"A Outra Mulher Que Vive a Minha Vida" PARTE 6
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O vento de São Paulo estava mais frio naquela noite, como se a cidade estivesse assistindo em silêncio ao que estava prestes a acontecer.
Isabela estava sozinha em um pequeno apartamento temporário fornecido pelo hospital. Um lugar neutro, sem identidade, sem conforto, sem qualquer sensação de pertencimento.
Ela não dormia há horas.
O celular vibrava sem parar sobre a mesa.
Notificações.
Mensagens.
Menções.
Antes ela ignorava.
Agora não conseguia mais.
Ela desbloqueou a tela.
E congelou.
Uma notificação de trending topic.
“ISABELA FALSA”
Isabela sentiu o estômago apertar.
“Não…” — ela sussurrou.
Ela abriu o aplicativo.
E viu.
Vídeos.
Entrevistas.
Imagens dela.
Ou melhor… da outra.
A “Isabela Nogueira” estava em uma coletiva de imprensa.
Sorrindo.
Perfeita.
Controlada.
Ao lado de advogados e assessores de comunicação.
A legenda dizia:
“Isabela Vasconcelos reafirma sua identidade e denuncia tentativa de fraude.”
Isabela sentiu o corpo ficar rígido.
“Ela está… falando de mim.”
O vídeo começou a rodar.
A outra Isabela olhava diretamente para a câmera.
“Eu sou a verdadeira Isabela Monteiro Vasconcelos. E estou sendo vítima de uma tentativa de substituição ilegal.”
Isabela quase deixou o celular cair.
A voz era idêntica.
Mas não só isso.
Era confiante.
Organizada.
Perigosa.
A câmera cortou para repórteres.
“Há uma mulher internada alegando ser você. O que você diz sobre isso?”
A outra Isabela sorriu levemente.
“Eu entendo que confusão mental pode acontecer após traumas. Mas isso não muda os fatos.”
Isabela fechou os olhos por um segundo.
“Ela está me destruindo publicamente…”
Quando abriu, estava tremendo.
O celular vibrou novamente.
Outro vídeo.
Agora ao vivo.
A hashtag crescia rapidamente.
#IsabelaVerdadeira
#FraudeHospitalar
#CasoVasconcelos
Isabela sentiu um frio subir pela espinha.
“Eles escolheram ela.”
Ela abriu outro vídeo.
Rafael aparecia ao lado da outra Isabela.
No centro de uma coletiva empresarial.
Avenida Faria Lima.
Grupo Albuquerque Saúde.
Ele estava calmo.
Controlado.
E segurava a mão dela.
Isabela sentiu algo quebrar dentro do peito.
“Não…”
No vídeo, um repórter perguntou:
“Senhor Rafael, existe uma mulher dizendo ser sua esposa legítima internada em um hospital.”
Rafael respondeu sem hesitar:
“Não existe nenhuma evidência confiável disso.”
Isabela soltou um som sufocado.
“Ele disse isso…”
A outra Isabela continuou ao lado dele.
“Eu não vou permitir que minha vida seja usada para confundir o público.”
Isabela largou o celular na mesa.
As mãos tremiam tanto que ela não conseguia mais segurar.
“Eles estão construindo uma realidade inteira…”
O celular vibrou novamente.
Uma ligação.
Número desconhecido.
Ela atendeu.
“Alô?”
Uma voz feminina.
Calma.
Precisa.
“Isabela Monteiro Vasconcelos?”
Isabela hesitou.
“Sim…”
Silêncio breve.
“Você precisa parar de falar publicamente que é quem você diz ser.”
Isabela franziu a testa.
“Quem é você?”
A voz respondeu:
“Departamento jurídico do Grupo Albuquerque Saúde.”
Isabela ficou em silêncio por um segundo.
Depois riu de forma nervosa.
“Vocês estão me ligando para me ameaçar?”
A voz foi fria:
“Estamos te aconselhando.”
Isabela levantou a voz:
“Eu sou a verdadeira Isabela!”
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A resposta veio imediatamente:
“Isso não é o que os registros indicam.”
Silêncio.
A ligação foi encerrada.
