"A Mãe Esquecida" PARTE 5
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A tarde em São Paulo estava abafada, e a mansão Ribeiro Valente parecia ainda mais silenciosa do que o normal. O tipo de silêncio que não traz paz, mas expectativa. Como se a casa estivesse esperando que algo finalmente se quebrasse.
Maria Aparecida de Souza estava no corredor lateral organizando caixas antigas que haviam sido retiradas do depósito superior. Era uma ordem direta de Renata: “limpar tudo o que não é mais usado”.
Caixas de fotos antigas.
Documentos antigos.
E objetos que ninguém queria mais ver.
Maria não deveria olhar.
Mas olhou.
Porque uma das caixas estava mal fechada.
E dentro dela havia algo que fez seu corpo parar por meio segundo.
Uma fotografia.
Ela pegou com cuidado.
Era uma foto de família.
Juliana ainda criança.
Sentada no colo de alguém.
Alguém que não era Renata.
Alguém que não estava mais na casa.
Alguém sorrindo com uma expressão… estranhamente familiar.
Maria sentiu o ar ficar pesado.
O coração dela bateu mais forte.
“Isso… não pode ser…”
Ela aproximou a foto do rosto.
E por um segundo, sua respiração falhou.
Passos.
Renata apareceu no corredor sem aviso.
“O que você está fazendo aí?”
Maria se assustou e quase deixou a foto cair.
“Eu… a caixa estava aberta, eu só ia guardar…”
Renata olhou imediatamente para a foto na mão dela.
E ficou imóvel por um segundo.
Muito curto.
Mas suficiente.
“De onde você tirou isso?” Renata perguntou, com voz mais baixa.
Maria respondeu rápido.
“Estava na caixa…”
Renata tomou a foto da mão dela.
Olhou.
E guardou imediatamente dentro da pasta.
“Você não deve mexer nisso.”
Maria hesitou.
“Essa menina… é a Juliana?”
Renata levantou o olhar.
Frio.
Direto.
“Sim.”
Mas algo na forma como ela respondeu não fechou a frase corretamente.
Era como se tivesse cortado algo antes do fim.
Naquele momento, Juliana apareceu no topo da escada.
“Está acontecendo alguma coisa?”
Renata respondeu imediatamente.
“Nada importante.”
Juliana desceu devagar.
“Por que estão mexendo nas coisas antigas?”
Maria ficou em silêncio.
Mas seus olhos ainda estavam presos na caixa.
Juliana olhou para Maria.
Diferente das outras vezes.
Menos distraída.
Mais observadora.
“Você de novo… com esse olhar estranho.”
Maria se assustou levemente.
“Desculpa… eu só estava organizando.”
Juliana cruzou os braços.
“Você olha como se conhecesse essa casa.”
Silêncio.
Maria quase respondeu.
Quase.
“Porque eu conheço…”
Mas não disse.
Engoliu a frase.
E abaixou a cabeça.
Renata interrompeu rapidamente.
“Juliana, você tem reunião em uma hora. Vai se trocar.”
Juliana ainda olhava para Maria.
Mas saiu.
Quando ela sumiu no corredor, Renata ficou parada por alguns segundos.
E então falou baixo.
“Você não deve criar interpretações aqui dentro.”
Maria respondeu.
“Eu não criei nada. Só vi uma foto.”
Renata se aproximou lentamente.
“Você está aqui para trabalhar, não para pensar.”
Maria sentiu algo estranho naquele momento.
Não era apenas ordem.
Era medo.
Medo dela ver alguma coisa.
Mais tarde, Maria foi enviada para limpar o escritório inferior da casa.
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Um espaço raramente usado.
Cheio de arquivos antigos.
E silêncio pesado.
Enquanto organizava papéis, encontrou outra pasta.
Sem etiqueta.
Abriu.
Dentro havia registros antigos da família Ribeiro Valente.
E mais uma foto.
Juliana.
E novamente… a mesma pessoa ao lado.
Maria.
Ou alguém muito parecida com ela.
Ela congelou.
“Isso não faz sentido…”
As mãos começaram a tremer.
E pela primeira vez, ela não conseguiu controlar a emoção.
No andar de cima, Renata observava Maria de longe através da câmera interna da casa.
Ela não parecia surpresa.
Apenas preocupada.
Mas não com o passado.
Com o que ainda poderia ser lembrado.
Naquela noite, Juliana desceu até a cozinha sozinha.
Encontrou Maria lavando louça.
Parou atrás dela.
“Você trabalha demais.”
Maria se virou.
“É meu trabalho, senhora…”
Juliana franziu a testa.
“Eu já disse para não me chamar assim.”
Silêncio.
Juliana ficou olhando para ela por alguns segundos.
Mais tempo do que o normal.
“Você já esteve em algum outro lugar antes de trabalhar aqui?”
Maria congelou.
O coração acelerou.
“Não… eu sempre trabalhei com limpeza.”
Juliana não pareceu convencida.
“Engraçado. Às vezes você parece… familiar.”
Maria sentiu o corpo inteiro travar.
A palavra bateu fundo.
Familiar.
Ela quase falou.
Quase.
“Porque eu sou…”
Mas engoliu.
Juliana se virou para sair.
Mas parou antes.
“Renata disse que você chegou aqui há pouco tempo. Mas você sabe demais sobre a casa.”
Maria respondeu baixo.
“Eu só observo.”
Juliana olhou por cima do ombro.
“Observa demais.”
E saiu.
Maria ficou sozinha na cozinha.
A água ainda correndo.
As mãos ainda molhadas.
Mas agora tremendo.
No escritório superior, Renata fechou uma gaveta com força.
E falou ao telefone em voz baixa.
“Ela viu a foto.”
Pausa.
“Sim… a da infância.”
Outra pausa.
O rosto dela endureceu.
“Não. Ainda não lembra.”
Silêncio.
E então:
“Mas está perto demais.”
Naquela mesma noite, Maria voltou ao quarto pequeno dos funcionários.
Abriu sua bolsa.
Pegou o colar antigo.
Olhou por muito tempo.
E pela primeira vez…
não conseguiu mais ter certeza se aquilo era só um objeto.
Lá fora, na mansão silenciosa, Juliana também não conseguia dormir.
Sem saber por quê.
Sem entender a inquietação.
Sem imaginar que, naquela mesma casa…
duas vidas estavam começando a se encostar perigosamente em algo que nenhuma das duas ainda conseguia nomear.
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