"Auditoria de Sangue" Capítulo 7
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Capítulo 7: O Teatro das Duas da Manhã
O relógio de parede no escritório marcava precisamente duas da manhã quando o silêncio da mansão foi rompido por um sussurro quase inaudível.
Valentina, que mal conseguira cerrar os olhos naquela noite de caça, despertou instantaneamente com os sentidos aguçados como lâminas de barbear.
Ela deslizou para fora dos lençóis de linho egípcio com uma elegância silenciosa, caminhando descalça pelo mármore gélido que parecia exalar uma energia sinistra sob a luz do luar. Seus passos eram felinos, calculados para não emitir um único decibél que denunciasse sua presença naquele corredor escuro.
Uma linha de luz dourada escapava por baixo da porta do banheiro principal da suíte, um cômodo que deveria estar vazio àquela hora da madrugada. Valentina parou diante da madeira sólida, sentindo um arrepio percorrer sua espinha enquanto ouvia uma voz que ela reconheceria em qualquer lugar do mundo.
Era a sua própria voz, mas havia algo distorcido na cadência, um eco de perfeição milimétrica que desafiava a própria natureza da realidade. Valentina inclinou a cabeça levemente para o lado, sentindo uma fúria incandescente queimar sua caixa torácica, mas sua mente cirúrgica selou a emoção, forçando-a ao autocontrole absoluto.
Ela empurrou a porta apenas o suficiente para que seu olho pudesse captar o reflexo no espelho sem ser notada pela ocupante do banheiro.
O que ela viu foi um pesadelo arquitetado em seda e loucura: Naiara estava diante do espelho, vestindo a camisola de seda que Valentina reservara para a gala anual da holding.
A babá movia os braços com uma precisão robótica, imitando cada gesto, cada inclinação de cabeça e cada expressão que a própria Valentina utilizava diante dos investidores da Faria Lima.
Não era apenas uma imitação barata; era uma performance obsessiva de uma mulher que estivera estudando cada fibra da existência de Valentina.
Naiara começou a falar para o reflexo, e as palavras que saíram de sua boca foram o golpe final na sanidade que Valentina ainda tentava manter. "Obrigada a todos por esta confiança renovada; a partir de hoje, eu assumo o controle total e gerencio os fundos Albuquerque", ela dizia com uma voz que replicava a autoridade fria da CEO.
Valentina sentiu o sangue pulsar em seus ouvidos enquanto observava a parasita ensaiar o futuro que ela acreditava ter roubado.
A loucura de Naiara não era um surto momentâneo, mas um projeto metódico de substituição de identidade que fazia o estômago de Valentina revirar de puro horror psicológico.
"Como você se atreve a habitar a minha voz?", sussurrou Valentina em um pensamento que reverberou como um trovão dentro de sua própria mente. Ela observou Naiara ajustar um colar de pérolas que pertencera à mãe de Valentina, sorrindo para o espelho com um brilho insano que emanava das profundezas de sua alma corrompida.
A performance continuava, uma peça de teatro particular encenada para uma plateia de fantasmas, enquanto Naiara girava e fazia uma reverência imaginária para uma multidão de acionistas inexistentes.
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A habilidade de Naiara em replicar a essência da empresária era tão aterradora que Valentina, por um breve segundo, sentiu-se como a estranha em sua própria casa.
"A sucessão está completa, eu sou a nova era, eu sou a dona deste império de vidro", declarou Naiara para o espelho, soltando uma risada gutural que desfez qualquer ilusão de inocência camponesa.
Valentina permaneceu oculta na escuridão total do corredor, observando cada movimento da parasita com olhos de quem já decretara uma sentença de morte.
Cada gesto de Naiara era uma ofensa, cada palavra proferida por aqueles lábios finos era um crime que exigia uma punição que a lei comum não seria capaz de oferecer.
Valentina percebeu que Naiara não queria apenas o dinheiro ou o status da família; ela queria apagar Valentina do mundo e ocupar o espaço vazio que sobraria.
O pavor de ter sido invadida naquele nível era sufocante, mas a inteligência de Valentina já estava processando os dados, transformando a descoberta em um plano de erradicação.
Ela observava a mulher que tentava roubar sua vida, sentindo uma satisfação sombria por ter flagrado a parasita em seu momento mais vulnerável e narcisista.
"Você acha que pode ser eu, mas você é apenas uma sombra que será deletada na primeira luz do dia", pensou Valentina, enquanto cruzava os braços sobre o peito e inclinava o corpo para a frente.
O silêncio do corredor parecia agora uma câmara de execução, onde a próxima fala não viria do espelho, mas das sombras que a observavam.
Ela viu Naiara passar as mãos pelo rosto, moldando as maçãs para que ficassem mais angulares, como se tentasse esculpir sua própria carne para se assemelhar à da patroa. Era um espetáculo de horrores que nenhum BookTok seria capaz de captar, uma demonstração de parasitismo puro que gelava a alma de qualquer observador.
"Eu vou te dar a sua performance, Naiara, mas o palco será muito mais frio do que você imagina", murmurou Valentina, quase deixando a frase escapar por entre os dentes cerrados.
Ela não atacou, não entrou no banheiro para confrontar a invasora; ela preferiu assistir até o fim, absorvendo cada detalhe do teatro para garantir que, quando o golpe viesse, não houvesse chance de defesa.
Valentina deu um passo para trás, retirando-se da fresta da porta enquanto a voz de Naiara continuava a ecoar dentro da suíte, ensaiando discursos de falência e glória.
A CEO caminhou de volta para o escuro do corredor, sua mente funcionando a uma velocidade que transcendia qualquer moralidade, pronta para traçar as linhas finais do destino daquela intrusa.
"Amanhã, quando o sol tocar este vidro, o seu teatro terá um final que você jamais previu", declarou Valentina para o silêncio da mansão.
Ela não tinha mais dúvidas sobre a necessidade de agir; a variável de risco havia se tornado uma ameaça existencial, e o jogo de xadrez estava prestes a sofrer um xeque-mate impiedoso.
Enquanto a luz do banheiro continuava acesa, revelando as silhuetas de uma vida roubada contra a parede, Valentina preparava o terreno para a purgação.
A mansão estava silenciosa, mas no centro daquela paz artificial, o predador finalmente se levantara, com os dentes cravados na sobrevivência de sua própria linhagem.
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