"Meu Marido Não Existe na Linha do Tempo" PARTE 3
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O vento de São Paulo parecia mais frio naquele dia, mesmo dentro do carro.
Isabela estava sentada no banco do passageiro de um aplicativo de transporte, olhando fixamente para o próprio reflexo no vidro.
Ela não tinha certeza de quando havia entrado no carro, nem de como tinha decidido o destino. Apenas sabia que precisava confirmar algo.
Algo que estava corroendo sua mente desde o hospital.
“Senhora, chegamos no endereço que a senhora pediu.”
A voz do motorista a trouxe de volta.
Isabela olhou para fora.
Um condomínio de alto padrão no Jardim Europa.
Ela não reconheceu o lugar imediatamente, mas ao mesmo tempo sentiu um desconforto estranho, como se já tivesse estado ali muitas vezes sem lembrar.
“Obrigada…” ela respondeu, saindo devagar.
O portão abriu automaticamente.
Como se já a reconhecesse.
O apartamento era no décimo oitavo andar.
Quando a porta se abriu, Isabela sentiu o ar mudar.
Não era apenas um espaço.
Era uma vida inteira tentando existir ao mesmo tempo.
O ambiente era elegante, moderno, minimalista. Mas havia sinais claros de presença infantil.
Brinquedos organizados em caixas.
Livros de histórias.
Um pequeno tênis azul encostado perto da porta.
Isabela parou.
“Isso não é meu…”
Ela entrou devagar.
A sala tinha uma grande parede de fotos.
E foi ali que o impacto veio.
Ela mesma aparecia em várias imagens.
Sorrindo.
Abraçando um homem que ela já conhecia agora como Rafael Montenegro.
Mas havia mais.
Uma criança.
Um menino.
Em praticamente todas as fotos.
Isabela deu um passo para trás.
“Quem é você?”
Ela falou sozinha.
Como se a foto pudesse responder.
O menino parecia ter cerca de cinco anos.
Cabelo escuro.
Olhar profundo.
E em algumas imagens ele estava no colo dela.
Chamando-a de mãe.
Isabela sentiu as mãos começarem a tremer.
“Isso não pode ser real…”
Ela pegou o celular imediatamente.
Tirou foto da parede.
Ampliou.
Zoom no rosto da criança.
Nada dentro dela reconhecia aquela imagem.
E mesmo assim… algo estranho acontecia.
Uma sensação emocional.
Não memória.
Mas dor.
Ela abriu o aplicativo de registro civil no celular.
Pesquisou rapidamente:
“Lorenzo Almeida Montenegro”
Nada.
Tentou de novo.
Mesmo resultado.
“Não encontrado.”
Isabela apertou os olhos.
“Isso não faz sentido…”
Ela entrou no sistema hospitalar novamente.
Buscou registros de nascimento.
Nada.
Hospital Santa Cecília.
Hospital São Lucas.
Hospital Albert Einstein.
Nenhum registro.
Nenhuma criança com aquele nome.
Nenhum parto associado a ela.
Ela começou a respirar mais rápido.
“Eles apagaram… isso não é possível…”
Mas então algo pior aconteceu.
O sistema travou.
E uma mensagem apareceu automaticamente na tela:
“REGISTRO INCOMPATÍVEL COM LINHA DE REALIDADE ATUAL”
Isabela congelou.
“Linha de realidade?”
Ela tentou acessar histórico.
Erro.
Tentou acessar backups.
Erro.
Tentou acessar qualquer coisa.
Tudo bloqueado.
Ela largou o celular no sofá e foi até o quarto.
E ali o impacto foi ainda maior.
O quarto infantil existia.
Não era decoração.
Era usado.
Roupas dobradas.
Um cobertor ainda com cheiro de uso recente.
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Uma cama pequena perfeitamente arrumada.
E no criado-mudo…
uma foto.
Isabela pegou.
Era ela e o menino.
Sentados em uma praia.
Guarujá.
Ela não lembrava daquele momento.
Mas o corpo dela reagiu.
