"Auditoria de Sangue" Capítulo 6
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Capítulo 6: A Suspeita em Silêncio
O jato executivo da família Albuquerque tocou o solo de Guarulhos sob uma neblina espessa, trazendo Valentina de volta de sua cruzada vitoriosa em Wall Street.
A empresária, com seu terno cinza-chumbo cortado a laser, caminhava pelo saguão com a mesma precisão cirúrgica que aplicava em suas operações de fusão e aquisição.
Ao cruzar o limiar de sua mansão de vidro, Valentina sentiu uma mudança sutil na atmosfera, uma vibração que apenas um predador no topo da cadeia alimentar poderia captar. Ela não desfez a mala, nem pediu um drink; seus olhos, afiados como bisturis, começaram a escanear cada centímetro daquele santuário de ordem absoluta.
Ela subiu as escadas em silêncio, sua audição aguçada captando o som abafado de uma risada vinda do corredor leste.
Valentina caminhou até seu closet principal, onde a simetria era sua lei suprema, e parou diante do cabideiro que abrigava sua coleção exclusiva de peças Chanel.
O terno vintage que Naiara vestira dias antes estava lá, mas seu instinto detectou uma falha milimétrica: o cabide de madeira clara estava inclinado exatamente dois graus fora de sua posição original.
Valentina aproximou-se, sentindo o ar com um movimento imperceptível da cabeça, e detectou um rastro fantasmagórico de um hidratante de leite barato, uma fragrância que não pertencia ao seu ambiente.
"Algo está fora de lugar aqui, como um número que não fecha no balanço final", murmurou ela para si mesma, a voz destilando um veneno gelado.
Ela não se enfureceu; a fúria era um desperdício de energia, e Valentina era uma estrategista que preferia dissecar seus adversários em vez de apenas destruí-los.
Saindo do closet, ela caminhou em direção à porta do ateliê de Murilo, onde o som de vozes em sintonia a aguardava.
Através de uma pequena fresta na folha de madeira, ela observou a cena: Murilo e Naiara estavam próximos demais, rindo baixo com uma intimidade que o marido jamais demonstrara por ela.
A cena era patética aos olhos de Valentina, uma demonstração clara de amadores que não compreendiam a teia de aranha na qual haviam se envolvido.
Murilo, com suas mãos manchadas de tinta, exalava uma culpa tão evidente que a esposa quase sentiu náuseas de sua fragilidade patética.
"Parece que o meu ativo biológico e o meu artista encontraram uma forma de passar o tempo durante a minha ausência", pensou ela, mantendo a face inexpressiva como uma máscara de mármore.
Valentina recuou um passo e seguiu para seu escritório privado, onde a tecnologia de segurança centralizava o controle de toda a propriedade.
Ela acessou o terminal de monitoramento para puxar as gravações dos últimos três dias, querendo ver a sequência exata de cada movimento realizado.
No entanto, sua tela exibiu apenas uma mensagem de erro em letras vermelhas: o sistema de câmeras internas havia sofrido um "apagão de manutenção" de duas horas.
"Manutenção programada sem a minha autorização direta? Esse é um erro de principiante que custará caro a alguém", declarou, seus olhos verdes estreitando-se em um foco de absoluta vigilância. O duelo de inteligência tinha início ali, e ela sentia um prazer sádico em caçar os invasores que acreditavam estar operando no escuro.
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Valentina sentia a necessidade de agir, mas não com um confronto direto que revelasse suas cartas antes da hora. Ela cravou as unhas impecavelmente manicuradas na própria palma da mão, usando a dor física para manter a mente focada no objetivo final de sua limpeza.
Um sorriso frio, desprovido de qualquer calor humano, floresceu em seus lábios enquanto ela puxava o smartphone de seu bolso.
Ela discou o número do Dr. Sampaio, o advogado de confiança da família Albuquerque e o único homem capaz de gerenciar a podridão que os cercava sem nunca vacilar.
"Dr. Sampaio, preciso que o senhor inicie uma investigação privada em caráter de urgência máxima sobre a minha residência", ordenou ela, com a autoridade de quem dita o destino de mercados inteiros.
Do outro lado da linha, o advogado, um homem rígido que herdara o código de lealdade e silêncio dos Albuquerque, apenas confirmou a ordem.
"Entendido, dona Valentina, começarei a monitorar as contas bancárias externas e os movimentos de pessoal imediatamente", respondeu ele, sua voz soando como o fechamento de um cofre.
"Nenhum detalhe será omitido e a discrição será absoluta para garantir que não haja vazamentos antes do tempo."
"Quero saber exatamente o que aconteceu durante o apagão das câmeras e o que está sendo negociado pelas minhas costas", completou ela antes de encerrar a chamada. Valentina desligou o aparelho e observou a chuva castigar os vidros, sentindo-se novamente no controle total daquela partida de xadrez doméstico.
Ela sabia que Murilo era apenas um peão facilmente descartável, mas a babá — aquela criatura cheirando a leite — representava uma variável de risco que precisava ser eliminada. A mansão estava silenciosa, mas Valentina podia ouvir o som dos dentes do predador se fechando ao redor de suas presas.
"Você cometeu o seu primeiro erro grave, Naiara, ao acreditar que poderia esconder o seu cheiro nas minhas roupas", sussurrou a CEO para o vazio do escritório. Ela começou a preparar os documentos de rescisão contratual e os termos de confidencialidade que, na verdade, seriam apenas os primeiros capítulos de uma sentença de ruína.
A guerra parasitária, que até então ocorria nas sombras, estava prestes a entrar em uma fase de purgação violenta e calculada. Valentina, com seu gelo habitual, começou a listar as fraquezas de seus oponentes, pronta para garantir que, ao final do próximo ciclo, a ordem fosse restaurada.
"Vamos ver quanto tempo o seu pacto de silêncio sobrevive quando o mundo ao seu redor começar a desmoronar", concluiu ela, fechando o laptop e olhando para o corredor por onde seu marido caminhava.
Ela estava pronta para o banquete da vingança, e as peças de seu jogo já estavam perfeitamente posicionadas no tabuleiro.
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