"Instinto Proibido: Sim, Doutor. Não, Tio." Capítulo 8
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Capítulo 8: Ruína e Resgate
O zumbido constante do monitor do escritório de Dominic parecia mais agudo naquela manhã de chumbo, cortando a quietude minimalista da cobertura com uma urgência incômoda e metálica. Eu estava sentada na beirada da cama do quarto de hóspedes, com as mãos frias pressionando o tecido do meu moletom, quando a porta foi aberta sem qualquer aviso ou batida prévia.
A silhueta imponente do meu tutor preencheu o vão da entrada de forma avassaladora, projetando uma sombra longa e escura que alcançou os meus pés.
Seu rosto era uma verdadeira máscara de pedra esculpida, os olhos cinzentos reduzidos a duas fendas de puro gelo que faziam meu estômago despencar instantaneamente em um abismo de ansiedade.
Sem dizer uma única palavra inicial, ele caminhou até o centro do quarto com passadas firmes e calculadas, sua presença reduzindo o oxigênio do ambiente. Dominic parou bem diante de mim e estendeu a mão direita, abrindo os dedos para revelar um pequeno objeto despedaçado.
"Você achou mesmo que um celular pré-pago contrabandeado por um entregador de aplicativo seria o suficiente para burlar a minha rede de segurança privada, Antonia?", ele perguntou, a voz de barítono vibrando em uma calmaria perigosa que me deu calafrios na espinha.
Ele soltou o objeto, e os restos fragmentados do aparelho celular que eu havia conseguido escondido caíram sobre o tapete de design com um baque seco e definitivo.
"Eu só queria falar com alguém do mundo real, Dominic! Alguém que não fosse você, o Marcos ou as lentes daquelas malditas câmeras!", gritei de volta, levantando-me da cama em um ímpeto de coragem e desespero que evaporou assim que notei a rigidez absoluta da postura dele. "Eu tenho o direito de me comunicar com o exterior, você não pode me apagar da existência dessa forma!"
"O problema, minha querida, não é a sua necessidade infantil de se comunicar, mas a sua total incompetência para compreender o perigo que a cerca fora destas paredes", ele rebateu, dando um passo lento em minha direção, obrigando-me a recuar até que a parte de trás das minhas pernas batesse contra o colchão.
"A sua patética mensagem de socorro, enviada para um antigo contato de faculdade, foi interceptada em menos de dez minutos pela pior espécie de escória que o vício autodestrutivo do seu falecido pai deixou para trás."
O ar congelou nos meus pulmões enquanto eu processava a revelação, sentindo o suor frio começar a brotar na minha nuca.
"Do que você está falando? Quem interceptou a mensagem?", perguntei com a voz trêmula, a minha habitual fachada de rebeldia silenciosa sendo completamente triturada pelo medo genuíno que começava a tomar conta do meu peito.
"Um homem chamado Moretti acabou de ligar para o meu número privado de segurança", Dominic declarou, fixando aquele olhar clínico e implacável nas minhas pupilas dilatadas.
"Para o seu conhecimento, Moretti é o cobrador de dívidas clandestino mais cruel da máfia de jogos de azar de São Paulo, um indivíduo que o seu pai, Gael Ruiz, visitava com frequência antes de se cobrir de desonra e morrer. Ele achou que o seu texto desesperado era uma oportunidade de ouro para usar você como moeda de troca para reaver os milhões que o seu pai deixou em aberto."
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O nome Moretti fez meu sangue parar nas veias, trazendo de volta memórias de sussurros apavorados e choros abafados do meu pai no escritório de nossa antiga casa de família.
Lembrei-me dos telefonemas noturnos que faziam as mãos de Gael Ruiz tremerem tanto que ele mal conseguia segurar o copo de uísque, e das ameaças veladas de homens que sabiam exatamente onde eu estudava e quais eram os meus horários.
Aquele era o passado violento do qual eu tentava fugir, o submundo que havia arruinado a minha linhagem e que agora batia diretamente à minha porta por culpa do meu próprio descuido.
"Onde ele está? O que ele vai fazer comigo?", perguntei em um sussurro desarticulado, dando-me conta da gravidade do erro que eu havia cometido ao tentar mandar aquela mensagem de texto.
"O que ele ia fazer não importa mais, Antonia, porque você deve se preocupar apenas com o que eu já fiz", Dominic corrigiu com uma frieza inabalável, cruzando os braços sobre o peito monumental.
"Enquanto você dormia e sonhava com a sua liberdade ilusória, eu ordenei uma ação de bastidores que destruiu Moretti financeiramente e juridicamente em menos de três horas. Meus advogados e contatos no comitê de conformidade do banco central trituraram cada uma das contas fantasmas que ele utilizava para lavar o dinheiro dos cassinos clandestinos."
"Você acionou a polícia?", indaguei, chocada com a velocidade assustadora com que ele operava o seu imenso poder financeiro e de influência no cenário nacional.
"A polícia civil recebeu um dossiê anônimo, perfeitamente detalhado e irrepreensível, contendo todas as provas de extorsão, lavagem de dinheiro e homicídios associados ao grupo dele", Dominic explicou, o canto dos lábios se elevando sutilmente em um orgulho sombrio e quase maníaco.
