"Meu Marido Não Existe na Linha do Tempo" PARTE 9
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O hospital parecia diferente naquela manhã, mas Isabela não sabia dizer exatamente o quê. Não era luz, nem som, nem pessoas. Era como se o próprio espaço tivesse sido ajustado em um nível que ela não conseguia mais perceber diretamente, apenas sentir.
Ela estava novamente no Hospital Santa Cecília.
Mas agora sem certeza de como chegou lá.
Marcos não estava mais com ela.
Henrique também não aparecia.
Só corredores longos demais.
E uma sensação crescente de que algo importante estava prestes a ser revelado contra sua vontade.
Isabela caminhou devagar.
“Isso não pode continuar assim…”
Ela entrou na área administrativa sem ser impedida.
Estranhamente, ninguém reagiu.
Como se ela fosse parte do sistema.
Ou já estivesse registrada de outra forma.
Ela encontrou uma sala aberta.
Arquivo médico central.
As telas estavam ligadas.
E havia um nome piscando no sistema.
ISABELA NOGUEIRA ALMEIDA
Ela se aproximou imediatamente.
“Esse sou eu…”
Clicou.
Prontuário completo.
Mas algo estava errado.
Muito errado.
As primeiras linhas não correspondiam a nada que ela lembrava.
DIAGNÓSTICO ORIGINAL: ÓBITO CLÍNICO TEMPORÁRIO
DATA DO EVENTO: 3 ANOS ATRÁS
LOCAL: Rodovia Anchieta – SP
Isabela congelou.
“Óbito…?”
Ela respirou rápido.
“Não… isso não faz sentido…”
Continuou lendo.
CAUSA: ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO
STATUS INICIAL: FALHA DE RESGATE CEREBRAL
Ela recuou um passo.
“Isso não aconteceu comigo…”
Mas a tela continuou.
INTERVENÇÃO EXPERIMENTAL: PROJETO NEURAL RECONSTRUCT
Isabela sentiu o chão sumir.
De repente, a porta atrás dela abriu.
Henrique Valença entrou.
Calmo.
Como sempre.
Isabela virou imediatamente.
“Isso é mentira!”
Ele não respondeu de imediato.
Apenas olhou para a tela.
Depois para ela.
“Não é mentira.”
Isabela levantou a voz.
“EU NUNCA MORRI!”
Henrique caminhou devagar até o terminal.
“Você morreu clinicamente por 7 minutos e 32 segundos.”
Isabela começou a tremer.
“Para… para com isso…”
Ele continuou.
“Seu cérebro sofreu colapso total de memória episódica.”
Ela gritou:
“EU ESTOU AQUI!”
Henrique respondeu com calma:
“Sim. A segunda versão.”
Isabela parou.
“Segunda… versão?”
Ele assentiu.
“Sim.”
Ela recuou.
“Isso não é possível…”
Henrique abriu outro arquivo.
E mostrou.
IMAGEM ORIGINAL DO ACIDENTE
Isabela viu.
Carro destruído.
Vidro quebrado.
Sirene.
Corpo sendo retirado.
Ela levou a mão à boca.
“Isso não sou eu…”
Henrique respondeu:
“Era você antes da reconstrução.”
Isabela começou a respirar rápido.
“Reconstrução de quê?”
Ele respondeu:
“Da sua identidade funcional.”
Isabela explodiu:
“EU NÃO SOU UM EXPERIMENTO!”
Henrique não se alterou.
“Você é uma continuidade.”
Ela apontou para a tela.
“E Rafael? E meu filho?”
Henrique hesitou por um segundo.
Só um.
E isso foi suficiente.
Isabela percebeu.
“Você sabe alguma coisa…”
Ele respondeu:
“São variáveis da reconstrução.”
Isabela avançou.
“VOCÊS INVENTARAM TUDO!”
Henrique fechou o arquivo.
E falou mais baixo.
“Não inventamos. Reorganizamos.”
Isabela ficou em silêncio por um segundo.
“Reorganizaram minha vida inteira?”
Ele assentiu.
“Para evitar colapso psicológico permanente.”
Isabela começou a rir nervosamente.
“Colapso psicológico? EU ESTOU EM COLAPSO AGORA!”
Henrique não respondeu.
De repente, o sistema piscou.
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As telas mudaram sozinhas.
Uma nova aba abriu.
“MONITORAMENTO EM TEMPO REAL”
Isabela congelou.
“Isso não estava aqui…”
Henrique franziu a testa.
“Não deveria estar ativo.”
Isabela olhou.
E viu algo impossível.
Uma imagem dela mesma.
Deitada.
Imóvel.
Ligada a máquinas.
Monitor cardíaco.
Respiração artificial.
Isabela deu um passo para trás.
“Não…”
Henrique tentou fechar o sistema.
Mas não conseguiu.
“Isso não deveria estar sincronizado…”
Isabela gritou:
“EU ESTOU AQUI!”
Mas a imagem na tela não reagia.
Ela se aproximou.
“Isso não sou eu…”
Henrique falou baixo:
“É seu corpo original.”
Isabela congelou.
“Original?”
O sistema começou a mostrar dados simultâneos.
DOIS ESTADOS ATIVOS:
ESTADO 1 — CORPO FÍSICO (UTI)
ESTADO 2 — IDENTIDADE RECONSTRUÍDA (ATIVA)
Isabela sentiu o mundo quebrar.
“DOIS… EU?”
Henrique respondeu:
“Sim.”
Ela começou a tremer.
“Então quem sou eu agora?”
Ele respondeu:
“Uma versão estabilizada digitalmente.”
Isabela gritou:
“EU NÃO SOU DIGITAL!”
Henrique não respondeu.
De repente, os monitores começaram a mostrar algo novo.
Atividade cerebral.
Mas não sincronizada.
Duas linhas paralelas.
Batimentos duplicados.
Isabela caiu de joelhos.
“Para isso…”
Henrique observou em silêncio.
“Seu cérebro físico ainda está ativo.”
Isabela levantou os olhos.
“Então eu posso voltar?”
Silêncio.
Longo.
Pesado.
Henrique respondeu:
“Não sem colapso da versão atual.”
Isabela respirou fundo.
“E Rafael?”
Henrique hesitou.
“Ele pertence à mesma camada instável.”
Isabela se levantou.
“Eu preciso vê-lo.”
Henrique respondeu:
“Ele não está sincronizado com seu estado físico.”
Isabela gritou:
“EU PRECISO VER ELE!”
O sistema travou.
As telas começaram a piscar rapidamente.
E então apareceu um alerta vermelho.
“CONFLITO DE REALIDADE DETECTADO”
Henrique ficou rígido.
“Isso está piorando…”
Isabela olhou para ele.
“O que isso significa?”
Ele respondeu baixo:
“O seu corpo original está reagindo à sua presença digital.”
Isabela ficou imóvel.
“E isso é ruim?”
Henrique não respondeu imediatamente.
Depois disse:
“Significa que as duas versões estão tentando se reconhecer.”
Isabela respirou fundo.
“E o que acontece se isso continuar?”
Henrique olhou para a tela.
E respondeu:
“O sistema não permite duas Isabela simultâneas por muito tempo.”
Isabela congelou.
“Então uma delas…”
Henrique completou:
“Vai ser apagada.”
E naquele instante, o monitor físico mostrou uma linha cardíaca… começando a se sobrepor com outra… como se duas vidas estivessem tentando ocupar o mesmo corpo ao mesmo tempo.
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