"O Pacto do Esquecimento" Capítulo 9
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Capítulo 9: A Cegueira da Verdade
A mansão Waldemar começou a gemer, um lamento profundo que vinha das fundações de pedra, como se a própria estrutura estivesse se desfazendo em resposta ao confronto no escritório.
Silas, o homem que sempre controlara cada sombra e cada sussurro, agora cambaleava, com as mãos tateando o ar à procura de uma estabilidade que o mundo não lhe oferecia mais.
O feitiço que ele usara para reconstruir Elena estava se voltando contra seu autor, um refluxo de energia proibida que atacava seus sentidos.
A escuridão, antes sua aliada, agora avançava sobre seus olhos com a voracidade de um predador, extinguindo a luz do mundo.
"Eu não consigo ver," Silas sussurrou, a voz desprovida de qualquer autoridade, carregada apenas de um pânico primal. "Elena, o que você fez com a luz?"
Elena permanecia parada na soleira da porta, observando a ruína daquele que fora seu mundo. Ela não sentia a fúria ardente de minutos atrás, mas uma estranha e fria piedade, uma sensação tóxica que a mantinha paralisada enquanto ele se perdia.
"Eu não fiz nada, Silas," ela respondeu, a voz equilibrada entre a dor e o escárnio. "Apenas parei de ser o espelho que refletia a sua mentira."
Das sombras do corredor, Bento surgiu, movendo-se com a familiaridade de quem sempre habitara a escuridão. Ele se aproximou de Elena, guiando-a pelo cotovelo em direção às passagens ocultas, enquanto seus olhos cobertos pelo pano negro pareciam sorrir para o desastre.
"O tempo da linhagem acabou, menina," Bento disse, sua voz rouca soando como um veredito.
"O senhor da casa está cego, e o mundo lá fora já está clamando pelos fragmentos do que ele roubou."
Atrás deles, um vulto emergiu da penumbra; era Dante, com a postura tensa de quem preparara uma fuga durante toda uma vida.
Ele olhou para Silas, que agora se arrastava pelo chão, os olhos perdidos em uma imensidão negra que nenhum remédio ou magia poderia curar.
"Temos pouco tempo antes que a guarda derrube as portas da ala oeste," Dante avisou, os olhos fixos em Elena com uma preocupação quase maníaca. "Se ela for embora agora, o Pacto se romperá de vez e ele deixará de existir."
Elena olhou para Silas, que tateava o mármore frio do chão, seus dedos encontrando os cacos do frasco de memória que ela quebrara. Ela sentiu uma pontada no peito, uma recordação distorcida de quando ele era o único porto seguro em um mundo de incertezas.
"Ele não pode ficar aqui sozinho, Dante," ela murmurou, sentindo a própria voz vacilar diante da fragilidade que aquele predador agora exibia.
"Ele não é seu mestre, ele é o motivo de você ser quem é agora," Dante rebateu, com um desdém amargo que emanava de suas cicatrizes. "Não deixe que a sua piedade seja a sua última corrente."
Elena ignorou o aviso e caminhou lentamente em direção ao homem caído, seus pés desviando dos destroços do passado. O silêncio no escritório era absoluto, interrompido apenas pela respiração curta e descompassada de Silas.
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Ela parou diante dele, observando-o tatear o vácuo, seus olhos cinzentos agora turvos e sem foco. Ele sentiu a presença dela antes mesmo que ela falasse, e uma mão trêmula alcançou o ar, buscando um apoio que ele não merecia.
A mão dele encontrou o rosto de Elena, os dedos percorrendo sua pele com uma familiaridade que agora parecia um crime.
Ela fechou os olhos por um breve instante, sentindo a temperatura da pele dele, o contraste entre o calor que ainda restava e a frieza de um ser que vivera tempo demais nas sombras.
"Elena?", ele chamou, o nome saindo como um suspiro de uma criança perdida. "Você ainda está aqui?"
A piedade que ela sentia era cruel, uma lâmina de dois gumes que a lembrava de que, mesmo em sua cegueira, ele ainda a reconhecia pelo que ele a obrigara a ser. Ela não recuou; em vez disso, ela se inclinou, mantendo o rosto sob o toque dele.
"Sim, eu estou aqui," ela sussurrou, sentindo a mão dele tremer sob o contato. "Mas você não tem ideia de quem está tocando."
Silas apertou levemente o rosto dela, sua face contorcida em um esforço para visualizar o que a escuridão lhe negava.
"Eu vejo você, mesmo que os meus olhos não queiram colaborar... eu vejo a chama que eu acendi."
Elena sentiu um arrepio de repulsa percorrer sua espinha ao ouvir aquela insistência em ser o criador.
Ela segurou o pulso dele, não para agredi-lo, mas para forçá-lo a sentir o pulsar da marca que agora queimava com uma vida independente da dele.
"Você não vê nada," ela disse, a voz subindo um tom, fria e cortante como gelo. "Você vê a imagem que você mesmo projetou, mas nunca viu a mulher que teve que morrer para que essa imagem existisse."
Dante e Bento observavam da porta, um lembrete vivo de que o tempo de Silas Waldemar havia se esgotado.
A fragilidade dele era um convite para o esquecimento, mas Elena ainda precisava de algo que só a verdade dele poderia fornecer.
"Diga-me o nome," ela ordenou, segurando o rosto dele com uma força que o fez estremecer. "Diga-me o nome do meu irmão antes que você perca a última coisa que lhe resta."
Silas soltou uma risada fraca e úmida, um som que ecoou pelas paredes como o estalo de madeira velha.
"Você quer um nome, Elena? Você quer um som para preencher o vazio que eu criei?"
Ele parou, a mão caindo sem forças, o rosto agora voltado para o nada. "O nome dele foi a primeira coisa que eu consumi para que o pacto funcionasse, ele não existe nem para mim agora."
Elena sentiu o último elo de sua esperança se romper, deixando-a em uma escuridão tão densa quanto a dele. O desespero era uma sombra que a envolvia, mas a clareza que a acompanhava era absoluta.
"Você não consegue ver," ela repetiu, soltando-o e deixando-o cair novamente no chão de mármore. "Mesmo sem seus olhos, você ainda não consegue ver o que me fez."
Ela se levantou, afastando-se dele sem olhar para trás, enquanto a luz da lanterna de Bento cortava a escuridão.
O predador estava agora prostrado aos seus pés, aguardando o fim em um mundo onde ele já não conseguia distinguir o toque da memória da carícia da morte.
Dante deu um passo à frente, pronto para a extração, mas Elena parou e olhou uma última vez para a figura encolhida no chão.
A piedade cruel que ela sentia era a sua última lição: ele era apenas um homem, um homem que confundira a eternidade com o domínio.
"Vamos," ela disse a Dante, sua voz agora um comando que não admitia réplica. "Não há nada mais a ser colhido aqui."
Eles desapareceram nas passagens secretas, deixando a mansão Waldemar para trás conforme o fogo se aproximava dos aposentos principais. Silas ficou lá, tateando o mármore em busca de algo que não existia mais.
O Pacto estava morto, e Elena estava finalmente livre, embora a liberdade tivesse um gosto amargo de cinzas e nomes esquecidos.
A cegueira dele era agora o seu maior castigo, uma eternidade de escuridão para ponderar sobre uma obra que nunca lhe pertenceu.
Ela caminhou pelas galerias subterrâneas, sentindo a chama âmbar em seu pulso pulsar com um novo propósito.
O nome de seu irmão poderia estar perdido, mas ela sabia que, em algum lugar, a verdade sobre quem ela era ainda estava à espera de ser escrita, desta vez por suas próprias mãos.
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