"Filha da Mentira" PARTE 12
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O som da porta batendo dentro da mansão em Jardim Europa ecoou como um aviso.
Sofia Vasconcelos Ribeiro estava parada no corredor, ofegante, com os olhos arregalados como se tivesse acabado de acordar de um sonho longo demais.
Mas não era sonho.
Era outra coisa.
Algo mais profundo.
Patrícia apareceu imediatamente no fim do corredor, como se já soubesse que aquele momento chegaria.
“Para onde você vai?”, perguntou com voz firme.
Sofia não respondeu.
Ela apenas andava.
Rápido.
Descontrolado.
Como se o próprio corpo estivesse tentando escapar de algo dentro da cabeça.
Horas antes, algo tinha mudado.
Fragmentos começaram a surgir.
Não imagens completas.
Sensações.
Cheiros.
Vozes antigas.
Sofia segurava a cabeça enquanto estava sentada no quarto.
“Não é real… não é real…”, ela repetia.
Mas quanto mais ela negava, mais coisas voltavam.
Uma lembrança apareceu primeiro.
Pequena.
Uma cozinha simples.
Helena cozinhando.
Sofia criança puxando a barra da roupa dela.
“Mamãe, não vai embora hoje, né?”
Helena rindo.
“Eu nunca vou embora de você.”
Sofia abriu os olhos de repente no presente.
“Não…”, ela sussurrou.
“Isso não aconteceu assim…”
Mas a imagem não desapareceu.
Na sala da mansão, Patrícia observava Sofia sem piscar.
Caio Menezes estava ao lado.
“Ela está reagindo aos arquivos antigos”, ele disse baixo.
Patrícia respondeu:
“Impossível.”
Caio insistiu:
“Os registros que foram acessados na Avenida Paulista incluem arquivos de convivência inicial.”
Patrícia ficou em silêncio.
Sofia desceu as escadas correndo.
“Eu preciso sair daqui!”, ela gritou.
Patrícia tentou interceptá-la.
“Sofia, você não está bem.”
Mas Sofia desviou.
“Você mentiu pra mim!”
O som dessas palavras fez o ambiente congelar.
No mesmo instante, outra memória surgiu.
Mais forte.
Mais dolorosa.
Ela estava em um hospital.
Helena segurando sua mão.
“Fica comigo, filha…”
Sofia pequena chorando.
“Não me deixa aqui…”
E depois… portas fechando.
Um corredor branco.
Silêncio.
Sofia parou no meio da escada.
“Isso… isso é verdade…”, ela sussurrou.
Patrícia subiu alguns degraus.
“Isso são fragmentos induzidos”, disse firme.
Sofia virou lentamente.
“Induzidos?”
“Sim”, Patrícia respondeu. “Memórias podem ser reconstruídas quando expostas a estímulos errados.”
Sofia começou a tremer.
“Você está dizendo que eu estou inventando isso?”
Patrícia respondeu sem hesitar:
“Estou dizendo que você está confusa.”
Mas Sofia não estava mais ouvindo completamente.
Outra lembrança veio.
Um aniversário.
Helena fazendo bolo.
Velas.
Risos.
“Você é minha vida inteira”, Helena dizia.
Sofia levou a mão à boca.
“Não… não… isso não pode…”
Patrícia percebeu a mudança no olhar dela.
E pela primeira vez, sua voz ficou mais dura.
“Chega.”
Ela pegou o braço de Sofia.
“Você vai subir agora.”
Sofia se soltou.
“Não me toca!”
O choque físico fez o ambiente inteiro reagir.
Caio deu um passo à frente.
“Sra. Patrícia, isso pode piorar o estado dela.”
Mas Patrícia não recuou.
“Ela está perdendo o controle.”
Sofia correu para o escritório da mansão.
Abriu gavetas.
Jogou papéis no chão.
“Eu preciso ver… eu preciso ver a verdade…”
Patrícia veio atrás.
“Você não precisa ver nada.”
Sofia virou.
“VOCÊS ESCONDERAM DE MIM!”
Silêncio.
O tipo de silêncio que não é vazio.
É decisão.
Sofia abriu um envelope que estava sobre a mesa.
E parou.
Era um relatório antigo.
Com nomes.
Datas.
E uma linha sublinhada:
“Isolamento psicológico autorizado para reorganização de vínculo familiar.”
Sofia leu devagar.
“Isolamento…?”
Helena.
A palavra apareceu na mente dela como uma explosão.
E tudo voltou ao mesmo tempo.
A voz.
O toque.
A rua.
O tribunal.
O vidro do colégio.
Sofia começou a respirar rápido.
“Não… não… não…”
Patrícia tentou se aproximar.
“Pare de ler isso.”
Mas já era tarde.
Sofia olhou para ela.
E algo tinha mudado completamente.
“Você me separou dela…”
Patrícia respondeu:
“Eu te protegi.”
Sofia gritou:
“VOCÊ ME TIROU DA MINHA MÃE!”
O som ecoou pela mansão inteira.
Caio ficou imóvel.
Patrícia finalmente perdeu o controle da postura.
“Você não sabe o que está dizendo.”
Sofia avançou.
“EU LEMBRO DELA!”
Patrícia segurou o braço dela com força.
“Você não vai sair daqui.”
Sofia se debateu.
“EU VOU SAIR!”
O impacto fez Sofia cair no chão.
E nesse instante, algo dentro dela rompeu.
Não era só emoção.
Era estrutura.
Ela levantou imediatamente.
Pegou a bolsa.
Correu.
Patrícia gritou:
“Sofia!”
Mas ela já estava no corredor.
Caio tentou intervir.
“Sofia, espera!”
Mas ela não parou.
A porta da mansão se abriu com força.
E Sofia saiu.
Sem olhar para trás.
Na rua, o ar parecia diferente.
Mais frio.
Mais real.
Mais livre.
Patrícia ficou parada na entrada.
Respirando pesado.
E disse apenas uma frase baixa:
“Ela começou a lembrar.”
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