"Filha da Mentira" PARTE 13
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O céu de São Paulo estava pesado naquela tarde.
Não era exatamente chuva ainda.
Mas o ar já carregava aquela promessa de tempestade que muda o humor da cidade inteira.
Helena Vasconcelos andava apressada pela Rua Augusta, o coração acelerado, o olhar fixo em cada esquina.
Ela tinha recebido uma mensagem curta de Caio:
“Ela está perto. Não vá sozinha.”
Mas Helena não conseguiu esperar.
Do outro lado da avenida, Sofia caminhava sem direção.
Descalibrada.
Como se cada passo estivesse sendo guiado por memórias que não pertenciam mais ao presente.
Ela parou de repente.
Algo dentro dela vibrou.
Uma sensação antiga.
Familiar demais para ser ignorada.
Helena viu primeiro.
Parou.
O mundo pareceu diminuir ao redor dela.
“Sofia…”, ela sussurrou, como se o nome fosse frágil demais para ser dito alto.
Sofia levantou o olhar.
E congelou.
Por alguns segundos, nenhuma delas se moveu.
A rua continuava viva.
Carros.
Buzinas.
Pessoas passando.
Mas ali, entre mãe e filha, tudo tinha parado.
Sofia deu um passo para trás.
“Não…”, ela disse, quase sem voz.
Helena avançou lentamente.
“Sofia, olha pra mim.”
Sofia balançou a cabeça.
“Não chega perto.”
Helena parou.
As mãos tremiam.
“Eu não vou te fazer mal.”
Sofia respirava rápido.
“Eu não sei quem você é…”
Helena fechou os olhos por um segundo.
“Você sabe sim.”
Sofia começou a chorar sem perceber.
As lágrimas vieram antes da decisão.
Antes da mente.
“Para…”, ela disse. “Para de falar comigo assim.”
Helena deu mais um passo.
“Você lembra de mim.”
Sofia gritou:
“EU NÃO LEMBRO!”
O som ecoou pela calçada.
Algumas pessoas olharam.
Um celular foi levantado ao longe.
Mas Helena não se importou.
“Você tinha medo de escuro quando era pequena”, Helena disse baixinho.
Sofia recuou.
“Para!”
“Você dormia com a minha mão segurando sua cabeça.”
Sofia levou as mãos aos ouvidos.
“EU DISSE PARA PARAR!”
Helena continuou, como se estivesse atravessando uma parede invisível.
“Você me chamava de mãe antes de dormir.”
Sofia começou a tremer.
“Isso não é verdade…”
Mas a voz dela já não tinha certeza.
E então veio.
Uma imagem.
Um quarto pequeno.
Helena sentada na beira da cama.
Sofia criança segurando um ursinho.
“Não vai embora…”
Sofia cambaleou.
“Não… não… isso não…”
Helena viu o impacto.
E avançou mais um passo.
“Eu nunca fui embora de você.”
Sofia gritou de novo:
“VOCÊ ESTÁ MENTINDO!”
Mas a palavra saiu quebrada.
Insegura.
Quase pedindo ajuda.
E então, o mundo interferiu.
Um carro freou forte na esquina.
Pneus cantando.
Helena virou o rosto por instinto.
E nesse segundo, tudo mudou.
Um homem desceu rapidamente de um carro preto estacionado mais à frente.
Fone no ouvido.
Olhar fixo.
Caio.
Ele viu a cena e ficou pálido.
“Helena!”, ele gritou.
Mas já era tarde.
Sofia, em choque emocional, começou a andar para trás sem olhar.
“Eu não quero isso…”, ela repetia.
Helena tentou se aproximar.
“Sofia, espera!”
E então o primeiro impacto quase aconteceu.
Um carro vindo rápido pela faixa lateral não conseguiu frear a tempo.
Buzina.
Grito.
Caio correu.
“SAI DAÍ!”
Helena virou instintivamente em direção a Sofia.
“Sofia!”
Sofia olhou para o lado no último segundo.
Seus olhos arregalaram.
O som do motor veio como um corte no ar.
O tempo desacelerou.
Helena correu.
Sofia congelou.
O carro se aproximou.
E então—
Um impacto iminente.
Um freio brutal.
Metal rangendo.
A rua inteira gritou junto.
Helena jogou o corpo para frente.
Sofia tentou reagir.
Caio chegou correndo.
O som final foi seco.
Caótico.
E tudo se perdeu em movimento, gritos e luzes piscando.
No meio da confusão, Helena conseguiu segurar o braço de Sofia por um segundo.
“Sofia…!”, ela gritou.
Sofia olhou para ela.
E por um instante mínimo, algo verdadeiro atravessou seu olhar.
Mas foi interrompido pelo caos.
E então tudo virou sirenes.
Gente correndo.
Vidros quebrados.
E Helena desaparecendo parcialmente da visão de Sofia no meio da confusão.
Sofia caiu de joelhos na calçada.
“Eu… eu não vi…”, ela sussurrou.
Caio gritou ao fundo:
“Chamem a ambulância!”
E no meio da rua bloqueada, com o som das sirenes começando a se aproximar, Sofia ergueu o rosto lentamente, ainda tremendo, olhando para o ponto onde sua mãe estava segundos antes — mas agora já não conseguia mais ver nada claramente.
E o mundo inteiro parecia girar fora de controle ao redor dela.
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