"Auditoria de Sangue" Capítulo 2
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Capítulo 2: O Frasco Perfeito
O silêncio que preenchia a mansão de vidro dos Albuquerque era tão imponente quanto a arquitetura minimalista projetada sobre as colinas arborizadas de São Paulo.
Grávida de nove meses, com o ventre proeminente esticando o tecido de seu vestido simples de algodão, Naiara cruzou o limiar da residência para iniciar o período de isolamento absoluto determinado pelo contrato.
Seus passos tímidos deixavam marcas sutis sobre o mármore importado, enquanto ela aspirava profundamente o aroma denso de cedro e cera cara que impregnava o ar-condicionado.
Com seus vinte e três anos e a pele morena exalando um cheiro natural de leite doce, ela mantinha os olhos baixos, simulando a submissão exata de uma jovem ingênua vinda do interior.
Do alto do mezanino, no ateliê de pintura de portas semiabertas, Murilo observava a chegada da jovem com uma melancolia que há muito sufocava sua criatividade.
Através das frestas e das telas inacabadas, ele sentiu um estalo no peito, uma identificação imediata e silenciosa com aquela mulher que acabara de entrar na mesma prisão de luxo.
"Acomode suas coisas nos aposentos de serviço ao fundo do corredor leste", ordenou Valentina, surgindo na sala principal como uma aparição gélida e impecável em seu terno de linho.
Ela não se aproximou de Naiara; sua distância física deixava claro o desprezo de classe que nutria pela mulher que carregava seu herdeiro biológico.
"Sim, dona Valentina, farei exatamente como a senhora mandar", respondeu Naiara, a voz mansa e levemente trêmula saindo como o balido de uma ovelha dócil. Ela fez uma pequena reverência com a cabeça, sustentando o olhar da bilionária por não mais que um segundo antes de recolher sua única mala de lona gasta.
"Os exames diários serão feitos às sete da manhã e você não deve circular pelas áreas sociais sem autorização prévia", continuou Valentina, consultando as horas em seu relógio de platina.
"O seu corpo pertence ao cumprimento deste cronograma até o momento da entrega do ativo, estamos entendidas?"
"Perfeitamente, senhora, eu sei muito bem o meu lugar nesta casa", murmurou a jovem, apertando a alça da mala contra os dedos miúdos.
Valentina apenas assentiu com um aceno mecânico e retirou-se em direção ao escritório, sem olhar uma segunda vez para a estrutura que servia de receptáculo ao seu legado.
Murilo desceu os degraus de vidro lentamente, esperando a esposa sumir no corredor oposto para se aproximar da jovem que permanecia estática no hall. O aroma de leite doce e juventude que emanava de Naiara chocou-se contra o cheiro opressivo de solvente e tinta a óleo que o artista carregava nas roupas.
"Seja bem-vinda, Naiara", disse ele, a voz soando mais calorosa do que pretendia, quebrando a frieza institucional que governava aquela mansão.
"Se precisar de qualquer coisa que os funcionários não possam resolver, por favor, não hesite em me procurar no ateliê."
"Muito obrigada, seu Murilo, o senhor é muito gentil com uma moça simples como eu", ela respondeu, erguendo os olhos castanhos salpicados de uma falsa inocência que desarmou o pintor.
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"É tudo tão grande e bonito aqui que tenho medo até de respirar muito forte e quebrar alguma parede."
"Não tenha medo, as paredes de vidro são blindadas, mas às vezes parecem espelhos que nos vigiam o tempo todo", desabafou ele, um sorriso amargo cruzando seus lábios.
Ele viu as bochechas dela corarem levemente e sentiu uma empatia secreta crescer, como se partilhassem o mesmo status de reféns da soberania de Valentina.
"O senhor também parece um pouco cansado desse vidro todo, se me permite a ousadia", comentou Naiara, ajustando o tecido do vestido sobre a barriga imensa.
"Minha avó dizia que casas muito limpas às vezes não têm espaço para a alma das pessoas respirar de verdade."
"Sua avó era uma mulher sábia, Naiara, há muito tempo não sinto o ar entrar direito nos meus pulmões", confessou o artista, olhando ao redor com um desalento crônico.
A barreira de classe sufocante parecia erguer-se entre os dois, mas a vulnerabilidade da grávida criava uma ponte perigosa na mente melancólica de Murilo.
"Eu vou rezar pelo senhor e pelo bebê todas as noites no meu quarto", prometeu ela, dando dois passos em direção ao corredor de serviço.
"Com a licença do senhor, preciso organizar o enxoval temporário antes que a patroa retorne para a inspeção de rotina."
Murilo permaneceu no centro do salão, observando a silhueta submissa desaparecer pela porta de madeira escura que separava o luxo da servidão. Ele sentia que Naiara trazia um calor humano que aquela fortaleza de mármore jamais conhecera, sem notar as correntes subterrâneas que começavam a se mover sob seus pés.
Ao entrar nos aposentos de serviço — um quarto minimalista, porém impecavelmente limpo —, Naiara trancou a porta com um clique suave e quase imperceptível. Ela caminhou até a cama de solteiro, colocou a mala de lona sobre o lençol branco e deslizou o zíper com uma lentidão meticulosa.
Evitando os itens de vestuário simples que trazia do interior, seus dedos ágeis alcançaram o fundo falso da mala, tateando a textura áspera de um papel antigo. Ela puxou uma pasta plástica preta, volumosa, recheada de recortes de jornais de economia, colunas sociais e entrevistas antigas que detalhavam cada passo da vida de Valentina Albuquerque.
Havia fotos da CEO em Wall Street, notas sobre a perda de seu útero para o câncer e até descrições minuciosas de suas preferências de vestuário e rotinas corporativas. Naiara acariciou a imagem do rosto de Valentina com a ponta do indicador, os olhos castanhos perdendo instantaneamente qualquer traço de timidez ou submissão camponesa.
A mente psicopática e obsessiva da jovem operava em um nível de detalhamento que os Albuquerque jamais seriam capazes de prever em seus contratos de um milhão de dólares.
Para ela, aquele quarto de empregada não era o fim de sua jornada, mas o camarim onde se prepararia para o espetáculo de sua vida.
Ela escondeu a pasta sob o colchão de molas, certificando-se de que nenhum vinco ficasse visível para a governanta ou para os sistemas de segurança da casa.
Em seguida, caminhou até o pequeno banheiro privativo e apagou a luz do teto, deixando o cômodo imerso em uma escuridão total, quebrada apenas pelos reflexos externos da cidade.
Naiara postou-se diante do espelho fixado acima da pia de cerâmica, permitindo que a penumbra moldasse os contornos de seu corpo transformado pela gestação. Suas mãos espalmadas subiram e acariciaram a barriga proeminente com uma lentidão febril, sentindo os movimentos sutis do herdeiro biológico da holding.
Olhando fixamente para o próprio reflexo borrado no vidro escuro, a face dócil da jovem do interior desmoronou por completo, revelando uma frieza assustadora.
Sob a penumbra dos aposentos de serviço, Naiara esboçou um sorriso assimétrico, largo e profundamente arrepiante, selando visualmente a promessa de que aquela mansão logo mudaria de dono.
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