"A Mãe Esquecida" PARTE 2
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O dia em São Paulo começou cinzento, com nuvens pesadas cobrindo o céu de Jardins como se a cidade também estivesse escondendo segredos antigos.
Maria Aparecida de Souza já estava de pé antes das seis, limpando silenciosamente o corredor da mansão dos Ribeiro Valente.
O som do pano molhado no mármore ecoava como um lembrete constante de que ali ela não era ninguém.
Ela passou pelo mesmo espelho dourado do hall e evitou olhar para o próprio reflexo. Não gostava do que via ali ultimamente. Algo nela parecia deslocado, como se a vida estivesse fora de lugar.
A porta da sala se abriu com força.
Juliana desceu as escadas com pressa, vestindo roupas de trabalho impecáveis. O celular na mão, os olhos fixos na tela. Ela nem percebeu imediatamente a presença de Maria.
“Você ainda está aqui?” Juliana perguntou sem levantar totalmente o olhar.
Maria segurou o pano de limpeza com mais força do que deveria.
“Sim, senhora. Estou terminando o corredor.”
Juliana finalmente olhou para ela. Um olhar rápido, frio, impaciente.
“Evite ficar no caminho. Hoje vai ter reunião importante.”
Maria assentiu.
“Claro.”
Mas algo dentro dela doeu quando ouviu aquela voz. Não era apenas autoridade. Era distância. Uma distância que não fazia sentido.
Renata apareceu logo em seguida, elegante como sempre, com uma pasta de documentos na mão.
“Juliana, não esqueça: depois da reunião você tem jantar com investidores no Itaim.”
Juliana suspirou.
“Eu sei, mãe.”
Maria congelou por um segundo ao ouvir aquilo.
Mãe.
A palavra atravessou seu peito como uma lâmina invisível.
Ela baixou o olhar imediatamente.
Na cozinha, Maria organizava louças enquanto duas funcionárias mais jovens comentavam sobre a rotina da casa.
“Essa família Ribeiro é cheia de regras estranhas,” disse uma delas.
“Principalmente sobre o passado,” respondeu a outra em voz baixa.
Maria ouviu, mas não perguntou nada.
Mesmo assim, a palavra “passado” ficou presa na mente dela.
Mais tarde, enquanto limpava o escritório, Maria encontrou uma caixa de arquivos parcialmente aberta. Não deveria mexer. Sabia disso. Mas algo a puxava em direção àquilo como se suas mãos não obedecessem sua mente.
Dentro havia documentos antigos.
Nomes.
Assinaturas.
Relatórios médicos.
E então ela viu.
Seu próprio nome.
Maria Aparecida de Souza.
O papel tremia nas mãos dela.
“Isso… isso é meu…”
Ela tentou ler mais, mas passos no corredor a fizeram fechar a caixa rapidamente.
Juliana entrou no escritório sem bater.
“Você mexeu nas minhas coisas?”
A voz veio cortante.
Maria se virou assustada.
“Não, eu só estava limpando e…”
Juliana viu a caixa mal fechada.
O olhar dela endureceu.
“Eu falei para não tocar em nada aqui.”
Maria deu um passo para trás.
“Eu não queria causar problema. Desculpa.”
Juliana respirou fundo, irritada.
“Regras são simples nesta casa. Funcionários não mexem em arquivos. Nunca.”
Maria hesitou.
Mas algo dentro dela não conseguiu ficar em silêncio.
“Eu vi meu nome ali.”
O ar pareceu mudar.
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Juliana parou por um segundo.
“Como?”
Maria engoliu seco.
“Maria Aparecida de Souza. Estava naquele documento.”
Juliana fechou o rosto imediatamente.
“Isso não é da sua conta.”
Renata apareceu na porta do escritório naquele exato momento.
Ela não parecia surpresa.
Só incomodada.
“Juliana, o que está acontecendo aqui?”
Juliana apontou para Maria.
“Ela estava mexendo em arquivos pessoais.”
Renata olhou para Maria com frieza controlada.