"Neste exato momento, Moretti é um fugitivo miserável, apavorado e com as contas bloqueadas, caçado pelas autoridades e pelos seus próprios aliados do crime organizado. Ele sabe que a única razão pela qual ainda respira é porque eu decidi não ordenar a sua eliminação física direta."
Ele deu mais dois passos à frente, estreitando a distância entre nossos corpos até que o aroma denso de cedro e a energia dominadora que ele exalava me envolvessem por completo como uma segunda armadilha.
"Olhe para mim, Antonia", ele ordenou, e a força em sua voz me obrigou a erguer os olhos para encarar a tempestade cinzenta de suas órbitas. "O mundo exterior é um ninho de víboras famintas prontas para devorar cada pedaço da sua carne e da sua dignidade, e você não passa de uma presa indefesa que seria destruída em minutos se não fosse pela minha proteção violenta e absoluta."
O choque de realidade desabou sobre mim com o peso esmagador de uma tonelada de concreto, misturando-se à humilhação profunda de perceber a extensão da minha dependência forçada.
Dominic não era apenas um médico possessivo com um apartamento luxuoso e regras rígidas de convivência; ele era uma força da natureza implacável, um predador muito mais inteligente, perigoso e articulado do que os criminosos comuns que perseguiam a minha família. Ele havia destruído um império clandestino inteiro em uma única madrugada apenas para manter a sua propriedade intocada.
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"Você fez tudo isso... apenas para me manter trancada aqui?", perguntei com as lágrimas finalmente vencendo a barreira dos meus olhos, a voz embargada pela exaustão psicológica dos últimos acontecimentos.
"Eu fiz isso porque ninguém toca, ameaça ou sequer olha para o que me pertence e sai ileso do meu território, Antonia", ele respondeu, sua mão subindo para o meu pescoço com uma lentidão torturante, onde seus dedos gélidos pressionaram a minha artéria carótida, sentindo a pulsação frenética do meu medo.
"Quem fez isso com você no passado está arruinado, mas o preço da sua segurança contínua é a aceitação definitiva de que o seu corpo e a sua alma estão sob a minha exclusiva jurisdição."
Ele se afastou abruptamente, deixando-me sem o calor de sua mão enquanto enfiava a mão direita no bolso interno do paletó de alfaiataria escura. Com um gesto soberano, desdenhoso e carregado de um simbolismo esmagador, Dominic jogou um maço de papéis amarelados, gastos e rasgados diretamente sobre o lençol branco da cama.
Aproximei-me devagar, tocando as folhas com as pontas dos dedos trêmulos e reconhecendo imediatamente os documentos oficiais e as assinaturas desesperadas do meu falecido pai.
Eram as promissórias originais das dívidas de jogo, os títulos legais que Moretti e seus capangas usavam para nos chantagear e que justificavam a caçada humana contra o sobrenome Ruiz.
"Essas são as últimas correntes que ligavam o seu passado à lama do crime organizado de São Paulo", Dominic anunciou, observando a minha reação com a satisfação de um colecionador que acaba de catalogar sua peça mais valiosa.
"Eu comprei e liquidei cada uma dessas dívidas diretamente com os credores antes de colocá-los na cadeia, o que significa que as promissórias estão rasgadas e o seu destino agora não pertence ao Estado, à máfia ou ao passado de Gael... você deve a sua vida e a sua liberdade exclusivamente a mim."
O prenúncio daquela declaração selou o confinamento definitivo do meu futuro, destruindo qualquer fagulha de esperança de uma salvação externa ou de um retorno à normalidade.
Eu estava completamente nua de defesas, sabendo que o mundo lá fora era um inferno violento e que o homem de olhos cinzentos diante de mim era, paradoxalmente, o meu único escudo protetor e o meu carcereiro mais implacável.
Senti as minhas pernas cederem sob o peso da exaustão emocional, do pânico e da percepção de que a minha rebeldia era uma piada diante do poder dele.
Dominic deu um passo à frente no momento exato em que eu ia desabar, e seus braços longos e rígidos envolveram o meu corpo com uma força possessiva, puxando-me para um abraço forçado e esmagador contra o seu peito imponente.
Eu queria lutar, queria empurrá-lo com as poucas forças que restavam nos meus punhos e gritar que odiava a sua proteção doentia tanto quanto odiava os cobradores de dívidas.
No entanto, o terror do mundo real, a lembrança da violência de Moretti e o cansaço extremo sabotaram a minha mente traidora, fazendo-me ceder à segurança daquele abraço.
Exausta, assustada e completamente sem saídas, eu não recuei do contato físico; em vez disso, apoiei as minhas mãos espalmadas contra o tecido caro de sua camisa preta e escondi o meu rosto choroso no seu peito largo, buscando abrigo no mesmo monstro que havia roubado a minha autonomia.
Dominic fechou os braços ao redor da minha cintura com uma força ainda maior, espalhando os dedos pelos meus cabelos enquanto desfrutava do som do meu choro rendido contra o compasso firme do seu coração.
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