"A Mãe Esquecida" PARTE 3
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O sol daquela manhã em São Paulo entrava fraco pelas janelas altas da mansão Ribeiro Valente, mas dentro da casa o ar parecia pesado, quase imóvel.
Maria Aparecida de Souza já estava de joelhos no chão frio de mármore do corredor principal, esfregando com um pano úmido que parecia nunca terminar de limpar a sujeira invisível daquela casa perfeita demais.
Ela já não contava mais as horas.
O corpo doía, mas não tanto quanto aquele vazio estranho no peito, que crescia desde o dia anterior. Um vazio sem nome, como se algo importante tivesse sido perdido há muito tempo, mas ninguém tivesse avisado.
Juliana desceu as escadas com o celular na mão, falando baixo com alguém da empresa. Usava um blazer elegante, o cabelo preso com perfeição, e nem sequer olhou para Maria no chão.
“Sim, eu já estou a caminho. Não posso me atrasar para a reunião no Itaim.”
Ela parou por um segundo no corredor, viu Maria de relance e falou sem emoção.
“Isso ainda não terminou?”
Maria levantou um pouco o rosto.
“Estou quase acabando, senhora.”
Juliana franziu a testa.
“Não me chama de senhora.”
Maria hesitou.
“Desculpa… Juliana.”
A jovem não respondeu. Apenas passou por ela como se aquilo não tivesse importância nenhuma.
Na cozinha, o cheiro de café forte e pão fresco preenchia o ambiente, mas não trazia conforto. Duas funcionárias mais novas cochichavam enquanto lavavam xícaras.
“Ela é nova aqui, né?” disse uma.
“Sim… mas tem algo estranho nela. Fica olhando demais pra Juliana.”
Maria fingiu não ouvir, mas cada palavra ficava presa nela como um espinho.
Quando entrou na sala principal para limpar os móveis de vidro, Maria ouviu risadas vindas do jardim. Juliana estava lá fora com investidores da empresa da família. Homens de terno caro, vozes altas, confiança fácil.
Maria ficou na porta, invisível.
Juliana apontou levemente na direção dela sem pensar.
“Essa é a funcionária nova da casa.”
Um dos homens riu.
“Casa grande assim sempre tem essas figuras simples.”
Outro completou:
“É o contraste que mantém tudo funcionando.”
Juliana sorriu.
Não defendeu.
Não corrigiu.
Só sorriu.
Maria sentiu o corpo endurecer.
Não era a primeira vez naquele dia que se sentia pequena demais para existir ali.
Mas era a primeira vez que isso doía de verdade.
Mais tarde, quando os visitantes foram embora, Juliana voltou para dentro da casa. Passou por Maria no corredor estreito.
Dessa vez, parou.
“Você não precisa aparecer quando tem gente aqui.”
Maria respondeu com cuidado.
“Eu estava apenas limpando, não queria atrapalhar.”
Juliana cruzou os braços.
“Você sempre fala demais para alguém da sua posição.”
Maria abaixou os olhos.
“Desculpa.”
Mas algo dentro dela começou a subir.
Ela tentou sair do corredor, mas Juliana continuou:
“Aliás, como você se chama mesmo?”
Maria congelou por meio segundo.
Era uma pergunta simples.
Mas doeu de um jeito estranho.
“Maria…”
Ela hesitou.
Como se aquele nome fosse mais pesado do que deveria ser.
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“Maria Aparecida.”
Juliana repetiu sem interesse.
“Certo.”
E já ia embora.
Mas Maria, sem perceber, deu um passo à frente.
E quase falou.
Quase.
“Juliana… eu…”
A voz travou.
Juliana virou o rosto.
“Você o quê?”
Silêncio.
Maria engoliu seco.
“Não é nada.”
Juliana revirou os olhos.
“Então não pare de me fazer perder tempo.”
E saiu.
Na cozinha, Maria ficou parada por alguns segundos sem se mover. O pano de limpeza escorregou das mãos dela.
Uma das funcionárias perguntou:
“Você está bem?”
Maria respondeu automaticamente:
“Sim… só estou cansada.”
Mas não era cansaço.
Era outra coisa.
Algo mais antigo.
Naquela tarde, Renata chamou Maria para organizar documentos no escritório secundário.
“Só arrume sem mexer no conteúdo,” disse ela, sem levantar a voz.
Maria assentiu.
“Sim, senhora.”
Renata corrigiu imediatamente:
“Não me chame assim. Aqui não existe ‘senhora’. Existe ordem.”
Maria abaixou a cabeça.
“Sim.”
Enquanto organizava as pastas, Maria viu um envelope parcialmente aberto.
Um nome chamou sua atenção.
Juliana de Souza Ribeiro.
E abaixo, um segundo nome antigo riscado.
Maria Aparecida de Souza.
O coração dela parou por um segundo.
“Isso…”
Ela tocou o papel.
E no mesmo instante ouviu passos.
Renata entrou rápido.
“O que você está fazendo?”
Maria soltou o papel imediatamente.
“Eu não… eu só estava organizando…”
Renata viu o envelope aberto.
O olhar dela mudou.
Frio.
“Você não toca nisso.”
Maria tentou explicar.
“Meu nome estava aí…”
Renata interrompeu imediatamente.
“Esqueça o seu nome.”
Silêncio pesado.
Mais tarde, Juliana entrou no escritório sem bater.
Viu Maria ali.
“Você ainda está aqui?”
Maria respondeu baixo.
“Sim, estou terminando.”
Juliana olhou para as pastas.
“Minha mãe disse para você não mexer em nada importante.”
Maria sentiu o impacto da palavra.
Minha mãe.
Ela quase falou de novo.
Quase.
“Juliana… você lembra de quando era pequena?”
Mas segurou.
A frase morreu antes de nascer.
Juliana franziu a testa.
“Do que você está falando?”
Maria recuou.
“Nada. Desculpa.”
Juliana a observou por alguns segundos.
“Você é estranha.”
E saiu.
Maria ficou sozinha no escritório.
A mão tremia.
Ela abriu a pasta de novo.
Olhou o nome riscado.
E algo dentro dela começou a quebrar lentamente.
Naquela noite, Juliana estava no quarto olhando o teto, sem conseguir dormir. Não sabia por quê, mas o rosto daquela funcionária insistia em voltar na mente.
Maria, lá embaixo, segurava o colar antigo com força.
E pela primeira vez, não conseguiu mais impedir o pensamento de crescer.
O nome que ela não tinha coragem de dizer.
A palavra que estava presa há anos dentro dela.
E que naquela casa ninguém parecia disposto a deixar sair.
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