"Meu Marido Não Existe na Linha do Tempo" PARTE 7
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O elevador de serviço do Hospital Santa Cecília não deveria existir para pacientes. Mas Isabela descobriu sua existência por acidente, ou talvez por algo que já estava previsto antes mesmo dela entender que havia uma escolha.
Ela entrou sem ser vista.
Ou pelo menos foi o que pensou.
O painel não tinha botão para o térreo.
Apenas níveis negativos.
-1
-2
-3
-4
Isabela hesitou.
“Isso não está no mapa do hospital…”
Mesmo assim apertou o -2.
A porta fechou com um som seco.
E o elevador começou a descer.
Sem música.
Sem aviso.
Sem sensação de segurança.
Apenas queda controlada.
Quando a porta abriu, o ar mudou imediatamente.
O cheiro era diferente.
Não era hospital.
Era algo mais antigo.
Mais frio.
Mais limpo demais para ser humano.
Um corredor longo apareceu.
Luz branca constante.
Sem sombras reais.
Isabela deu um passo para fora.
“Isso não é um hospital normal…”
Ela caminhou devagar.
Cada passo parecia ecoar menos do que deveria.
Como se o som estivesse sendo absorvido pelas paredes.
Placas começaram a aparecer.
SETOR RESTRITO
NEURAL MEMORY PROJECT
ACESSO AUTORIZADO APENAS
Isabela congelou.
“Neural… memory…”
Ela continuou andando.
As portas eram todas iguais.
Todas sem identificação externa.
Até que uma delas abriu sozinha.
Dentro da sala havia pessoas.
Mas não pacientes normais.
Nenhum estava em crise.
Nenhum parecia confuso.
Todos estavam… calmos demais.
Como se tivessem sido treinados para acreditar em algo.
Uma mulher olhou para Isabela.
Sorriu.
“Você também veio para a revisão?”
Isabela ficou imóvel.
“Revisão de quê?”
A mulher respondeu naturalmente.
“Da minha vida anterior.”
Isabela deu um passo para trás.
“Vida anterior?”
Outro homem se aproximou.
“Eu achava que trabalhava em Recife.”
Ele riu.
“Mas agora sei que isso era só uma versão instável.”
Isabela começou a tremer.
“Versão instável?”
Uma enfermeira apareceu no fundo da sala.
Mas seu uniforme não era padrão.
Tinha um símbolo estranho.
Um círculo dividido em camadas.
Ela falou com voz calma.
“Todos aqui passaram pelo processo de estabilização cognitiva.”
Isabela interrompeu.
“Que processo é esse?”
A enfermeira respondeu sem hesitar.
“Reestruturação de identidade narrativa.”
Isabela ficou sem ar.
Ela saiu da sala rapidamente.
O corredor parecia mais longo agora.
Mais profundo.
Como se o subsolo estivesse crescendo enquanto ela caminhava.
Outra porta aberta.
Ela entrou.
E viu algo pior.
Fileiras de pessoas sentadas diante de telas.
Cada tela mostrava uma vida diferente.
Um homem chorava silenciosamente.
Uma mulher sorria olhando para uma cena que só ela via.
Uma criança desenhava repetidamente a mesma casa.
Isabela se aproximou.
“Isso é algum tipo de terapia?”
Um técnico ao lado dela respondeu sem olhar.
“Não é terapia.”
“Então o quê é?”
Ele respondeu:
“Correção de realidade subjetiva.”
Isabela ficou rígida.
“Isso não existe…”
O técnico finalmente olhou para ela.
“Existe desde que memórias começaram a ser armazenadas digitalmente.”
Ela correu novamente.
Mais fundo.
Mais abaixo.
O ar ficava mais pesado.
Até que chegou a uma porta com vidro reforçado.
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No interior havia servidores.
Centenas.
Talvez milhares.
Um painel brilhava:
NEURAL MEMORY PROJECT — CORE SYSTEM
Isabela colocou a mão no vidro.
“Isso não é um hospital…”
Uma voz atrás dela respondeu:
“Não mais.”
Ela virou rápido.
Dr. Henrique Valença.
Isabela recuou.
“Você…”
Ele entrou na sala com calma.
“Você não deveria estar aqui.”
Isabela apontou para os servidores.
“O que é isso?”
Henrique respondeu sem emoção.
“É onde versões da realidade são armazenadas.”
Isabela gritou:
“VOCÊ ESTÁ MENTINDO!”
Ele não reagiu.
“Você já viu os efeitos disso.”
Ela respirava rápido.
“O vídeo… o apartamento… meu filho…”
Henrique interrompeu.
“São camadas diferentes de reconstrução.”
Isabela avançou.
“VOCÊ APAGOU ELE!”
Henrique manteve o olhar firme.
“Nós estabilizamos.”
Isabela ficou paralisada.
“Estabilizou… o quê?”
Ele respondeu:
“A sua mente.”
De repente, uma tela ligou sozinha.
Um painel central.
E começou a mostrar nomes.
Isabela observou.
Milhares de registros.
E então viu algo que fez seu corpo congelar completamente.
SUBJECT 01
SUBJECT 02
SUBJECT 03
SUBJECT 04
SUBJECT 05
SUBJECT 06
SUBJECT 07
Isabela se aproximou da tela.
“Sub… subject…”
Henrique observava em silêncio.
Ela apontou.
“O que é isso?”
Ele não respondeu imediatamente.
Isabela insistiu.
“O QUE É ISSO?”
Henrique finalmente falou.
“Identificadores de reconstrução ativa.”
Isabela respirou fundo.
“E quem é o Subject 07?”
Silêncio absoluto.
O sistema piscou.
A linha começou a expandir sozinha.
Informação sendo carregada em tempo real.
Isabela leu lentamente.
SUBJECT 07 — ISABELA NOGUEIRA ALMEIDA
O mundo dela parou completamente.
Ela recuou um passo.
Depois outro.
“Não…”
Henrique não falou nada.
Isabela gritou:
“EU NÃO SOU UM EXPERIMENTO!”
As luzes da sala começaram a piscar.
Os servidores emitiram sons de atividade crescente.
E no monitor principal, uma nova linha apareceu automaticamente:
“CONSISTÊNCIA DE IDENTIDADE: INSTÁVEL”
Isabela caiu de joelhos.
“Isso não pode ser verdade…”
Henrique se aproximou lentamente.
“Isabela…”
Mas ela não ouviu.
Porque naquele momento o sistema inteiro começou a atualizar sozinho.
E o nome dela na tela começou a mudar… lentamente… como se estivesse sendo reescrito em outra versão da realidade.
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