Os olhos arderam.
A garganta fechou.
Ela começou a chorar sem entender por quê.
“Quem é você…?”
Ela repetia para a foto.
“Quem é você?”
A voz saiu quebrada.
De repente, o celular tocou.
Número desconhecido.
Isabela atendeu imediatamente.
“Alô?”
Silêncio por um segundo.
Depois uma voz masculina.
“Você não deveria estar aí.”
Isabela congelou.
“Quem é?”
A voz continuou, calma demais.
“Você está mexendo em algo que foi apagado por um motivo.”
Isabela apertou o telefone com força.
“Quem é o menino?”
Silêncio.
Depois:
“Você não deveria lembrar dele.”
Isabela gritou.
“ELE EXISTE OU NÃO?”
A ligação caiu.
Ela saiu do apartamento em desespero.
Correu até o hospital novamente.
Hospital Santa Cecília.
Dessa vez não pediu permissão.
Entrou direto no setor de arquivos.
O mesmo funcionário da Parte anterior a viu e ficou pálido.
“Senhora, não pode entrar aqui assim…”
“EU PRECISO DE INFORMAÇÃO AGORA.”
Ele hesitou.
Mas abriu o sistema.
Isabela digitou o nome da criança.
“Lorenzo.”
Tela carregando.
Longo silêncio.
O funcionário começou a suar.
“Isso… não está carregando nada…”
Isabela se inclinou.
“Procura direito!”
Ele tentou outro sistema.
Backup interno.
Nada.
Isabela começou a perder o controle.
“Vocês apagaram ele!”
O funcionário levantou as mãos.
“Eu não fiz nada, senhora!”
Mas então algo aconteceu.
A tela piscou.
E por meio segundo apareceu um arquivo.
Isabela viu.
Ela apontou.
“PARA! É ESSE!”
O funcionário clicou rapidamente.
Mas o sistema travou.
Tela preta.
Depois reiniciou sozinho.
E quando voltou…
não havia mais nada.
Nem o arquivo.
Nem o nome.
Nem qualquer vestígio.
Isabela ficou parada.
Sem reação.
“Eles estão apagando ele em tempo real…”
Ela saiu correndo do hospital.
Sem direção.
Sem controle.
Até que percebeu algo estranho.
Todas as pessoas ao redor pareciam normais demais.
Ninguém reagia.
Ninguém comentava.
Era como se só ela estivesse vendo aquele problema.
Ela parou em frente a uma vitrine.
Olhou o próprio reflexo.
E sussurrou:
“Se ele não existe… por que eu sinto isso?”
Sua mão tocou o vidro.
E naquele instante, uma memória veio.
Não clara.
Não completa.
Mas suficiente para destruir qualquer certeza.
Uma criança correndo.
Chamando:
“Mãe!”
Isabela recuou assustada.
“Não…”
Ela caiu de joelhos na calçada.
“Isso não é real…”
Mas então algo caiu do seu bolso.
Um papel.
Ela não lembrava de ter pegado aquilo.
Ela abriu.
Era um desenho infantil.
Feito com lápis de cor.
Uma mulher.
Ela.
E ao lado…
um menino.
Escrito em letras tortas:
“MAMÃE ISABELA”
As mãos dela começaram a tremer violentamente.
“Isso… isso não pode estar aqui…”
Ela olhou ao redor.
Ninguém parecia ver nada.
Mas então percebeu algo pior.
O papel começava a desbotar.
Como se estivesse sendo apagado sozinho.
Letras sumindo.
Linhas desaparecendo.
O desenho… deixando de existir.
Isabela gritou:
“NÃO!”
E segurou o papel com força.
Mas já era tarde.
O papel ficou completamente branco.
Sem imagem.
Sem tinta.
Sem criança.
E nesse momento, o último detalhe desapareceu:
uma pequena assinatura no canto inferior…
“Lorenzo”
E então o vento levou o papel vazio da mão dela.
Sem retorno.
Sem rastro.
Sem existência.
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