"Meu Marido Não Existe na Linha do Tempo" PARTE 4
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O hospital já não parecia apenas um lugar para Isabela. Agora parecia um sistema vivo, observando cada passo dela.
As luzes brancas do Hospital Santa Cecília estavam mais frias do que antes, quase cirúrgicas demais, como se não fossem feitas para humanos, mas para algo sendo monitorado.
Isabela caminhava pelos corredores com a sensação de que qualquer porta poderia se fechar sozinha.
Ela não tinha mais certeza do que era real.
Nem do que era lembrança.
Nem do que era dela.
“Senhora Isabela?”
A voz veio atrás dela.
Ela virou rápido.
Um homem de jaleco escuro, postura calma, olhar extremamente controlado.
Ele não parecia surpreso em vê-la.
Pelo contrário.
Parecia esperar exatamente aquele momento.
“Quem é você?” ela perguntou imediatamente.
Ele sorriu levemente.
“Dr. Henrique Valença.”
Isabela sentiu um pequeno choque interno.
Aquele nome já existia no hospital, mas agora parecia mais pesado, mais importante.
“Você trabalha aqui?”
“Eu trabalho com você.”
Ela franziu a testa.
“Comigo? Eu não trabalho aqui.”
Ele inclinou a cabeça.
“Não no sentido convencional.”
Isabela deu um passo para trás.
“Eu não estou entendendo nada.”
Henrique abriu uma pasta digital no tablet que carregava.
“Você está em um processo de reconstrução cognitiva.”
Isabela cruzou os braços.
“Reconstrução de quê?”
“Da sua memória.”
O ar pareceu parar por um segundo.
Isabela soltou uma risada curta, nervosa.
“Isso é algum tipo de piada?”
Ele não reagiu.
“Você sofreu um acidente grave há três anos.”
Isabela congelou.
“Não… isso não é verdade.”
Henrique virou o tablet para ela.
Imagens apareceram.
Um carro destruído.
Uma rodovia em São Paulo.
Uma ambulância.
E um corpo sendo retirado dos destroços.
Isabela sentiu o estômago revirar.
“Isso não sou eu…”
“É você.”
Ela balançou a cabeça.
“Eu estou viva.”
“Sim.”
Ele respondeu calmamente.
“Porque você foi reconstruída.”
A palavra ficou pesada no ar.
“Reconstruída?”
Henrique caminhou devagar ao lado dela.
“Seu cérebro sofreu danos severos. Memórias fragmentadas. Identidade instável.”
Isabela interrompeu.
“Para. Eu lembro da minha vida.”
Ele olhou diretamente nos olhos dela.
“Você lembra da versão restaurada.”
Eles entraram em uma sala fechada.
Sem janelas.
Apenas telas.
E arquivos.
Muitos arquivos.
Isabela sentiu desconforto imediato.
“Por que me trouxe aqui?”
Henrique digitou algo.
A tela acendeu.
“Para te mostrar o seu estado real.”
Isabela cruzou os braços.
“Meu estado real é que alguém está mexendo com a minha vida.”
Henrique não respondeu imediatamente.
Depois falou:
“Você acredita que é casada com Rafael Montenegro Vasconcelos.”
Isabela apertou os punhos.
“Porque eu vi provas.”
“Provas editadas.”
Ela explodiu.
“VOCÊS ESTÃO TODOS MENTINDO!”
Henrique levantou a mão.
“Isabela. Respira.”
Ela parou por um segundo.
Ele continuou.
“Seu cérebro está preenchendo lacunas com reconstruções emocionais.”
Isabela riu de nervoso.
“Você está dizendo que meu marido não existe?”
Ele não respondeu diretamente.
“Estou dizendo que a sua linha de memória foi alterada após o acidente.”
Isabela deu um passo à frente.
“E o meu filho?”
Silêncio.
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Henrique hesitou por meio segundo.
E isso foi o suficiente para Isabela perceber.
“Responde.”
Ele falou mais baixo.
“Você nunca teve um filho.”
O impacto foi imediato.
Isabela recuou como se tivesse levado um golpe.
“Não…”
“Não há registro biológico consistente.”
Ela começou a tremer.
“Eu vi ele…”
Henrique interrompeu.
“Você viu uma projeção reconstruída.”
Isabela levantou a voz.
“VOCÊ NÃO ESTAVA LÁ!”
Henrique se aproximou lentamente.
“Eu estava dentro do processo.”
Ele abriu outra tela.
E mostrou um nome.
PROJECTO NEURAL RECONSTRUCT — ISABELA ALMEIDA
Isabela sentiu o chão sumir.
“Isso… isso não existe.”
Henrique respondeu calmamente.
“Você está dentro disso há três anos.”
Ela começou a respirar rápido.
“Então tudo que eu vivi…”
“Pode ter sido reconstruído.”
Isabela levou as mãos à cabeça.
“Isso é loucura…”
Henrique continuou.
“Seu cérebro rejeitou parte da realidade anterior após o trauma. Nós criamos uma narrativa funcional para estabilização.”
Isabela gritou:
“EU NÃO SOU UM EXPERIMENTO!”
O silêncio na sala ficou pesado.
Henrique não respondeu imediatamente.
Depois disse:
“Você é uma sobrevivente.”
Ela saiu da sala sem permissão.
Corredores pareciam maiores agora.
Mais longos.
Mais vazios.
Ela corria sem direção.
Até que passou por uma área restrita.
Uma porta entreaberta chamou sua atenção.
Sala técnica.
Ela entrou sem pensar.
E parou imediatamente.
Havia computadores.
Servidores.
Arquivos médicos abertos.
E nomes.
Centenas deles.
“PACIENTES RECONSTRUIDOS”
Isabela se aproximou lentamente.
“Não…”
Ela viu listas.
Pessoas com nomes diferentes.
Mas todos com o mesmo status:
“MEMÓRIA REESCRITA”
Ela começou a passar os dedos pela tela.
Até que viu algo que congelou seu corpo inteiro.
Seu nome.
ISABELA NOGUEIRA ALMEIDA
Status:
“ATIVO — REVISÃO EM ANDAMENTO”
Ela começou a tremer.
“Eu estou aqui…”
Mas então viu algo pior.
Uma aba aberta.
“PROCEDIMENTOS RECENTES”
E o cursor se movia sozinho.
Como se alguém ainda estivesse trabalhando.
Ela observou.
Sem conseguir se mexer.
A tela piscou.
E linhas começaram a ser apagadas.
Uma por uma.
Registros desaparecendo.
Isabela deu um passo para trás.
“Não… não… não…”
Ela olhou ao redor.
O corredor estava vazio.
Mas o som de teclas digitando continuava.
Como se alguém invisível estivesse deletando pessoas da existência.
Isabela voltou os olhos para a tela.
E viu uma nova linha sendo escrita automaticamente:
“REMOÇÃO DE VÍNCULO: R. MONTENEGRO — INICIADA”
Ela arregalou os olhos.
“Rafael…”
E então percebeu algo atrás dela.
A porta não estava mais aberta.
Alguém havia fechado.
E o sistema começou a apagar mais rápido.
Como se agora ela também estivesse incluída no processo.
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