"Você Vai Morrer às 15:10" PARTE 10
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O céu sobre Guarujá já não parecia o mesmo.
Isabela Monteiro Vasconcelos estava parada na areia da Praia de Pitangueiras, mas a sensação era de que o chão sob seus pés não era mais único.
Era como se existissem camadas invisíveis do mesmo lugar, todas ocupando o mesmo espaço ao mesmo tempo.
Rafael Albuquerque estava ao lado dela, imóvel, observando o mar com uma tensão que não era mais apenas científica — era pessoal.
Isabela não conseguia desviar os olhos do próprio celular.
Ele ainda estava na areia, com a tela acesa.
E o que aparecia ali não fazia sentido nenhum.
“ISABELA (FUTURO): VOCÊ JÁ VIU ISSO ACONTECER.”
Ela recuou um passo.
“Não… isso não pode estar acontecendo…”
Rafael se agachou rapidamente e pegou o aparelho.
“Isso não é só mensagem”, ele murmurou.
Isabela virou para ele.
“O que mais seria?!”
Mas antes que ele respondesse, o ambiente mudou.
Não de forma gradual.
De forma abrupta.
Como um corte.
Uma distorção visual atravessou o mar por um segundo, como se a realidade tivesse sido “recarregada”.
Isabela piscou.
E então viu algo impossível.
Uma segunda Isabela estava caminhando na areia alguns metros à frente.
Mas não era reflexo.
Não era ilusão.
Era uma versão dela mesma — com roupas diferentes, expressão diferente, postura mais fria.
Isabela ficou sem ar.
“Rafael…”, ela sussurrou. “Isso não é normal…”
Rafael levantou imediatamente.
E viu também.
“Isso não deveria ser possível…”
A segunda Isabela virou a cabeça lentamente.
E olhou diretamente para elas.
Isabela sentiu o corpo travar.
Porque aquele olhar não era surpresa.
Era reconhecimento.
A outra Isabela abriu a boca.
Mas nenhuma voz saiu.
Em vez disso, o celular de Isabela vibrou novamente.
Ela olhou.
Mensagem nova:
“VOCÊ ESTÁ VENDO SUA PRIMEIRA SOBREPOSIÇÃO.”
Isabela deixou o celular cair na areia.
“Não… não… isso não é real…”
Rafael segurou o braço dela.
“Fica comigo.”
Mas o mundo ao redor começou a mudar.
Não como uma ilusão.
Mas como se diferentes versões do mesmo momento estivessem sendo sobrepostas.
Pessoas andando na praia começaram a aparecer duplicadas por um segundo — algumas mais claras, outras mais escuras, como versões atrasadas de si mesmas.
Um vendedor de água passou duas vezes no mesmo espaço.
Um casal apareceu sentado em dois pontos diferentes ao mesmo tempo.
Isabela começou a hiperventilar.
“Isso está quebrando… isso está quebrando tudo…”
Rafael olhou ao redor, tenso.
“Não é o ambiente. É você.”
Isabela virou rapidamente.
“O quê?!”
Ele apontou para ela.
“Você está funcionando como ponto de ancoragem entre ciclos.”
Ela deu um passo para trás.
“Eu não sou nada disso!”
Mas o celular dela vibrou de novo, mesmo caído na areia.
A tela acendeu sozinha.
“ISABELA (FUTURO): VOCÊ NÃO ESTÁ MAIS EM UMA LINHA ÚNICA.”
Isabela começou a chorar.
“Para… por favor… para…”
Rafael pegou o celular novamente.
E então o mar ao fundo mudou.
Por um segundo.
O som desapareceu.
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A água ficou imóvel.
E depois… voltou.
Como se nada tivesse acontecido.
Mas Isabela tinha visto.
E Rafael também.
“Isso foi uma falha de continuidade”, ele disse baixo.
Isabela olhou para ele desesperada.
“Falha de quê?!”
Ele respirou fundo.
“Camadas de tempo estão se sobrepondo.”
Isabela começou a rir nervosamente.
“Você está dizendo que existem várias versões do mesmo momento acontecendo aqui?”
Rafael respondeu sem hesitar:
“Sim.”
Ela balançou a cabeça.
“Isso é impossível…”
Mas então outra versão dela apareceu.
Atrás de Rafael.
Mais próxima.
Mais nítida.
Isabela gritou:
“ATRÁS DE VOCÊ!”
Rafael virou rapidamente.
Mas não havia nada ali.
Quando ele voltou o olhar, a segunda Isabela já tinha desaparecido.
Isabela caiu de joelhos na areia.
“Eu estou vendo coisas… eu estou vendo coisas…”
Rafael se agachou ao lado dela.
“Não. Você está vendo o que o sistema não consegue mais esconder.”
Ela olhou para ele com desespero.
“Que sistema?!”
Ele ficou em silêncio por um segundo.
E então disse:
“O Chronos não está mais operando em uma única linha temporal.”
Isabela arregalou os olhos.
“Então em quantas?!”
Rafael respondeu com dificuldade:
“Não sabemos.”
O celular vibrou novamente.
Mas agora não era apenas uma mensagem.
Era várias.
Em sequência.
Como se diferentes versões dela estivessem enviando ao mesmo tempo.
“ISABELA (FUTURO): NÃO CONFIE NA PRAIA.”
“ISABELA (FUTURO): ELA JÁ TE VIU.”
“ISABELA (FUTURO): VOCÊ JÁ MORREU AQUI.”
Isabela gritou:
“PARA! PARA!”
Mas as mensagens continuaram.
E então o impossível aconteceu.
Outra Isabela surgiu.
E outra.
E outra.
Cada uma com pequenas diferenças.
Uma estava molhada como se tivesse acabado de sair do mar.
Outra tinha o rosto ferido.
Outra estava completamente calma.
Todas olhando para ela.
Todas conscientes dela.
Rafael se levantou devagar.
“Isso não deveria estar estável assim…”
Isabela olhou ao redor, em pânico.
“Rafael… o que está acontecendo comigo?!”
Ele respondeu com uma calma forçada:
“O sistema não está mais separando versões de você.”
Ele pausou.
“Está permitindo que elas coexistam.”
Isabela começou a chorar.
“Eu não quero isso…”
Mas uma das versões dela deu um passo à frente.
E falou pela primeira vez.
Com a mesma voz.
Mas sem o mesmo tom.
“Você ainda não entendeu.”
Isabela congelou.
A outra Isabela continuou:
“Você não está colapsando o tempo.”
Ela fez uma pausa.
“Você está sendo colapsada por ele.”
O celular de Isabela vibrou uma última vez.
E a mensagem final apareceu sozinha na tela:
“INTEGRAÇÃO DE VERSÕES INICIADA — NÚMERO DE ISABELAS DETECTADAS: MÚLTIPLO.”
Isabela levantou os olhos lentamente.
E viu que todas as versões dela agora estavam andando em direção ao mesmo ponto na praia.
E nenhuma delas parecia disposta a parar.
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