"Auditoria de Sangue" Capítulo 4
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Capítulo 4: A Primeira Linha Cruzada
A ausência de Valentina sempre deixava uma névoa de silêncio denso e pesado sobre a mansão de vidro, mas naquela primeira semana o vazio parecia quase tátil nos corredores.
A CEO cruzara o Atlântico em seu jato executivo para resolver uma crise abrupta em um fundo de investimentos em Nova York, deixando para trás uma fortaleza sem rainha, mas ainda assombrada por suas regras invisíveis.
"A patroa ligou de Manhattan para saber se o cronograma de alimentação foi seguido à risca", comentou a governanta na cozinha, enquanto organizava as bandejas de prata com gestos mecânicos.
Naiara apenas sorriu de forma mansa enquanto segurava o pequeno Léo e respondeu: "Diga a ela que o bebê não chorou uma única vez no meu colo, dona Marta; ele sabe quem realmente cuida dele."
Sem a vigilância daquela presença imperial, o ar-condicionado parecia menos gélido e os limites que separavam os moradores da criadagem começaram a se diluir nas sombras dos corredores.
Após um banho demorado na suíte de hóspedes, onde usara os sais de banho importados que pertenciam à patroa, Naiara caminhou descalça pelo mármore polido até o closet principal de Valentina.
O ritmo dentro daquele espaço transformou-se instantaneamente, assumindo uma cadência lenta, carregada de voyeurismo e de uma tensão de alta temperatura que remetia a um tabu insustentável.
Com uma lentidão meticulosa que roçava a profanação, ela abriu a capa protetora de linho cru e revelou a joia da coroa da coleção: o terno Chanel vintage preto de Valentina.
"Você fica muito melhor vestida com o poder dela do que carregando os panos sujos do berçário, sabia?", murmurou uma voz rouca e trêmula vinda da penumbra do corredor.
Era Murilo, que caminhava sem rumo segurando um copo de uísque, paralisado diante da fresta da porta ao testemunhar a babá deslizar os braços pelas mangas de seda pura.
Naiara não se assustou; ela fechou os botões de filigrana dourada um a um e olhou para o reflexo de Murilo no espelho, provocando-o com um brilho insano nos olhos: "O senhor acha mesmo, seu Murilo? Eu acho que a sua esposa não ficaria nada feliz se soubesse que o seu artista preferido está me assistindo trocar de roupa no santuário sagrado dela."
"Ela não está aqui, Naiara... Valentina nunca esteve realmente aqui conosco nesta casa", respondeu ele, a voz falhando e revelando o transe hipnótico e a quebra de seus últimos escrúpulos morais.
Ele deu um passo vacilante para dentro do closet, os olhos fixos no contraste perverso entre os pés descalços da jovem e a opulência fria do traje de alta costura.
"Uma peça de museu legítima, não é?", perguntou a jovem do interior, desfazendo os botões com uma lentidão calculada que fazia o tecido escorregar pelos ombros, revelando-se nua antes de pegar um vestido de seda líquida.
"Sabe, seu Murilo, eu li nas revistas da sua esposa que este vestido foi feito sob medida para celebrar o primeiro bilhão da holding Albuquerque."
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"Você não deveria saber tanto sobre o passado dela, isso não estava nos relatórios de contratação que a segurança enviou", alertou o pintor, embora sua garganta estivesse seca de puro desejo e fascínio proibido.
Naiara soltou uma risada baixa, quase infantil, enquanto ajustava a seda fina contra o próprio corpo ainda quente e úmido pelo banho: "Eu sei tudo sobre ela, seu Murilo; inclusive as falhas que ela esconde atrás desse terno."
"Cale a boca...", implorou ele sem nenhuma autoridade real, dando mais um passo enquanto o aroma de leite doce e juventude de Naiara engolia o cheiro de cedro do ambiente.
"Se ela descobrir que você tocou nessas roupas, o contrato de um milhão de dólares vira poeira e você vai parar atrás das grades em um piscar de olhos."
