"O Pacto do Esquecimento" Capítulo 4
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Capítulo 4: O Baile da Máscara de Gelo
O salão principal da mansão Waldemar estava banhado por uma luz dourada que parecia mentirosa, escondendo sob o luxo uma podridão secular. Elena, vestida com um traje simples de serva, movia-se entre a elite aristocrática enquanto carregava uma bandeja de prata com taças de cristal.
Ela sentia os olhares curiosos dos convidados sobre ela, sussurros maldosos que deslizavam pelas paredes como serpentes.
Todos ali sabiam quem ela era, ou pelo menos o que ela representava para o herdeiro da casa.
"Mais vinho, por favor," uma voz estridente exigiu, e Elena reconheceu imediatamente a figura de Lady Isolde.
A matriarca da família Waldemar observava Elena com olhos que pareciam perfurar a própria carne, desdenhando cada movimento da garota. Isolde não precisava dizer nada para demonstrar seu desprezo, bastava a forma como ela sorria ao ver a tensão nos ombros de Elena.
"Você parece perdida, menina," Isolde comentou, sua voz carregada de uma crueldade polida. "Talvez o ar desta casa seja pesado demais para pulmões tão plebeus."
Elena manteve o olhar fixo no chão, sentindo o suor frio percorrer sua espinha enquanto evitava qualquer confronto direto.
"Estou apenas cumprindo minhas obrigações, senhora," ela respondeu, lutando para manter a voz firme.
De repente, a temperatura no salão pareceu cair drasticamente, e uma corrente de silêncio varreu os convidados como uma onda.
Silas havia entrado no ambiente, sua presença dominando cada centímetro daquele espaço luxuoso.
Ele caminhou em direção a Elena sem desviar o olhar, ignorando os acenos dos nobres que tentavam capturar sua atenção. Seus passos eram silenciosos, precisos, como os de um predador que já havia escolhido sua presa.
"O que você está fazendo aqui, no meio de tanta insignificância?", Silas perguntou, ignorando completamente a presença de sua mãe.
Elena sentiu o coração acelerar, mas não teve tempo de articular uma palavra. Silas a agarrou pelo braço e a puxou para fora do salão principal, arrastando-a em direção a uma alcova isolada pelas cortinas pesadas de veludo.
A luz das velas ali era fraca, criando sombras longas que dançavam sobre os rostos deles enquanto ele a prendia contra a parede.
O cheiro de sândalo e chuva que emanava de suas roupas era opressor, uma lembrança constante de que ela não podia escapar daquela influência.
"Eles estão te observando," Silas sussurrou, a proximidade fazendo com que cada palavra parecesse uma carícia proibida. "Eles querem o que eu tenho, o que eu guardo em você."
Elena sentiu a raiva lutar contra a atração que aquela proximidade causava, uma confusão que ameaçava sua sanidade. "Eles querem a verdade, e eu também quero, Silas."
Ele soltou uma risada baixa, desprovida de qualquer alegria, enquanto sua mão deslizava lentamente pelo contorno do rosto dela.
O toque era frio, mas provocava uma sensação de calor que a deixava sem ar.
"A verdade é um luxo que você não pode mais pagar, Elena," ele murmurou, aproximando-se o suficiente para que seus lábios quase roçassem os dela.
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A tensão entre eles era elétrica, uma batalha de vontades que forçava Elena a confrontar o quão profundamente ela estava presa àquela obsessão.
Ele a observava com uma intensidade que parecia querer ler os próprios pensamentos que ela tentava esconder.
Silas não hesitou, ele a beijou com uma violência que não deixava espaço para resistência. Era um beijo possessivo, um beijo de alguém que marcava um território que ele considerava seu por direito.
Elena tentou se afastar, mas suas forças a abandonaram, rendendo-se àquela névoa que parecia consumir sua vontade. O beijo foi um choque térmico, uma promessa e uma ameaça ao mesmo tempo.
Enquanto ele a segurava, Elena sentiu uma nova memória sendo extraída, um fragmento de sua vida sendo substituído pela intensidade daquele momento. Ela percebeu, com um pavor súbito, que cada beijo dele a tornava menos Elena e mais uma extensão de Silas.
Ele se afastou lentamente, observando a confusão nos olhos dela com um prazer sádico e calculista. Ele sabia exatamente o que estava fazendo, e o quanto aquela perda de identidade a machucava.
"Agora, você pertence à minha marca," ele sussurrou contra o lóbulo da orelha dela, uma declaração que ecoava como uma sentença.
Elena ficou ali, encostada na parede, sentindo a tontura da perda e o peso daquela possessão. Ela sabia que, ao ser vista com ele daquela forma, o salão inteiro passara a vê-la como algo que lhe pertencia.
O baile continuava lá fora, a música soando como um réquiem para quem ela costumava ser. Ela olhou para as mãos, tentando se lembrar do que carregava antes, mas o vazio era a única resposta constante.
Silas se virou para sair, parando apenas por um segundo para lançar um olhar sobre o ombro. "Não se atrase para sua próxima lição, pequena arquivista."
Ele desapareceu nas sombras, deixando Elena sozinha na alcova com apenas o eco daquelas palavras. Ela sabia que cada beijo era um novo elo na corrente que a prendia àquela mansão.
O que ele roubaria dela na próxima vez, ela se perguntou, sentindo uma lágrima escorrer pelo rosto. Ela não tinha mais respostas, apenas o silêncio e o medo crescente do que ainda estava por vir.
O jogo tinha mudado, e ela não era mais a intrusa que invadira o arquivo, mas a peça central de uma tragédia que ela mal começara a compreender. E, no escuro, ela percebeu que a única coisa pior que ser sua prisioneira era o desejo incontrolável de continuar perto dele.
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