"O Pacto do Esquecimento" Capítulo 1
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Capítulo 1: A Intrusa no Arquivo
A chuva em São Paulo não era apenas água; era um véu espesso e frio que isolava a mansão Waldemar do restante do mundo. Elena Pereira ajustou a máscara de tecido e deslizou pela janela entreaberta da ala oeste, onde o cheiro de mofo e papel antigo era avassalador.
Seus pés tocaram o assoalho de madeira com a leveza de um fantasma. Ela sabia que tinha apenas poucos minutos antes que a ronda da guarda passasse pelo corredor principal.
O Arquivo da família Waldemar era um labirinto de segredos proibidos. Elena precisava encontrar qualquer vestígio de seu irmão, algo que explicasse seu desaparecimento meses atrás.
Seus dedos trêmulos varreram as estantes repletas de dossiês selados com cera vermelha. Cada documento ali parecia sussurrar sobre vidas destruídas e fortunas erguidas sobre o sangue dos esquecidos.
De repente, um ruído seco de passos ecoou nas sombras. Ela congelou, prendendo a respiração enquanto se escondia atrás de uma coluna de livros pesados.
Uma presença pesada, fria e magnética preencheu o ambiente. O cheiro de cedro e tempestade anunciou a chegada de Silas von Waldemar antes mesmo que ela o visse.
Elena sentiu o ar vibrar ao seu redor enquanto tentava se esgueirar para a saída.
Antes que desse dois passos, uma mão enluvada surgiu do nada, prendendo-a com uma força sobre-humana contra a estante.
"A curiosidade é uma doença, pequena intrusa," Silas murmurou, sua voz soando como o atrito de lâminas de gelo.
Elena tentou girar o corpo, mas ele a imobilizou com uma facilidade humilhante. O olhar dele, da cor de cinzas mortas, varreu o rosto dela com uma curiosidade cruel.
"Eu não deveria estar aqui," ela conseguiu articular, embora a voz tivesse falhado. "Eu só estava procurando por algo que me pertence."
Silas inclinou a cabeça levemente, como se analisasse um inseto sob uma lente. Ele aproximou o rosto do dela, mantendo uma distância eletrizante.
"Nada nesta casa pertence a estranhos, muito menos a você," ele rebateu, apertando os dedos sobre o pulso dela.
No momento em que a pele dele tocou a dela através da luva fina, uma descarga de energia percorreu o corpo de Elena. Ela sentiu uma vertigem súbita, como se o chão tivesse desaparecido.
Foi uma sensação visceral de perda, uma fisgada na base da alma. Era como se, a cada segundo de contato, algo vital estivesse sendo subtraído de sua consciência.
Elena piscou, confusa, sentindo as bordas de sua memória vacilarem. O que ela estava procurando exatamente? O motivo de sua invasão parecia subitamente nublado.
Silas observou o brilho âmbar nos olhos dela enfraquecer e um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios. Ele sabia exatamente o que estava acontecendo.
"O Pacto começa agora, Elena," ele disse, e o nome dela na boca dele soou como uma sentença de prisão.
Ela tentou recuar, mas suas pernas pareciam feitas de chumbo. O terror começou a se misturar com uma atração magnética e doentia que ela não conseguia explicar.
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"O que você fez comigo?" ela sussurrou, a voz carregada de uma desorientação que ela temia mais do que a morte.
Silas não respondeu imediatamente. Ele soltou o pulso dela apenas para apontar para a mesa central de ébano.
Lá, sob a luz fraca de um candelabro, estava um pequeno broche de prata — o mesmo broche que seu irmão usava na noite em que sumiu.
"Parece que seu irmão deixou algumas coisas para trás antes de se tornar... irrelevante," Silas comentou, observando a reação dela com um prazer sádico.
Elena sentiu o sangue ferver, uma faísca de fúria tentando superar a névoa que consumia sua mente. Ela avançou um passo, mas o cansaço a dominou.
"Ele não está morto," ela afirmou, forçando a voz a manter a firmeza que não sentia mais.
Silas soltou uma risada seca que não atingiu seus olhos. Ele fechou a distância entre eles novamente, encurralando-a contra o móvel repleto de segredos.
"Muitas pessoas dizem coisas assim antes de se tornarem apenas páginas arquivadas," ele respondeu, observando-a com uma intensidade que a fez tremer.
Ele segurou o pulso dela novamente, agora com uma firmeza que não permitia qualquer tentativa de fuga. O toque dele era a chave de um cárcere que ela acabara de atravessar.
"Agora," ele sussurrou contra o lóbulo da orelha dela, uma promessa que soava como o fim do mundo.
"Agora, você pertence à minha biblioteca."
Elena sentiu o mundo escurecer nas bordas de sua visão. Ela estava presa em um labirinto onde as paredes eram feitas de seus próprios esquecimentos.
A chuva lá fora parecia rugir agora, um aviso que ela não teria a chance de seguir. O destino de Elena Pereira tinha sido selado entre prateleiras de poeira e silêncio.
Silas a soltou, apenas para ver se ela teria forças para correr, mas ela permaneceu ali, estática.
Ele já não via uma invasora, mas uma nova coleção de memórias pronta para ser colhida.
"Espero que tenha muito o que contar, Elena," ele disse, virando as costas e caminhando para as sombras da sala.
Ela ficou no centro do silêncio, a mão sobre o próprio peito. A sensação de vazio em sua mente era o único sinal de que ele não estava apenas brincando com ela.
Algo havia sido levado. Algo que ela não sabia como recuperar.
Elena olhou para o broche sobre a mesa uma última vez.
A jornada mal tinha começado, e ela já estava se perdendo.
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