"A Outra Mulher Que Vive a Minha Vida" PARTE 4
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O escritório do Hospital Santa Cecília tinha um silêncio diferente naquela manhã. Não era o silêncio calmo de um ambiente controlado, mas um silêncio pesado, administrativo, como se tudo ali estivesse sendo observado por algo invisível.
Isabela estava sentada em uma sala pequena, com paredes brancas e uma mesa de vidro no centro.
À sua frente, um homem de terno escuro organizava uma pilha de documentos. Ao lado dele, uma advogada do hospital revisava arquivos em um tablet.
Ela não havia dormido.
Não desde que viu o próprio casamento na televisão.
Nem desde que Rafael disse que não a reconhecia.
Ela mantinha os olhos fixos na mesa.
“Esses são os registros financeiros e jurídicos associados ao seu CPF.” — disse o homem, sem levantar o olhar.
Isabela franziu a testa.
“Meu CPF…”
Ele empurrou os papéis em direção a ela.
“Sim.”
Ela hesitou antes de pegar o primeiro documento.
Era um contrato bancário do Banco Bradesco.
Assinatura.
Ela olhou.
E congelou.
“Isso não é minha assinatura…” — disse imediatamente.
A advogada respondeu sem emoção:
“É compatível com assinatura registrada em múltiplos sistemas digitais.”
Isabela levantou os olhos.
“Compatível não significa verdadeiro.”
O homem continuou virando as páginas.
Outro contrato.
Itaú.
Outro.
Santander.
Todos com a mesma assinatura.
Todas com o nome dela.
Isabela começou a sentir o ar ficar mais pesado.
“Eu nunca assinei isso.”
A advogada respondeu:
“Há registros de autenticação biométrica.”
Isabela soltou uma risada curta e nervosa.
“Então alguém usou meu corpo.”
O homem finalmente olhou para ela.
“Ou você usou.”
A frase bateu como um choque seco.
Isabela levantou rapidamente da cadeira.
“Eu não estava aqui!”
A advogada manteve a calma.
“Os sistemas mostram atividade contínua nos últimos dois anos.”
Isabela apontou para os documentos.
“Isso é impossível!”
O homem abriu outro arquivo.
Dessa vez, um contrato corporativo.
Grupo Albuquerque Saúde.
Isabela congelou ao ver o nome.
“Isso é do Rafael…”
O homem assentiu.
“Assinado por você.”
Isabela deu um passo para trás.
“Não…”
A advogada virou a tela do tablet.
“Reuniões internas, decisões estratégicas, movimentações de capital. Tudo autorizado por você.”
Isabela balançou a cabeça repetidamente.
“Eu não fiz isso.”
O homem continuou.
“Transferências bancárias também.”
Ele deslizou outro documento.
Uma lista de contas.
Movimentações milionárias.
Isabela sentiu o estômago virar.
“Vocês estão dizendo que eu vivi uma vida inteira sem saber?”
A advogada respondeu:
“Não estamos dizendo isso.”
Uma pausa.
“Estamos dizendo que há registros consistentes de continuidade da sua identidade.”
Isabela apertou os punhos.
“Ou alguém construiu isso.”
Silêncio.
O homem fechou a pasta por um segundo.
“Isso não é simples fraude.”
Isabela virou o rosto rapidamente.
“Então o que é?”
Ele olhou diretamente para ela.
“É continuidade funcional.”
A palavra ficou suspensa no ar.
Isabela repetiu lentamente:
“Continuidade funcional…”
A advogada completou:
“Você não apenas existe nos registros. Você opera neles.”
Isabela sentiu as pernas fraquejarem levemente.
“Isso não faz sentido…”
O homem empurrou outro envelope.
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“Tem mais.”
Isabela abriu.
Dentro havia fotos.
Eventos sociais.
Reuniões empresariais.
Jantares em Faria Lima.
E ela.
Sempre ela.
Mas não aquela que estava ali naquele momento.
Uma versão mais estável.
Mais confiante.
Sorrindo em ambientes que ela não lembrava.
Isabela respirou com dificuldade.
“Isso não sou eu.”
A advogada respondeu:
“É você para o sistema.”
Isabela levantou o olhar, irritada.
“Sistema não decide quem eu sou.”
O homem fechou o tablet.
“Mas ele decide quem tem acesso à sua identidade.”
Silêncio.
Isabela sentiu algo estranho naquele momento.
