"A Outra Mulher Que Vive a Minha Vida" PARTE 3
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O céu de São Paulo estava cinzento naquela tarde, como se a cidade inteira tivesse absorvido o peso daquilo que Isabela estava prestes a enfrentar.
O carro do hospital atravessava lentamente a Avenida Faria Lima, mas dentro dele o ar parecia parado, sufocante.
Isabela estava sentada no banco traseiro, entre a mãe e uma enfermeira designada pelo Hospital Santa Cecília. As mãos dela tremiam, mesmo quando tentava escondê-las no colo. Cada semáforo parecia durar mais do que o normal.
Ela não tinha mais lágrimas naquele momento. Só um tipo estranho de lucidez que doía.
“Vocês vão me levar até ele, certo?” — ela perguntou, sem tirar os olhos da janela.
A mãe não respondeu imediatamente.
“Isabela… talvez não seja o melhor momento.”
Isabela virou o rosto rapidamente.
“Não existe ‘melhor momento’. Ele está com outra pessoa vivendo a minha vida.”
O silêncio no carro ficou pesado.
A enfermeira olhou para frente, desconfortável, sem interferir.
O carro entrou no bairro Jardim Europa. Árvores altas, ruas silenciosas, mansões escondidas atrás de muros de vidro e concreto. Tudo ali parecia intacto, como se o mundo não tivesse nenhuma rachadura.
Mas dentro de Isabela, tudo estava quebrado.
Quando o carro parou em frente à mansão dos Vasconcelos, ela sentiu o estômago apertar.
A casa dela.
Ou… a casa que um dia foi dela.
A porta foi aberta pelo motorista. A mãe desceu primeiro, depois a enfermeira. Isabela ficou parada por alguns segundos, olhando para a entrada.
“Você quer mesmo fazer isso?” — perguntou o médico, que havia chegado em outro carro.
Isabela respondeu sem hesitar:
“Eu já não tenho mais nada para perder.”
Ela saiu do carro.
O jardim estava exatamente como ela lembrava… e ao mesmo tempo não. Pequenos detalhes pareciam diferentes. Uma planta nova ali. Uma fonte reformada. Pequenas alterações que não deveriam existir em uma memória tão forte.
A porta principal se abriu antes mesmo de ela chegar.
E ele apareceu.
Rafael Albuquerque Vasconcelos.
Alto, postura firme, expressão controlada.
Mas os olhos… estavam frios.
Isabela deu um passo à frente.
“Rafael…”
Ele não respondeu imediatamente.
A mãe dela ficou alguns passos atrás, observando em silêncio.
Rafael olhou para Isabela como se estivesse avaliando algo estranho.
“Quem deixou ela vir aqui?” — ele perguntou, sem emoção.
Isabela sentiu como se tivesse levado um tapa.
“Eu não preciso de permissão para entrar na minha casa.”
Ele franziu levemente a testa.
“Essa não é mais sua casa.”
O ar sumiu do peito dela.
“Como você pode dizer isso?”
Rafael cruzou os braços.
“Porque a Isabela está lá dentro.”
Isabela deu uma risada curta, incrédula.
“Eu sou a Isabela.”
Ele não demonstrou reação.
“Não.”
O silêncio entre eles foi imediato e brutal.
Isabela deu um passo à frente.
“Você está olhando para mim agora.”
Rafael respondeu com calma assustadora:
“Eu estou olhando para uma mulher que o hospital está tentando identificar.”
As mãos dela começaram a tremer novamente.
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“Você me conhece. Você me toca. Você… você me beijou.”
Ele respirou fundo, como se estivesse cansado.
“Eu não sei quem você é.”
Essas palavras não vieram com raiva.
Vieram com certeza.
Isabela ficou imóvel.
“Isso não é possível…”
Rafael deu um passo para o lado.
“Se você realmente fosse ela, saberia que eu não tenho dúvidas sobre isso.”
A mãe de Isabela tentou intervir:
“Rafael, ela acabou de acordar. Ela está confusa.”
Ele olhou para a sogra.
“Eu não estou confuso.”
Isabela levantou a voz pela primeira vez:
“Então quem é aquela mulher dentro da sua casa?”
Rafael respondeu sem hesitar:
“A minha esposa.”
O mundo de Isabela perdeu o eixo.
Ela deu um passo para trás.
“Não…”
Ele continuou:
“Ela está comigo há dois anos. Ela conhece a minha vida. Ela administra a empresa comigo. Ela me acompanhou em tudo.”
