Rafael não respondeu.
Mas a tela respondeu por ele.
“THOR – DESIGNADO PARA PROTEGER SUJEITO I-07”
Silêncio.
E então Isabela entendeu algo ainda pior.
“Ele não me conheceu por acaso…”
Rafael assentiu lentamente.
“Ele foi criado para isso.”
Isabela começou a chorar de novo.
“E eu?”
Rafael hesitou.
Mas a tela respondeu antes dele.
Uma última linha apareceu.
“SUJEITO I-07 NÃO PERTENCE AO BANCO DE ADOÇÃO HUMANA”
Isabela congelou.
“O que isso significa?”
Rafael não respondeu.
Porque o sistema já estava mudando sozinho novamente.
E uma nova notificação surgiu no centro da tela:
“RECONEXÃO DE ORIGEM INICIADA”
A luz da sala piscou.
E todas as portas do hospital voltaram a se trancar automaticamente.
Como se algo tivesse sido reativado.
Isabela olhou para a tela pela última vez.
E viu algo que nunca tinha aparecido antes.
Um vídeo ao vivo.
Ela criança.
E alguém entrando na sala.
Patrícia Albuquerque Vasconcelos.
Sorrindo.
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