Isabela ficou parada.
O celular ainda na mão.
“Eles não vão parar…”
Ela começou a andar pelo pequeno apartamento.
Sem direção.
Sem controle.
“Eles estão me apagando em tempo real.”
O celular vibrou novamente.
Dessa vez uma notificação de notícia:
“Hospital Santa Cecília confirma: paciente em surto psiquiátrico tenta se passar por empresária conhecida.”
Isabela parou.
“Surto psiquiátrico…”
Ela riu.
Mas foi uma risada quebrada.
“Eles me transformaram nisso.”
Na televisão do apartamento, que ela nem lembrava de ter ligado, uma reportagem começou.
Imagens dela.
Entrando no hospital.
Gritando.
Sendo contida.
Narrador:
“Especialistas afirmam que casos raros de confusão de identidade podem ocorrer após traumas neurológicos severos.”
Isabela se aproximou da TV lentamente.
“Não…”
A tela mostrava a outra Isabela novamente.
Agora em uma entrevista exclusiva.
A jornalista perguntou:
“Você sente medo dessa mulher?”
A outra Isabela respondeu com calma perfeita:
“Eu sinto preocupação. Porque ela acredita sinceramente naquilo que diz.”
Isabela deu um passo para trás.
“Ela está… me descrevendo como louca.”
A imagem cortou para um psicólogo comentando:
“Possíveis delírios de identidade são compatíveis com trauma pós-coma.”
Isabela começou a respirar mais rápido.
“Eles escolheram uma narrativa…”
Ela olhou para as próprias mãos.
“Eu virei um erro clínico.”
O celular vibrou novamente.
Mensagem de texto:
“Pare de insistir. Isso só vai te prejudicar mais.”
Sem nome.
Isabela congelou.
“Quem está me vigiando?”
Ela foi até a janela.
Lá fora, São Paulo continuava viva.
Carros.
Luzes.
Pessoas.
Como se nada estivesse acontecendo.
Como se ela não existisse.
Ela encostou a testa no vidro.
“Eu estou aqui…”
Uma pausa.
“Mas o mundo decidiu que não.”
O celular vibrou novamente.
Agora uma notificação de rede social:
“Nova declaração oficial de Isabela Vasconcelos.”
Ela abriu.
Vídeo ao vivo.
A outra Isabela estava novamente em frente às câmeras.
Mas dessa vez algo era diferente.
Ela não estava sozinha.
Rafael estava ao lado.
E uma equipe médica do Hospital Santa Cecília também.
Um dos médicos do hospital falou:
“Confirmamos que não há registros ativos que sustentem a existência de uma segunda identidade funcional.”
Isabela ficou imóvel.
“Eles estão fechando o sistema inteiro…”
A outra Isabela olhou para a câmera.
E disse:
“Eu só quero que isso acabe. Não quero mais ser perseguida.”
Isabela sentiu uma raiva fria subir.
“Ela está usando a minha dor…”
O vídeo continuou.
“Estou pedindo proteção legal contra essa mulher que está me difamando.”
Isabela deu um passo para trás.
“Difamando…”
Ela começou a rir.
Mas agora era desesperador.
“Eu sou a difamada…”
A câmera cortou para Rafael.
Ele olhou diretamente para a outra Isabela.
E disse:
“Isso precisa acabar.”
Isabela congelou.
Não era uma ameaça.
Era uma decisão.
Ela sentiu o corpo inteiro gelar.
“Ele escolheu um lado…”
O celular vibrou mais uma vez.
Mensagem do hospital:
“Isabela, sua condição será reavaliada com urgência.”
Isabela leu lentamente.
E então entendeu.
Não era mais sobre provar quem ela era.
Era sobre decidir o que fazer com ela.
Ela respirou fundo.
E olhou para a própria imagem refletida no vidro da janela.
“Eu virei o problema.”
Uma pausa.
“E agora eles vão tentar me apagar completamente.”
Ela ficou em silêncio.
Do outro lado da cidade, uma nova coletiva estava sendo preparada.
E o nome dela já não era mais tratado como identidade.
Mas como um caso.
Um caso que precisava ser encerrado.
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