"A Mãe Esquecida" PARTE 11
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O Hospital Santa Cecília estava em silêncio naquela madrugada, mas não era um silêncio comum. Era aquele tipo de silêncio que parece pesar nos ouvidos, como se o próprio ar estivesse esperando algo acontecer.
Juliana estava deitada no quarto particular.
Ainda com curativos leves.
Ainda tentando organizar fragmentos de memória que não se encaixavam.
Ela piscava devagar.
“Isso não faz sentido…”
A luz branca do quarto refletia na janela, e por um segundo ela teve a impressão de ver uma sombra se movendo do lado de fora.
Mas quando virou o rosto, não havia nada.
Na recepção do hospital, um envelope antigo havia sido encontrado durante a revisão do sistema interno.
Estava marcado como:
ARQUIVO NÃO DIGITALIZADO — URGENTE
A enfermeira levou o documento até o setor administrativo.
E o sistema antigo foi reativado.
Na tela do computador surgiu um registro esquecido:
Paciente: Maria Aparecida de Souza
Hospital Santa Cecília — Internação anterior
O médico responsável foi chamado imediatamente.
Dr. Henrique Valença.
Ele entrou na sala de arquivos com expressão séria.
“Isso não deveria existir mais…”
O técnico de sistema respondeu:
“Foi recuperado de backup físico antigo. Não foi apagado completamente.”
Dr. Henrique ficou em silêncio.
E então pediu:
“Abra o histórico completo.”
A tela carregou lentamente.
E o passado voltou.
Internação antiga.
Crises de estresse severo.
Amnésia parcial após evento traumático.
Dr. Henrique franziu a testa.
“Amnésia… parcial?”
Ele avançou a leitura.
E então viu algo que fez sua respiração parar por um instante.
Paciente acompanhada durante parto em emergência.
Recém-nascida registrada: Juliana Ribeiro Valente.
O silêncio dentro da sala mudou completamente.
“Isso… não pode estar certo,” ele disse baixo.
O técnico respondeu:
“Os registros foram confirmados por assinatura médica original.”
Dr. Henrique ficou imóvel.
E então ele viu outra linha.
Maria Aparecida de Souza — mãe biológica da paciente Juliana Ribeiro Valente.
O mundo pareceu desacelerar por um segundo.
Ele recuou um passo.
“Repete isso…”
O técnico hesitou.
Mas repetiu:
“Maria Aparecida de Souza é mãe biológica de Juliana Ribeiro Valente.”
Dr. Henrique fechou os olhos por um instante.
“Isso significa que… ela está aqui há semanas como funcionária da casa da própria filha…”
Na mansão Ribeiro Valente, Maria estava limpando o chão da sala principal quando sentiu novamente aquela sensação estranha no peito.
Mais forte agora.
Mais definida.
Ela parou.
E levou a mão ao peito.
“Por que isso não passa…”
A governanta passou por ela.
“Mais rápido, Maria. A senhora Renata não gosta de atraso.”
Maria assentiu em silêncio.
Mas algo dentro dela parecia mais pesado do que antes.
No hospital, Juliana estava sentada na cama quando recebeu a visita de um novo médico.
Dr. Henrique entrou devagar.
“Como você está se sentindo?” ele perguntou.
Juliana respondeu sem muita energia:
“Confusa… ainda.”
Ele observou ela por alguns segundos.
Como se estivesse avaliando algo além dos sintomas.
“Você lembra de alguma coisa antes do acidente?” ele perguntou.
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Juliana hesitou.
“Só fragmentos.”
Ela apertou os dedos.
“Uma mulher… uma casa… e uma sensação estranha de falta.”
Dr. Henrique respirou fundo.
“Juliana… você conhece o nome Maria Aparecida de Souza?”
Ela congelou.
O silêncio durou mais do que deveria.
“Esse nome… apareceu no meu sonho também.”
Dr. Henrique ficou mais sério.
“E o que você sentiu quando ouviu?”
Juliana tentou responder.
Mas travou.
“Eu senti… como se ela fosse importante.”
Na mansão, Renata estava no escritório quando recebeu uma notificação do sistema interno do hospital.
Mensagem curta:
ACESSO A REGISTRO ANTIGO RESTAURADO
Ela leu.
E não reagiu imediatamente.
Depois de alguns segundos, fechou o laptop com calma.
“Então começaram…”
Ela se levantou.
Caminhou até o cofre.
E abriu a pasta mais profunda.
Dentro havia documentos físicos antigos.
Todos relacionados a Maria.
Ela pegou um papel.
E leu.
“Transferência de tutela hospitalar — menor Juliana Ribeiro Valente…”
Renata apertou o papel com força.
“Isso não pode voltar à superfície.”
No hospital, Dr. Henrique voltou para a sala de arquivos.
E abriu um último documento digitalizado.
Um vídeo antigo.
A imagem estava granulada.
Mas mostrava uma mulher segurando um recém-nascido.
E a legenda dizia:
“Maria Aparecida de Souza — parturiente”
Dr. Henrique sussurrou:
“Não é possível…”
E então ele viu a data.
Era o mesmo dia de nascimento registrado de Juliana.
Naquele momento, Juliana no quarto do hospital sentiu uma dor leve na cabeça.
Como se algo tivesse sido puxado de dentro dela.
Ela levou a mão à testa.
“De novo isso…”
E então ouviu, sem entender de onde vinha:
Uma voz suave.
“Juliana…”
Ela virou o rosto rapidamente.
“Quem está aí?”
Mas o quarto estava vazio.
E pela primeira vez, o nome que ela não conseguia lembrar deixou de ser apenas uma sensação.
E começou a se tornar uma verdade impossível de ignorar.
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