"Filha da Mentira" PARTE 2
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O céu do Rio de Janeiro ainda estava claro quando Helena Vasconcelos Ribeiro deixou o Copacabana Palace, mas para ela tudo parecia ter escurecido por dentro.
Cada passo que dava na calçada parecia mais pesado do que o anterior, como se o chão tivesse absorvido toda a força do seu corpo.
Ela ainda não conseguia acreditar no que tinha acontecido dentro daquele salão.
As palavras de Sofia ainda ecoavam na sua cabeça como um golpe repetido sem pausa.
“Eu nunca precisei de você.”
Helena apertou os olhos com força, tentando expulsar aquela frase da memória, mas ela voltava, mais cruel a cada segundo.
“Não… isso não é real…”, ela murmurou para si mesma, andando sem direção clara pela Avenida Atlântica.
Os carros passavam rápidos. Turistas riam. Casais tiravam fotos com o mar ao fundo. O mundo seguia normal. Só ela tinha sido deslocada da realidade.
O vestido que antes parecia elegante agora pesava como uma punição.
Ela puxou o celular do bolso.
Ainda estava aberto na transmissão ao vivo.
A imagem de Sofia sorrindo ao lado de Patrícia congelou sua respiração.
“Minha filha…”, ela disse baixinho.
Mas ninguém respondeu.
Do outro lado da cidade, na cobertura dos Vasconcelos em Jardim Europa, São Paulo, o clima era completamente diferente. Aquele não era mais um lar. Era um território ocupado.
Patrícia Alencar Vasconcelos caminhava pela sala principal como se sempre tivesse pertencido àquele espaço. Os funcionários agora a chamavam de “senhora”, sem hesitação, sem dúvida.
“Todos os contratos já foram atualizados?”, ela perguntou ao advogado Dr. Caio Menezes.
“Sim. A senhora agora consta como responsável legal temporária de todos os ativos da família”, respondeu ele, sem levantar os olhos.
Patrícia sorriu levemente.
“Excelente.”
Sofia estava sentada no sofá, imóvel. Olhando para o nada.
“Você fez a escolha certa hoje”, disse Patrícia, aproximando-se dela. “Agora você está protegida.”
Sofia não respondeu.
Enquanto isso, Helena tentava ligar para o banco.
Uma, duas, três vezes.
Até que a ligação caiu direto numa mensagem automática.
“Conta temporariamente bloqueada por determinação judicial.”
Ela congelou.
“Como assim… bloqueada?”
Tentou outra instituição.
Mesma resposta.
Outra.
Mesma coisa.
O celular começou a pesar na mão.
“Não pode ser… isso é um erro… só pode ser um erro…”
Ela sentou em um banco próximo à praia, respirando com dificuldade.
E então percebeu algo ainda pior.
O apartamento onde ela morava, no Leblon, já não era acessível.
A chave digital tinha sido desativada.
O contrato não existia mais para ela.
Era como se sua vida inteira tivesse sido apagada em questão de horas.
Em São Paulo, o telefone de Patrícia tocava sem parar.
“Senhora Patrícia, a imprensa já está pedindo declarações sobre o caso da Helena Vasconcelos.”
Ela ajeitou o cabelo com calma.
“Digam que não há comentários.”
“Mas os vídeos dela sendo retirada do casamento já estão viralizando…”
Patrícia sorriu novamente.
“Ótimo. A narrativa está funcionando melhor do que eu esperava.”
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Do outro lado da sala, Sofia finalmente levantou os olhos.
“Por que estão fazendo isso com ela?”, perguntou a menina, em voz baixa.
Patrícia se virou lentamente.
“Porque ela precisava entender o lugar dela.”
Helena caminhava agora sem rumo pelo Centro do Rio. Já não estava mais na zona turística. Os prédios ficaram mais velhos, o movimento mais pesado, o ar mais frio.
Ela tentou novamente usar o cartão.
Recusado.
Tentou outro.
Recusado.
“Sem fundos disponíveis.”
A tela parecia zombar dela.
“Não… não… isso não pode estar acontecendo…”
Seu estômago começou a apertar.
Ela não havia comido desde cedo. Mas naquele momento, a fome parecia o menor dos problemas.
Ela entrou em uma pequena padaria.
“Uma água, por favor…”, disse ao balcão.
Quando tentou pagar, o cartão foi recusado novamente.
A atendente olhou com desconforto.
“Senhora… não passou.”
Helena forçou um sorriso.
“Pode tentar de novo, por favor?”
Mais uma vez.
Negado.
Ela saiu sem a água.
No alto da cobertura em São Paulo, Caio Menezes entregava um envelope para Patrícia.
“Os bens móveis já foram transferidos para trusts temporários. Mas há um detalhe…”
Patrícia ergueu o olhar.
“Que detalhe?”
“Helena ainda tem acesso indireto a uma conta antiga. Pequena, mas ativa.”
O sorriso dela desapareceu por meio segundo.
“Bloqueie isso imediatamente.”
“Já estamos fazendo isso.”
Ela respirou fundo.
“Ela não pode ter nada. Nem um centavo. Nem uma brecha.”
Sofia observava tudo em silêncio.
E pela primeira vez, sua expressão mudou levemente.
Como se algo não estivesse certo.
Helena estava agora sentada na escadaria de um prédio comercial.
O celular vibrava sem parar.
Mensagens de números desconhecidos.
Vídeos dela sendo retirada do hotel.
Comentários.
Ofensas.
“Ex-esposa humilhada em casamento de elite…”
“Expulsa da família Vasconcelos…”
“Perde tudo em um dia…”
Ela desligou o celular.
As mãos começaram a tremer.
“Isso não pode estar acontecendo comigo…”
Ela olhou para o céu.
Mas não havia resposta.
Naquela mesma noite, Patrícia organizou uma reunião com advogados e assessores.
“Quero tudo formalizado até amanhã. Nenhum vínculo legal com Helena deve existir mais.”
“Já estamos finalizando a remoção de registros secundários”, disse um deles.
“Ótimo.”
Sofia levantou de repente.
“Isso é demais”, disse ela.
Todos pararam.
Patrícia virou o olhar lentamente.
“O quê?”
“Isso está errado.”
O silêncio ficou pesado.
“Ela não fez nada disso…”
Patrícia se aproximou.
“Você ainda não entendeu o que está acontecendo aqui, Sofia.”
“Entendi sim”, respondeu a menina. “Vocês estão apagando ela.”
No Rio de Janeiro, Helena caminhava sem destino quando começou a sentir o corpo falhar.
A visão ficou turva.
O som da cidade parecia distante.
Ela tentou se apoiar em uma parede.
“Não… não agora…”
As pernas cederam lentamente.
O corpo escorregou até o chão.
Pessoas passaram por ela.
Ninguém parou.
O mundo continuou.
E Helena Vasconcelos, pela primeira vez, não conseguiu se levantar.
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