"Mas ela não vai descobrir, porque o senhor não vai contar uma única palavra para ela, vai?", desafiou ela, aproximando-se com a audácia de um predador que já domina sua presa.
Ela colou o corpo vestido com a seda de Valentina contra o peito trêmulo do artista, sussurrando: "Guarde o meu segredo e eu continuo sendo a sua ovelha dócil, mas se contar, eu direi a ela que você me incentivou."
Murilo sentia o suor frio brotar em sua testa, o copo de uísque esquecido em seus dedos que tremiam levemente sob o impacto daquela sensualidade profana e perigosa.
"Você é perigosa, Naiara, muito mais do que imaginei quando a vi pela primeira vez naquela sala de espera", admitiu ele em um sopro de voz, fechando os olhos ao sentir o roçar da seda líquida contra seu terno de alfaiataria.
"Eu sou apenas o frasco perfeito para o seu futuro, seu Murilo", rebateu a jovem psicopática, afastando-se com um andar altivo que imitava perfeitamente a postura imperial da empresária.
Ela voltou-se para o espelho de corpo inteiro, ignorando a presença do homem que acabara de converter em seu cúmplice definitivo naquela usurpação.
"Amanhã eu quero que o senhor me pinte usando este vestido aqui no ateliê, enquanto a casa estiver vazia", ordenou ela, transformando a dinâmica de poder da casa com a naturalidade de quem assume um trono vago e sem dono.
Murilo permaneceu estático nas sombras, observando-a alisar o tecido contra as curvas e sentindo a garganta secar por completo diante do sorriso assimétrico e vitorioso que ela exibia no reflexo.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pela respiração pesada do pintor e pelo barulho do tecido de seda deslizando sobre a pele da jovem.
Naiara começou a girar diante do espelho, os braços abertos como se estivesse recebendo um aplauso de uma plateia invisível que ocupava as sombras daquele closet opulento.
Ela parecia estar canalizando a alma da patroa, apropriando-se de cada gesto, de cada inclinação de cabeça e de cada olhar arrogante que Valentina projetava nos conselhos de administração.
Murilo, por sua vez, sentia que estava assistindo a um crime cometido contra a realidade, um ato de profanação que, estranhamente, o fazia sentir-se mais vivo do que em qualquer dia do seu casamento.
"O senhor está me olhando como se visse um fantasma", provocou ela, virando-se bruscamente e encarando-o nos olhos com uma intensidade que o obrigou a recuar um passo.
"Ou será que o senhor está apenas descobrindo que, no fundo, é exatamente esse tipo de destruição que você sempre quis ver acontecer nesta casa?"
"Eu não sei o que você é, Naiara, mas sei que a partir de agora nada será como antes", respondeu ele, finalmente recuperando o fôlego, embora sua voz ainda soasse distante e oca.
Ela caminhou até ele, parando a centímetros de seu rosto, e passou a mão pelo colarinho de sua camisa, um gesto de intimidade que ele não teve coragem de rejeitar.
"Nós dois somos prisioneiros, seu Murilo, e o senhor sabe que a única forma de sair desta cela é destruindo a carcereira", sussurrou ela, com uma doçura ácida que carregava a promessa de um apocalipse doméstico.
Aquele momento, selado no closet luxuoso, marcou a primeira linha cruzada de uma guerra que não terminaria até que um dos lados fosse completamente erradicado da existência.
A mansão de vidro parecia vibrar com a energia daquela traição, as paredes blindadas tornando-se o palco onde o destino dos Albuquerque estava sendo reescrito palavra por palavra.
Naiara afastou-se, retirou o vestido com movimentos lentos e deixou-o cair no chão como se fosse uma pele morta, enquanto Murilo permanecia nas sombras, observando a silhueta da intrusa e sentindo sua garganta secar definitivamente.
O pacto de sangue estava feito, e a contagem regressiva para o retorno de Valentina começava ali, sob o olhar cúmplice de um marido que acabara de perder sua alma.
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