"A Mãe Esquecida" PARTE 14
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O amanhecer em São Paulo chegou cinza, como se a cidade estivesse respirando devagar demais depois de tudo o que aconteceu.
A chuva leve batia nas janelas do hospital Santa Cecília, criando um som constante que parecia acompanhar o peso do silêncio dentro do quarto de Juliana.
Ela estava sentada na cama.
Mas já não parecia a mesma.
Desde a audiência no fórum, algo dentro dela tinha mudado de forma irreversível. Não era apenas confusão. Era uma ruptura lenta entre o que ela acreditava ser verdade e o que agora insistia em existir sem permissão.
A porta do quarto abriu devagar.
Maria entrou.
Dessa vez não havia uniforme de funcionária.
Ela estava apenas ali.
Como quem não consegue mais esconder o que é.
Juliana virou o rosto imediatamente.
E congelou.
O silêncio durou alguns segundos.
“Você…” Juliana disse baixo.
Maria não respondeu de imediato.
Só ficou parada.
“Eu não devia estar aqui?” Maria perguntou com voz calma.
Juliana respirou fundo.
“Você não deveria estar em lugar nenhum da minha vida.”
As palavras saíram duras.
Mas a voz dela tremia.
Maria deu um passo à frente.
“Eu nunca saí da sua vida, Juliana.”
Juliana fechou os olhos por um instante.
Como se aquilo doesse mais do que qualquer diagnóstico médico.
“Pare de dizer isso.”
Maria respirou fundo.
“Você pode negar. Mas não pode apagar o que somos.”
Juliana levantou da cama.
“Eu já disse no tribunal: você não é minha mãe.”
Maria ficou em silêncio.
Mas não recuou.
“E mesmo assim você me chamou à noite.”
Juliana congelou.
O quarto pareceu mais frio.
“Eu estava confusa,” Juliana respondeu rápido.
Maria assentiu lentamente.
“Confusão não cria memórias. Só abre portas que estavam fechadas.”
Juliana deu um passo para trás.
“Eu não quero isso.”
Maria olhou diretamente nos olhos dela.
“Você não precisa querer para ser verdade.”
O silêncio entre elas ficou pesado.
Juliana levou a mão à cabeça.
“Por que isso está acontecendo comigo?”
Maria respondeu suavemente:
“Porque alguém tentou te separar de mim.”
A frase atingiu o ar como um corte.
Juliana riu nervosamente.
“Isso é paranoia.”
Mas o corpo dela não acompanhava a negação.
As mãos tremiam levemente.
Do lado de fora do hospital, Renata estava no carro.
Observando o prédio.
Sem piscar.
“Não era para chegar nesse ponto…” ela murmurou.
O celular vibrou.
Uma mensagem:
REGISTROS NÃO ESTÃO MAIS TOTALMENTE SOB CONTROLE
Renata fechou os olhos por um segundo.
“Então ainda existe uma cópia…” ela disse baixo.
No quarto, Maria se aproximou lentamente da cama.
“Juliana… olha pra mim.”
Juliana hesitou.
Mas olhou.
E pela primeira vez, não havia certeza no olhar dela.
Só medo.
“Você lembra de mim?” Maria perguntou.
Juliana respirou fundo.
“Eu lembro de sonhos.”
Maria assentiu.
“E o que você sente neles?”
Juliana demorou a responder.
“Falta…”
O ar pareceu pesar ainda mais.
Maria deu mais um passo.
“Essa falta tem nome.”
Juliana balançou a cabeça.
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“Não diga isso.”
Maria não parou.
“Juliana…”
A voz dela quebrou levemente.
“Eu sou sua mãe.”
O silêncio que seguiu não foi vazio.
Foi resistência.
Juliana recuou até encostar na parede.
“Não…” ela repetiu.
Mais baixo.
“Não…”
Mas os olhos dela já não tinham a mesma força.
Naquele instante, um médico entrou rapidamente no corredor.
“Doutora Maria Aparecida foi autorizada a permanecer com a paciente por decisão judicial temporária.”
Renata, no carro, fechou os olhos com força.
“Então eles liberaram…” ela sussurrou.
Dentro do quarto, Juliana começou a chorar silenciosamente.
“Por que isso dói tanto?” ela perguntou.
Maria se aproximou mais.
“Porque você está lembrando.”
Juliana levantou o olhar.
E disse a frase que parecia rasgar o próprio peito:
“Se você é minha mãe… por que eu não consigo te lembrar?”
Maria respirou fundo.
“Porque alguém te ensinou a esquecer.”
Juliana levou as mãos ao rosto.
“Eu não sei mais o que é real…”
Maria ficou em silêncio por um segundo.
E então disse:
“Eu sei.”
Juliana olhou para ela novamente.
E pela primeira vez…
não parecia rejeitar completamente a possibilidade.
Mas também não aceitava.
Era algo no meio.
Instável.
Perigoso.
Maria se aproximou lentamente e colocou a mão sobre a mesa ao lado da cama.
“Eu não vou te obrigar a me reconhecer.”
Juliana respirou fundo.
“Então o que você quer?”
Maria respondeu com voz baixa:
“Só uma coisa.”
Juliana esperou.
Maria completou:
“Que você não fuja de si mesma de novo.”
O corredor do hospital ficou silencioso.
Renata observava tudo de longe, agora dentro do prédio.
E então falou para si mesma:
“Se ela lembrar completamente… eu perco tudo.”
Dentro do quarto, Juliana ficou em silêncio por longos segundos.
E então levantou o olhar para Maria.
“Eu tenho uma pergunta.”
Maria assentiu.
Juliana respirou fundo.
E perguntou, com a voz quebrada:
“Se você é minha mãe… por que eu cresci sem você?”
O ar pareceu congelar.
Maria não respondeu imediatamente.
E nesse intervalo de silêncio…
algo invisível dentro de Juliana começou a se mover novamente.
Como se a resposta estivesse vindo.
Mas ainda não tivesse chegado.
E naquele instante final, quando Maria abriu a boca para responder…
o monitor do hospital disparou um alerta estranho.
E a memória de Juliana começou a falhar outra vez.
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