Não era mais apenas confusão.
Era uma sensação crescente de estar sendo observada como um objeto.
“Vocês estão tratando minha vida como um arquivo.”
A advogada não negou.
“Estamos tratando como dados verificáveis.”
Isabela bateu a mão na mesa.
“Eu sou uma pessoa!”
O som ecoou na sala.
Ninguém reagiu com emoção.
Isso a deixou ainda mais irritada.
Ela respirou fundo.
“Então me expliquem isso.”
Ela pegou uma das folhas.
“Essa assinatura não é minha.”
O homem respondeu:
“Mas o sistema diz que é.”
Isabela apontou para ele.
“Então o sistema está errado.”
Ele respondeu:
“Ou você está incompleta.”
A frase caiu como uma lâmina.
Isabela ficou imóvel.
“Como assim incompleta?”
A advogada hesitou por um segundo antes de responder:
“Há lacunas no seu histórico clínico.”
Isabela franziu a testa.
“Lacunas?”
O homem abriu outro arquivo.
“Dois anos sem registro consciente verificável.”
Isabela interrompeu imediatamente:
“Eu estava aqui!”
A advogada respondeu:
“Mas sem consciência documentada.”
Isabela começou a andar pela sala, inquieta.
“Isso não faz sentido… vocês estão dizendo que alguém viveu minha vida enquanto eu não estava consciente.”
O homem respondeu:
“Ou enquanto você não era a única versão ativa.”
Isabela parou.
“Versão?”
Ele a encarou.
“Sim.”
Silêncio.
Isabela sentiu o coração acelerar.
“Vocês estão sugerindo que existe outra pessoa usando meu nome.”
A advogada respondeu com calma:
“Não sugerimos. Observamos registros consistentes.”
Isabela riu sem humor.
“Então vocês acreditam nisso.”
O homem respondeu:
“Os dados não exigem crença.”
Isabela ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois falou mais baixo:
“E Rafael?”
O homem hesitou.
Isabela insistiu:
“Ele assinou isso também?”
A advogada respondeu:
“Ele autorizou parte das operações.”
Isabela sentiu um aperto no peito.
“Ele sabia…”
Silêncio.
Ela deu um passo para trás.
“Ele sempre soube.”
O homem fechou a pasta novamente.
“Isso não é confirmado.”
Isabela respondeu imediatamente:
“Mas também não é negado.”
Ninguém respondeu.
Ela respirou fundo.
E pela primeira vez, a ideia começou a se formar de maneira clara.
Não era apenas sobre uma mulher vivendo sua vida.
Não era apenas sobre uma substituição.
Era algo mais estruturado.
Mais organizado.
Mais frio.
Ela olhou para os documentos novamente.
“Isso não é fraude…”
Silêncio.
Ela continuou:
“Isso é cópia.”
A advogada franziu levemente a testa.
Isabela deu um passo à frente.
“Alguém não está fingindo ser eu.”
Ela apontou para os papéis.
“Alguém me replicou.”
O homem não respondeu imediatamente.
O silêncio dele foi suficiente para alterar completamente o ambiente.
Isabela sentiu um arrepio subir pela espinha.
Ela respirou fundo.
“Eu não estou perdendo minha vida.”
Uma pausa.
“Eu estou sendo substituída.”
O homem finalmente falou:
“Essa é uma hipótese em análise.”
Isabela fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, sua expressão já tinha mudado.
Menos choque.
Mais determinação.
“Então eu quero ver tudo.”
A advogada respondeu:
“Isso não é permitido integralmente.”
Isabela virou rapidamente.
“Por quê?”
Silêncio.
O homem respondeu com cuidado:
“Porque isso pode comprometer a estabilidade das duas versões.”
Isabela ficou imóvel.
“Duas versões…”
Ela repetiu lentamente.
E pela primeira vez, não parecia mais dúvida.
Parecia confirmação.
Ela olhou para os documentos espalhados.
Para a assinatura que não era dela.
Para a vida que existia sem ela.
E então falou, quase em sussurro:
“Então existe mesmo outra de mim.”
Ninguém respondeu.
Mas o silêncio já não era negação.
Era reconhecimento.
Isabela pegou uma das folhas novamente, olhando fixamente para a assinatura.
E naquele instante, percebeu algo ainda mais perturbador do que ter sido substituída.
Se havia outra versão dela operando no mundo…
alguém precisava ter criado as duas.
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