"O Pacto do Esquecimento" Capítulo 10
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Capítulo 10: O Abismo do Esquecimento
A mansão Waldemar agora parecia um mausoléu de sonhos interrompidos, onde o silêncio era interrompido apenas pelo arrastar dos pés de Elena pelo assoalho de madeira carcomida.
Silas, privado de sua visão e de sua autoridade, tornara-se uma sombra esquálida, dependente da presença dela para cada batida de seu coração debilitado.
Ela movia-se pelo quarto com a precisão mecânica de uma enfermeira fria, ignorando as súplicas mudas que ele tentava articular com lábios secos.
Para Elena, cada gesto de cuidado era uma forma de punição, uma maneira de forçá-lo a sentir o peso de sua própria dependência.
"Você me deixou aqui sozinho por horas," Silas murmurou, a voz rouca lutando para encontrar um tom que não parecesse uma confissão de derrota.
"Eu podia ouvir os ratos nas paredes, Elena, eu podia ouvir a mansão apodrecendo."
Elena parou diante de uma bandeja de prata, seu reflexo distorcido pela superfície metálica. "A mansão não está apodrecendo, Silas, ela está apenas voltando ao pó, exatamente como você," ela respondeu, sua voz desprovida de qualquer inflexão emocional.
Ele tateou a coberta, seus dedos ágeis, outrora capazes de tecer feitiços complexos, agora movendo-se com o tremor de quem temia o vazio.
"Não me abandone na escuridão, eu preciso que você me descreva as coisas, eu preciso saber que o mundo ainda existe."
Ela se aproximou dele com uma bacia de água morna, mergulhando um pano e começando a limpar as mãos de Silas com gestos rudes.
O Pacto exigia um pagamento constante, uma energia que agora era drenada da própria consciência de Elena para sustentar a vitalidade decadente do mestre.
"O mundo existe, mas ele não tem mais lugar para você," ela comentou, observando como a pele dele parecia mais fina a cada dia, quase translúcida. "Você é apenas um contrato vencido aguardando a execução final."
Enquanto ela realizava o ritual de limpeza, sentiu a familiar fisgada na nuca, o sinal de que o Pacto estava cobrando o tributo atrasado.
Foi uma sensação de dissolução, como se uma gota de tinta preta tivesse caído em um copo de água cristalina, turvando a percepção que ela tinha de si mesma.
Ela tentou visualizar sua infância, o rosto da mãe, o nome que sempre lhe servira de âncora em meio à tempestade de sua nova vida.
No entanto, tudo o que encontrou foi um campo cinzento, um vazio vasto e gélido que engoliu a última sílaba de sua identidade.
"Como é o meu nome?", ela perguntou, o pânico escondido sob uma camada de dissociação absoluta. "Silas, diga-me como eu me chamo."
Ele sorriu, um gesto torto e desesperado que iluminou o rosto por um breve segundo, como um relâmpago em uma noite de tormenta.
"Você é minha, Elena, você é a minha criação e isso é tudo o que você precisa saber."
Ela se afastou abruptamente, correndo até o espelho de moldura dourada no canto do quarto, esperando encontrar a face que conhecia.
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A garota que a encarava de volta tinha os mesmos olhos, mas a expressão era de alguém que não possuía passado, nem futuro.
"Não sou eu," ela murmurou, tocando o vidro frio com a ponta dos dedos trêmulos. "Essa garota que está me olhando não pertence a lugar nenhum."
A obsessão de Silas tornou-se palpável no ar estagnado do quarto, uma presença asfixiante que tentava moldá-la novamente. Ele sabia que ela estava perdendo a si mesma, e, em sua mente doentia, isso era a forma suprema de conquista.
"O nosso 'nós' é mais forte que o seu 'eu'," Silas declamou, a voz ganhando uma força artificial e perturbadora. "Se você não tem mais um nome, eu lhe darei um novo todas as manhãs."
