"Auditoria de Sangue" Capítulo 13
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Capítulo 13: A Liquidação do Marido
O relógio marcava três da manhã quando Valentina atravessou o corredor que levava ao ateliê, seus passos soando como marteladas em uma câmara de tortura.
O ar estava pesado, carregado com o cheiro residual de óleos, solventes e a mentira que ela deixaria para trás naquela noite de acerto de contas.
Ao empurrar a porta, ela encontrou Murilo sentado em um banquinho de madeira, mergulhado na penumbra e na confusão de sua própria ruína iminente.
Ele ergueu os olhos, ainda tentando formular uma desculpa, mas o olhar que recebeu de volta era tão frio que qualquer palavra morreu antes de nascer.
Valentina não proferiu um único insulto, nem elevou o tom de voz; a verdadeira punição, como ela bem sabia, residia na indiferença absoluta.
Ela caminhou até o cavalete onde uma tela inacabada esperava por toques finais e despejou, sobre a superfície úmida da pintura, um maço de fotografias que documentavam com detalhes humilhantes a traição.
"Você violou todas as cláusulas do nosso pacto, Murilo, e aqui está o resultado do seu baixo desempenho como parceiro", disse ela, jogando também um envelope timbrado sobre a tinta azul ainda fresca.
"Esta é a notificação de cancelamento imediato do fundo médico que custeava o tratamento da sua mãe, uma cortesia que você não merece mais manter."
Murilo levantou-se num salto, as mãos sujas de tinta tremendo enquanto ele tentava segurar os papéis que provavam o fim de seu conforto e a condenação de sua família.
"Você não pode fazer isso, Valentina, nós temos uma história, temos anos de vida compartilhada que não podem ser descartados como um erro em um balanço!", ele clamou, a voz falhando em um desespero absoluto.
Valentina deu um passo em direção a ele, reduzindo o espaço com uma aura de autoridade que fazia o artista parecer uma criatura diminuta e sem substância.
"A nossa história é apenas uma nota de rodapé irrelevante em um ativo podre e depreciado que eu estou liquidando agora mesmo", respondeu ela, tratando-o com a frieza de uma máquina que descarta uma peça sem serventia.
Ele tentou agarrar seu braço, implorando por uma chance de explicar, de reverter o que ele ainda chamava de "um lapso de julgamento".
Valentina soltou uma risada curta, desprovida de qualquer emoção, e olhou para ele como se estivesse observando um inseto sob um microscópio.
"Você está demitido da minha vida, Murilo, e a sua saída será feita com a mesma dignidade que você demonstrou enquanto se escondia atrás de uma babá barata", sentenciou ela, empurrando-o com um desprezo contido que o fez recuar até bater contra a parede.
Ele caiu de joelhos, a imagem do pintor talentoso sendo substituída pela face patética de um homem que perdera o chão, o status e a proteção da rainha.
"Por favor, o perdão não custa nada, eu faço qualquer coisa para manter o fundo da minha mãe, eu imploro pelo seu perdão!", ele soluçava, agarrando a bainha de sua saia com dedos sujos de pigmentos caros.
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Valentina sentiu um asco visceral pela cena, a fragilidade emocional do marido confirmando que ela nunca amara um homem, mas sim a ilusão de um companheiro que nunca existira.
"O seu perdão não tem valor de mercado, e o seu desespero é apenas o ruído de uma liquidação que já foi decretada", ela afirmou, puxando a perna com um movimento seco e elegante para se livrar do toque de suas mãos.
Ela não se deu ao trabalho de olhar nos olhos dele, pois não havia mais nada ali que merecesse sua atenção ou análise.
Ela caminhou até a saída com a mesma compostura de quem sai de uma reunião bem-sucedida, deixando o homem aos prantos no centro do caos que ele mesmo ajudara a criar.
Enquanto atravessava a soleira da porta, o som de seu salto alto marcava o fim definitivo daquela união que, para ela, não passava de um contrato descumprido.
"Espero que os pincéis que sobraram sejam suficientes para pagar a sua nova vida, porque a minha porta está trancada para sempre", disse ela, sem olhar para trás.
Com um gesto firme, Valentina puxou a porta pesada de madeira e girou a chave no trinco, trancando o ateliê por fora e confinando o artista em seu próprio estúdio de desespero.
Murilo correu para a porta, batendo inutilmente na madeira maciça enquanto o silêncio da mansão absorvia seus gritos como se eles nunca tivessem existido.
Valentina parou por um instante no corredor, ajustando o cabelo diante de um espelho de parede, e sorriu ao notar a calma impecável de sua expressão.
"Liquidação concluída, balanço limpo", sussurrou ela para a escuridão, seguindo em direção ao seu quarto para uma noite de sono tranquilo.
Lá dentro, Murilo gritava, mas ela já não o ouvia; o marido tornara-se uma variável nula em seu algoritmo de poder.
O confinamento era apenas o começo, pois ela se certificaria de que ele não tivesse meios de sair daquela clausura até que todos os documentos legais fossem assinados sob o peso da falência financeira.
Ela não sentia remorso nem culpa, apenas a satisfação estéril de quem removeu um tumor indesejado de seu organismo corporativo.
A mansão de vidro parecia mais brilhante com a eliminação daquela mancha de mediocridade, a luz das estrelas refletindo nas janelas como um banquete de sucesso.
O ateliê, agora transformado em cela, guardaria os segredos de um pintor que esqueceu que a sua musa era, na verdade, sua própria juíza.
Valentina desceu as escadas, sua mente já desenhando os próximos passos para lidar com o parasita que restava no andar de cima.
O destino de Naiara estava traçado, e a liquidação do marido era apenas a garantia de que a execução seria executada sem interrupções ou interferências sentimentais.
A noite parecia prometer um amanhecer sem nuvens, onde a ordem seria restaurada e a fraqueza seria definitivamente banida daquele palácio.
Valentina Albuquerque retomara o trono de sua própria vida, e qualquer um que ousasse desafiar essa hegemonia pagaria o preço total em ativos, dignidade e destino.
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