Isabela começou a rir de nervoso.
“Você está dizendo isso como se fosse normal.”
Rafael respondeu:
“É a minha realidade.”
Isabela apontou para si mesma.
“E eu?”
Ele olhou para ela por alguns segundos.
“Você não faz parte dela.”
A frase foi simples.
Mas destruiu qualquer controle que ela ainda tinha.
Isabela respirou com dificuldade.
“Você está sendo manipulado.”
Rafael estreitou o olhar.
“Eu estou sendo manipulado por quem?”
Ela abriu a boca… e parou.
Não tinha resposta.
O médico deu um passo à frente.
“Senhor Rafael, nós precisamos considerar a possibilidade de duplicação de identidade neurológica ou experimento clínico não autorizado.”
Rafael interrompeu imediatamente:
“Eu não vou ouvir teorias.”
Isabela deu um passo em direção a ele.
“Eu não sou teoria!”
Ele não recuou.
“Então prove.”
Silêncio.
Isabela parou.
Provar.
Como?
Ela sentiu o mundo escorregar sob os pés.
“Eu sei coisas que só você e eu sabemos.”
Rafael respondeu imediatamente:
“Ela também sabe.”
Isabela congelou.
“Não… isso não é possível.”
Ele continuou:
“Ela sabe como eu gosto do café. Ela sabe o nome da minha mãe. Ela sabe tudo sobre a minha vida com você.”
Isabela começou a balançar a cabeça lentamente.
“Não… não…”
A enfermeira observava em silêncio, claramente desconfortável.
A mãe de Isabela estava chorando novamente.
Rafael deu um passo para trás em direção à entrada da casa.
“Eu não posso ajudar você.”
Isabela gritou:
“Rafael!”
Ele parou.
Mas não virou completamente.
Ela respirou fundo, tentando manter a voz firme.
“Se eu não sou ela… por que eu sinto tudo que ela viveu?”
Rafael ficou em silêncio por um segundo.
Depois respondeu:
“Isso não é problema meu.”
E entrou na casa.
A porta se fechou.
O som foi seco.
Definitivo.
Isabela ficou parada no jardim.
Sem movimento.
Sem reação.
A mãe tentou se aproximar:
“Filha…”
Isabela levantou a mão, impedindo.
“Não.”
Ela olhava fixamente para a porta fechada.
“Ele me expulsou.”
O médico falou baixo:
“Isabela, nós precisamos sair daqui.”
Ela não respondeu.
Seu olhar estava perdido em algum ponto entre a realidade e o colapso.
“Ele escolheu ela.”
Ninguém respondeu.
Isabela respirou fundo.
E virou-se lentamente.
Ela começou a andar.
Sozinha.
Ninguém tentou segui-la de imediato.
Ela atravessou o portão da mansão, caminhando pela rua silenciosa de Jardim Europa, como se cada passo retirasse algo dela.
O médico chamou:
“Isabela!”
Mas ela não parou.
Ela continuou andando até chegar à esquina.
E então parou.
Pegou o celular emprestado que haviam lhe dado no hospital.
Tentou desbloquear.
Erro.
Tentou novamente.
Erro.
Mais uma vez.
Sistema bloqueado.
Ela piscou lentamente.
“Isso não pode estar acontecendo…”
Abriu o aplicativo do banco.
Conta não encontrada.
Isabela ficou imóvel.
“Não…”
Tentou outro banco.
Acesso negado.
Outra instituição.
Conta inexistente.
O celular pareceu pesar uma tonelada nas mãos dela.
Atrás dela, o médico se aproximou cautelosamente.
“Isabela…”
Ela não olhou para ele.
“Eles apagaram minha vida.”
O médico respondeu com cuidado:
“Pode ser uma suspensão temporária por investigação…”
Isabela virou o rosto lentamente.
“Investigação de quem?”
Ele não respondeu imediatamente.
Isso foi suficiente.
Isabela abriu novamente o aplicativo.
Nada.
Nenhum registro financeiro.
Nenhuma identidade ativa.
Nenhum acesso.
Ela soltou o celular lentamente.
E pela primeira vez desde que acordou no hospital, sua voz saiu quase sem som:
“Eu não tenho mais nada.”
O vento de São Paulo passou entre os carros ao fundo.
E Isabela ficou ali, parada na calçada de Jardim Europa, olhando para um mundo que ainda funcionava perfeitamente…
sem ela dentro dele.
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