Elena ignorou as palavras dele, seus olhos vagando pela penteadeira de mogno até pousarem em uma caixa de música antiga, revestida em marfim.
Ela a abriu lentamente, e o mecanismo enferrujado começou a entoar uma melodia trêmula e melancólica, uma canção que parecia emergir das profundezas de sua alma esquecida.
A música preencheu o quarto, e por um instante, a dor da perda de sua identidade foi substituída por uma nostalgia insuportável por algo que ela nunca teve. Ela sentiu lágrimas escorrerem por seu rosto, mas não sabia o nome da tristeza que as provocava.
"Essa melodia," Silas sussurrou, a mão tateando o ar na direção da caixa, "ela foi o primeiro som que você ouviu quando eu lhe dei a vida dentro deste pacto."
Elena fechou a caixa de música bruscamente, o silêncio que se seguiu sendo mais ensurdecedor do que o choro dos fantasmas da mansão. Ela olhou para Silas, que agora parecia menor, mais frágil e desesperadamente dependente de sua presença.
A piedade que ela sentia transformou-se em uma estranha forma de desdém por ambos, pelo mestre que perdera seu reino e pela escrava que perdera sua própria essência.
Ela era um recipiente vazio que Silas enchia com seus desejos distorcidos, um espelho que não tinha mais o que refletir.
"Você não me deixou nada," ela disse, caminhando de volta para a cama dele com os ombros pesados pelo vazio que a consumia.
"Eu sou um abismo, Silas, e você é apenas o último habitante que ainda insiste em morar aqui."
Ele alcançou o braço dela, seus dedos cravando-se na pele como se quisesse extrair dela a memória da última vez que ela fora livre. Elena não ofereceu resistência; ela não sentia mais a necessidade de lutar, pois não restava nada a ser defendido.
"Quem sou eu para você?", ela perguntou, a voz despida de qualquer expectativa, olhando nos olhos cegos dele como se esperasse que ele pudesse conjurar uma resposta capaz de devolver-lhe o mundo.
Silas não respondeu imediatamente, sua respiração soando como um aviso de que o fim estava próximo.
"Você é o único motivo de eu ainda conseguir suportar o peso da minha própria existência," ele confessou.
Aquela declaração, que em outro tempo poderia ter sido considerada romântica, agora soava como a sentença de morte para ambos. Eles eram dois náufragos em um oceano de esquecimento, agarrados a um pacto que destruíra tudo o que eles tinham a oferecer.
Elena sentou-se na borda da cama, sua mão repousando sobre a dele, um gesto mecânico e desprovido de qualquer calor.
Ela olhou para o nada, esperando pelo momento em que a última lembrança seria apagada e ela se tornaria, finalmente, o que ele sempre quisera.
O abismo a chamava, e ela estava começando a aceitar o convite com uma indiferença que a assustava. Se ela não era ninguém, então nada do que Silas fizesse poderia realmente feri-la.
"Eu não sou ninguém," ela murmurou para si mesma, uma verdade que finalmente encontrou morada em seu peito vazio. "Eu não sou ninguém, e você é apenas a escuridão que me cerca."
Silas apertou a mão dela uma última vez antes de sua cabeça tombar para o lado, o cansaço vencendo a batalha contra sua obsessão.
O quarto estava silencioso, e Elena permaneceu ali, vigiando um mestre que já não podia comandar e uma prisioneira que já não podia se libertar.
O relógio da mansão parou, e com ele, o tempo pareceu congelar naquele momento de vazio absoluto. Ela não sabia mais quem era, mas sabia que, quando a luz voltasse a amanhecer, a garota no espelho estaria ainda mais distante.
A melodia da caixa de música parecia ecoar em sua mente, um lembrete persistente de que, embora ela tivesse perdido o nome, o seu sofrimento ainda carregava uma melodia própria.
Ela permaneceu ali, vigiando a morte lenta do único homem que conhecera, enquanto o esquecimento finalmente reinava sobre a mansão Waldemar.
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