"O Cão que Sabia Demais" PARTE 3
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O terreno baldio atrás do Hospital São Bento estava coberto por lama e entulho. A chuva da madrugada tinha deixado o chão pesado, quase impossível de caminhar.
Isabela Monteiro Vasconcelos segurava Thor nos braços enquanto o seguia lentamente, sem entender para onde ele estava indo.
O cachorro não estava mais em desespero. Não estava mais tentando fugir da dor. Ele apenas caminhava com uma estranha determinação, como se cada passo fosse guiado por algo que ninguém mais conseguia ver.
“Thor, para onde você está me levando?”, Isabela perguntou, com a voz baixa e cansada.
Ele não respondeu, apenas continuou andando.
Rafael Almeida Duarte e dois seguranças seguiam à distância. O sistema interno do hospital ainda mostrava alertas estranhos, mas ninguém conseguia explicar o que estava acontecendo.
“O animal não deveria estar fora da contenção”, disse um dos seguranças.
Rafael não respondeu imediatamente. Ele observava Thor com atenção incomum.
“Ele não está desorientado”, Rafael disse por fim. “Ele está procurando algo.”
Thor parou de repente.
Diante de um ponto específico do terreno.
Ele começou a cavar.
Com as patas feridas, com dificuldade, mas sem hesitar.
Isabela se aproximou.
“O que você está fazendo?”, ela sussurrou.
O cachorro não parou.
Ele cavava cada vez mais rápido.
O segurança deu um passo à frente.
“Isso é absurdo. É só um cachorro em choque.”
Mas Rafael levantou a mão.
“Espere.”
Thor soltou um som baixo, quase um gemido, e continuou cavando.
A lama começou a ceder.
Algo escuro apareceu sob o solo.
Isabela congelou.
“Tem alguma coisa ali”, ela disse, tremendo.
O primeiro objeto surgiu.
Um tecido.
Depois um pedaço de uniforme.
E então… uma mão.
Isabela deu um passo para trás, cobrindo a boca.
“Não…”
O segurança recuou imediatamente.
“Chamem a polícia agora.”
Rafael se aproximou lentamente, analisando a cena.
O corpo estava parcialmente enterrado, como se tivesse sido colocado ali recentemente.
Thor parou de cavar.
E apenas ficou olhando.
Isabela caiu de joelhos.
“Ele sabia… ele sabia desde o começo…”
A voz dela se quebrou.
Thor encostou a cabeça nela por um segundo, como se estivesse tentando acalmá-la.
A sirene da polícia não demorou a chegar.
O sargento Caetano desceu da viatura com expressão fechada.
“Quem encontrou isso?”, ele perguntou.
Rafael respondeu sem hesitar.
“O cachorro.”
O policial riu de forma seca.
“Claro. Agora vamos confiar em animal como perito criminal.”
Isabela levantou o rosto imediatamente.
“Ele não é um animal qualquer! Ele me salvou ontem!”
O policial olhou para ela com impaciência.
“Senhora, isso não muda o fato de que estamos diante de um corpo em área pública.”
Thor deu um passo à frente.
E olhou diretamente para o buraco.
Depois olhou para o policial.
E ficou imóvel.
Um dos peritos começou a examinar o local.
“Hora aproximada da morte… entre 24 e 36 horas.”
Isabela sentiu um frio no estômago.
“Isso é impossível… isso foi antes do incêndio…”
Rafael franziu a testa.
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“Então ele já estava morto quando o fogo começou.”
O policial interrompeu.
“Ou isso é coincidência. Não vamos construir teoria em cima de instinto animal.”
Thor soltou um som baixo.
Mas não era agressivo.
Era insistente.
Como se estivesse tentando dizer algo.
Isabela se virou para ele.
“Thor… o que você está tentando me mostrar?”
O cachorro caminhou lentamente até o corpo.
E ficou parado.
Rafael observou com mais atenção.
“Ele não está apenas reagindo ao cheiro.”
Ele fez uma pausa.
“Ele está reconhecendo.”
O perito abriu uma bolsa preta e retirou documentos parcialmente destruídos.
“Identidade comprometida…”
Ele hesitou.
“Mas parece ser funcionário do hospital.”
O silêncio ficou pesado.
Isabela levantou a cabeça.
“O hospital?”
Rafael não respondeu imediatamente.
Mas sua expressão mudou.
Algo interno.
Algo que ele não queria demonstrar.
O policial pegou os documentos.
“Isso muda tudo.”
Thor começou a latir pela primeira vez desde o resgate.
Não era um latido de alerta.
Era um latido curto.
Quase urgente.
Isabela se aproximou dele.
“O que foi?”
Thor começou a puxar o chão novamente, mas desta vez não para cavar.
Para indicar direção.
Ele virou o corpo.
E começou a andar para o lado oposto do terreno.
“Ele quer levar a gente para outro lugar”, disse Rafael.
O policial hesitou.
“Isso já está indo longe demais.”
Mas Thor já estava andando.
E todos, sem entender por quê, começaram a segui-lo.
Eles atravessaram o terreno até um antigo depósito abandonado atrás do hospital.
A porta estava semiaberta.
Thor parou diante dela.
E ficou imóvel.
Isabela olhou para Rafael.
“Ele quer entrar?”
Rafael assentiu lentamente.
“Parece que sim.”
O policial puxou a lanterna.
“Se isso for perda de tempo, vocês vão responder por isso.”
Thor entrou primeiro.
Sem hesitar.
O interior estava escuro, cheio de equipamentos antigos e caixas lacradas.
O cheiro era forte.
Químico.
Isabela cobriu o nariz.
“O que é esse lugar?”
Rafael olhou ao redor.
“Depósito de descarte hospitalar antigo.”
Thor caminhou até o fundo.
E parou diante de uma parede metálica.
Ele começou a arranhar.
Mais forte do que antes.
“Tem algo atrás disso”, disse Isabela.
Rafael se aproximou da parede.
E tocou a superfície.
“Isso não é uma parede comum.”
O policial iluminou a área.
E encontrou uma placa parcialmente apagada.
“PROTOCOLO … THOR”
Ele franziu a testa.
“Isso aqui não faz sentido.”
Thor começou a latir novamente.
Mais forte.
Mais urgente.
Rafael deu um passo para trás.
“Esse nome… já apareceu no sistema do hospital.”
Isabela sentiu o corpo gelar.
“Então ele não é só um cachorro…”
Antes que alguém pudesse responder, a parede metálica fez um som.
Um clique interno.
Como se algo tivesse sido ativado.
E então uma pequena luz vermelha acendeu.
O sistema do hospital inteiro, mesmo à distância, começou a emitir alertas.
“ACESSO NÃO AUTORIZADO AO PROTOCOLO THOR”
Rafael ficou imóvel.
“Isso não deveria existir.”
Isabela olhou para Thor.
“Quem é você… de verdade?”
O cachorro encostou a cabeça na parede.
E ficou completamente parado.
Como se estivesse esperando algo abrir.
E então, do outro lado da parede, um som fraco foi ouvido.
Um batimento.
Muito leve.
Quase impossível de ouvir.
Isabela deu um passo para trás.
“Tem alguém aí dentro…”
Rafael olhou para o painel lateral.
E viu algo que fez sua expressão mudar completamente.
“Esse registro…”
Ele engoliu seco.
“Está vivo.”
Thor fechou os olhos.
Como se finalmente tivesse encontrado o que estava procurando.
E naquele momento, todas as telas conectadas ao sistema do hospital apagaram ao mesmo tempo.
E uma única linha apareceu antes do apagão total:
“PACIENTE ORIGINAL DETECTADO”
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