“Você não deve entrar nesse escritório sem permissão.”
Maria tentou explicar.
“Eu não estava procurando nada, eu só vi meu nome…”
Renata interrompeu imediatamente.
“Esqueça isso.”
Maria ficou em silêncio por alguns segundos.
Mas o peso no peito dela aumentava.
“Meu nome estava ali. Eu tenho direito de saber…”
Juliana deu uma risada curta, sem humor.
“Direito? Você é funcionária. Não confunda coisas.”
Essas palavras atingiram Maria com força.
Ela respirou fundo, tentando não chorar.
Mais tarde, no corredor vazio, Maria ficou parada olhando para as próprias mãos.
Elas tremiam.
Não era cansaço.
Era outra coisa.
Uma sensação antiga, profunda, como se algo dentro dela estivesse tentando despertar.
Ela fechou os olhos por um instante.
E viu uma imagem rápida.
Uma menina pequena correndo.
Uma voz chamando alguém.
Mas tudo desapareceu antes de se formar.
Na sala de jantar, Juliana e Renata discutiam negócios.
Maria passava discretamente servindo água.
Juliana a ignorou completamente.
Mas Renata observava cada movimento dela.
Como se estivesse avaliando um risco.
“Essa funcionária é eficiente?” um dos investidores perguntou durante o jantar.
Renata sorriu educadamente.
“Sim. Discreta. É o que importa.”
Maria ouviu a frase e sentiu algo estranho.
Discreta.
Como se sua existência precisasse ser invisível.
Depois do jantar, Maria foi chamada novamente à cozinha.
Uma das funcionárias mais novas cochichou:
“Você devia tomar cuidado. Essa casa não gosta de perguntas.”
Maria respondeu baixo:
“Eu não estava perguntando nada.”
Mas nem ela acreditava completamente nisso.
Naquela noite, enquanto limpava o chão da sala principal, Maria viu Juliana sozinha no sofá.
Ela não estava no celular.
Estava olhando para o vazio.
Por um segundo, parecia vulnerável.
Quase humana.
Maria parou de limpar.
Juliana percebeu a presença dela.
“Por que você está me olhando assim?”
Maria hesitou.
“Você parece cansada.”
Juliana franziu a testa.
“Não fale comigo como se me conhecesse.”
O silêncio entre as duas ficou pesado.
Maria respirou fundo.
“Eu não estou tentando incomodar. Só achei…”
Juliana interrompeu.
“Você não acha nada aqui.”
Maria baixou o olhar novamente.
Mas antes de sair, algo escapou de sua boca.
“Você sempre foi assim comigo?”
Juliana levantou o olhar imediatamente.
“Com você?”
O tom mudou.
Mais frio.
Mais duro.
Maria percebeu o erro.
“Desculpa… eu quis dizer…”
Mas Juliana já tinha se levantado.
“Você não sabe nada sobre mim.”
Ela passou por Maria sem olhar de novo.
E naquele instante, Maria sentiu uma dor estranha no peito.
Não era apenas humilhação.
Era outra coisa.
Algo mais profundo.
Como se aquela rejeição tivesse raízes que ela não conseguia alcançar.
Na cozinha, mais tarde, Renata encontrou Maria sozinha.
“Você está criando problemas sem perceber.”
Maria respondeu com voz baixa:
“Eu só quero entender…”
Renata se aproximou.
“Entender o quê?”
Maria hesitou.
“Quem eu sou aqui.”
Renata ficou em silêncio por um segundo.
Depois respondeu com frieza controlada:
“Você é funcionária. Nada mais.”
Mas ao sair da cozinha, Maria ficou parada.
O coração acelerado.
O nome dela ainda ecoando na mente.
Maria Aparecida de Souza.
Como se aquele nome não fosse apenas uma identificação.
Mas uma porta trancada que alguém não queria abrir.
E em algum lugar daquela casa silenciosa, Juliana também não conseguia dormir.
Sem saber por quê.
Como se algo esquecido estivesse tentando voltar.
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