"Você Vai Morrer às 15:10" PARTE 3
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O consultório ficava no alto de um prédio discreto na Avenida Paulista, entre escritórios de advocacia e clínicas de estética que prometiam “rejuvenescimento imediato”.
Isabela Monteiro Vasconcelos hesitou por alguns segundos antes de entrar no edifício.
Ela ainda sentia o corpo reagindo ao que tinha acontecido no metrô da Ana Rosa.
O quase acidente.
A mensagem.
A sensação de que algo invisível estava corrigindo cada tentativa dela de escapar.
Respirou fundo e entrou.
O elevador subiu devagar, como se também estivesse observando ela. Cada andar parecia mais pesado que o anterior. Quando as portas se abriram no 12º andar, um corredor branco e silencioso a recebeu.
Na recepção, uma mulher jovem olhou para ela com calma profissional.
“Consulta com o Dr. Rafael Albuquerque?”
Isabela assentiu.
“Sim.”
“Pode aguardar um momento. Ele já vai te chamar.”
Isabela sentou em uma cadeira de couro preto. O ambiente era minimalista demais, quase clínico demais. Nenhum som além do ar-condicionado. Nenhuma distração.
E isso deixava seus pensamentos mais altos.
Ela abriu o celular.
Nenhuma mensagem nova desde o metrô.
Isso deveria tranquilizá-la.
Mas não tranquilizou.
Porque o silêncio agora parecia estratégico.
Como se estivesse esperando o momento certo para atacar de novo.
“Isso não é normal… isso não é normal…”, ela murmurou.
A porta do consultório se abriu.
Um homem alto, de jaleco branco, olhos atentos e postura calma apareceu.
“Isabela Monteiro?”
Ela levantou o olhar.
“Sou eu.”
“Pode entrar.”
O consultório de Rafael Albuquerque era ainda mais organizado que a recepção. Livros de neurociência alinhados, telas desligadas, uma mesa limpa demais para alguém que trabalhava com o cérebro humano.
Ele indicou a cadeira.
“Fique à vontade.”
Isabela sentou, mas não relaxou.
Rafael percebeu.
“Você parece… em estado de alerta extremo”, ele disse calmamente.
“Eu estou”, respondeu ela imediatamente.
Ele abriu uma ficha no computador.
“Você disse na ligação que está recebendo mensagens que… preveem eventos futuros?”
Isabela soltou uma risada curta, sem humor.
“Não é ‘prever’. É mais como… me orientar para morrer.”
Rafael não reagiu com espanto. Apenas observou.
“Você já teve episódios anteriores de ansiedade severa, paranoia ou delírios auditivos?”
Isabela bateu a mão na mesa.
“Você acha que eu estou inventando isso?”
Ele levantou a mão, calmo.
“Eu não disse isso.”
Ela respirou forte.
“Eu não estou louca.”
Silêncio.
Rafael inclinou levemente a cabeça.
“Então me descreva exatamente o que acontece.”
Isabela pegou o celular e mostrou.
A tela ainda tinha as mensagens anteriores.
“Você hoje às 15:10.”
“Evite a estação Ana Rosa.”
“Você está entrando no futuro.”
Rafael leu tudo com atenção. Sem interrupção.
Quando terminou, ele encostou na cadeira.
“Ok”, ele disse.
Isabela franziu a testa.
“Ok?”
“Sim. Ok. Isso não parece um padrão comum de delírio psicótico isolado.”
Ela se inclinou para frente.
“Então você acredita em mim?”
Ele escolheu as palavras com cuidado.
“Eu acredito que você está experienciando algo real para você. Isso não significa necessariamente que a origem é externa.”
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Isabela fechou os olhos por um segundo.
“Então você acha que é minha cabeça.”
“Eu acho que pode ser um fenômeno de antecipação cognitiva extrema. O cérebro humano, sob estresse, pode criar padrões de previsão tão fortes que parecem externos.”
Ela riu sem alegria.
“Meu cérebro não criou um homem no metrô me mostrando o mesmo aviso.”
Rafael parou.
“Um homem no metrô?”
Isabela congelou.
Ela não tinha contado esse detalhe antes.
Ele percebeu a reação.
“Você não mencionou isso na ligação.”
Ela desviou o olhar.
“Ele… ele estava olhando pra mim. E tinha a mesma mensagem.”
Rafael ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois se levantou e foi até uma das telas desligadas.
“Existe um problema interessante aqui”, ele disse.
Isabela observou.
“O quê?”
Ele voltou com um controle e ligou a tela.
Um gráfico de atividade cerebral apareceu.
“Quando pessoas relatam experiências de previsão, normalmente há atividade aumentada no córtex pré-frontal, ligado à antecipação de risco.”
Ele virou para ela.
“Mas o que você está descrevendo tem um componente diferente.”
Isabela engoliu seco.
“Qual?”
“Você não está apenas antecipando eventos. Você está reagindo a informações específicas e dinâmicas.”
Ela franziu a testa.
“Isso não faz sentido.”
“Exato”, disse ele.
O silêncio ficou mais pesado.
Rafael caminhou lentamente pelo consultório.
“Posso te fazer uma pergunta direta?”
“Pode.”
“Essas mensagens aparecem em tempo real?”
Isabela hesitou.
“Sim.”
“E elas mudam quando você muda de comportamento?”
Ela ficou parada.
“Sim…”
Rafael parou de andar.
“Isso não é compatível com um padrão interno de pensamento.”
Isabela sentiu um frio subindo pelo corpo.
“Então o quê é?”
Ele olhou diretamente para ela.
“Se isso for verdadeiro… então as mensagens não estão vindo de dentro da sua mente.”
Ela engoliu seco.
“E estão vindo de onde?”
Rafael não respondeu imediatamente.
Ele voltou para a mesa, pegou o celular dela com cuidado e começou a analisar.
“Posso ver os metadados?”
“Metadados?”
“Origem técnica. IP, rota, servidor.”
Isabela assentiu, sem entender completamente.
Ele abriu ferramentas internas no computador. Linhas de código. Logs. Verificações.
Os minutos passaram em silêncio.
Isabela observava cada movimento dele como se fosse uma sentença.
Finalmente, Rafael parou.
“Isso é impossível…”
Isabela se levantou imediatamente.
“O quê?!”
Ele repetiu a análise.
Depois olhou para ela.
“Não há origem de rede.”
Ela piscou.
“Como assim não há origem?”
Rafael virou a tela.
“Não existe servidor. Não existe IP. Não existe rota de envio.”
Isabela sentiu as pernas enfraquecerem.
“Isso… isso não pode ser verdade.”
Ele falou mais baixo agora.
“Essas mensagens não passaram por nenhum sistema conectado à internet.”
O ar do consultório pareceu mudar.
Isabela deu um passo para trás.
“Então como elas chegaram no meu celular?”
Rafael fechou o computador lentamente.
E pela primeira vez desde que ela entrou ali, ele não tinha uma resposta científica imediata.
“Essa é a parte que não deveria existir”, ele disse.
Isabela sentiu o coração disparar.
“Rafael… o que você está dizendo?”
Ele olhou para ela com seriedade absoluta.
“Estou dizendo que isso não veio de um sistema digital conhecido.”
Silêncio.
Isabela sentiu o mundo perder o eixo.
“Então de onde veio?”, ela sussurrou.
Rafael respirou fundo.
E respondeu, em voz baixa:
“Se isso for real… não veio da internet.”
Ele fez uma pausa.
“Veio de fora dela.”
Isabela ficou imóvel.
E, naquele exato instante, o celular dela vibrou novamente sobre a mesa.
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